Mais um ano em que o resumo sobre
os zines / edição Do It Yourself é analisado de uma forma (demasiada)
esquemática, não por preguiça mas por pragmatismo dada às muitas variáveis
deste tipo de edição em
Portugal.
Houve uma evolução com características nítidas até 2001 que
têm sido pouco a pouco pulverizadas com a solidificação da edição DTP (desktop
publishing) que inclui a expansão para o ciberespaço, e a crise económica do
nosso país cujos efeitos são difíceis de contabilizar.
Nesta fragmentação que nos
acompanha desde 2002 não tem havido novidades até este ano surgirem uma série
de novas publicações que podem ser colocadas num saco X e que obrigam a uma
observação mais critica (parte X) da minha parte.
Assim sendo, por tópicos o que
2005 pariu:
I. Keep on truckin’:
Os zines Porca Frita, Aqui no
Canto, Na verdade tenho 60 anos e Gatafunho continuaram a sair.
Foi mais um ano de feiras de
zines e edições independentes em sítios tão diversificados como nos Jardins do
Estoril e na Caixa Económica Operária (Lisboa) ou em eventos como Cidade
Desconhecida (Viseu), Salão Lisboa 2005, BejAlternativa, Feira Laica II (na
Bedeteca de Lisboa), Zurzir o Gigante (Lisboa), Festival de BD do Pinhal Novo e
Encontro de BD de Sto. Tirso ou no festival Superstereo Demonstration (Linhares da Beira).
O zine suíço Milk & Wodka continuou com a sua quota de participação anual de autores portugueses.
Dos independentes até foi um ano
com algumas novidades: a MMMNNNRRRG editou o Malus do britânico Christopher
Webster, a Associação Chili Com Carne
lançou o último volume da CCC Ilustrada (Mesinha de Cabeceira) e um livro de
esboços de João Cabaço (Do acidente e da culinária), o zine Zundap investiu
no Piolheira Blues de Artur Varela, e Paulo Patrício publicou o segundo
número do desdobrável Le Sketch com esboços do norte-americano Matt Maden.
II. Zombies:
Regressou a Feira de Fanzines de
Almada, após 4 (longos) anos de interregno, com uma programação simpática mas
esqueceram-se que os zines “já não existem” (em quantidade e no tradicional
formato de fotocópia) e não souberam gerir esse problema da melhor forma.
Esperemos que ainda haja uma edição em 2007 e não em 2009.
A revista Satélite
Internacional demorou um ano a deitar cá para fora o número duplo 4/5
(especial "Sputnik" e sem imagens). Só publicou – e compensou o desafio - textos sobre bd escritos pelos alguns dos
melhores críticos nacionais e internacionais. Um documento único em Portugal.
A Lx Comics voltou com um
número, depois da contabilização negativa de 2004. Relembro, que esta situação
– a ausência de publicação em 2004 – foi devido à falta de propostas e não
devido a questões orçamentais. Um novo número já está a ser preparado para
2006. Espero que estejamos numa situação de recuperação da colecção!
III. Reload
Uma emergente corrente de autores
de bd, ilustradores e críticos tem criado os seus sítios na Internet, sobretudo
na forma de blogues: André Lemos,
Barbara Ròf, João Maio Pinto, José
Feitor, Rui
Gamito, Geraldes Lino, Pedro Moura, Nuno Franco, etc…
Também houve uma participação
portuguesa tímida no site www.40075km-comics.net – organizado pelo colectivo
belga L’Employé du Moi.
IV. Fim de ciclo?
David Soares aparentemente
abandonou o seu projecto editorial Círculo de Abuso, onde editou sete edições (não
só de bd mas também de poesia, conto e ensaio) entre 2000 e 2004. Demonstrando
cansaço perfeitamente legítimo pelas lides (auto)editoriais, optou por uma
editora já estabelecida, a Polvo,
para o seu segundo livro de contos.
V. Back to the future
O workshop do colectivo francês
Le Dernier Cri promovido pelo Salão Lisboa 2005 trouxe dois frutos: por um
lado, o resultado prático do workshop que foi a saída de 50 exemplares do
graphzine Tome Celo com os trabalhos dos participantes; por outro, a aplicação
desses moldes experimentados por André Lemos
(que tinha participado no inspirador workshop), em Tribune Brute, edição da
MMMNNNRRRG com o apoio de Mike Goes West. Mais objectos destes para o futuro?
Espero que sim…
VI. Falsos novos
Novidades de zines não houve – e
se houve nada que chamasse a atenção – mas na prática houve novos títulos
vindos de autores/ editores já conhecidos, que continuaram a produzir ora com
novos conceitos ora metamorfoseando os títulos das suas publicações. O
divulgador mais activo de sempre, Geraldes Lino, apanhou uma série de autores
para o seu novo Jazzbanda (dedicado ao Jazz) e para o Nemo no Século XXI (para homenagear o Little Nemo in Slumberland). Joana Figueiredo fez o The
Last Hurrah (incluindo trabalhos de Rafael Gouveia, Pitchu, José Feitor, André Lemos…) e o emigrado Pitchu o Car Crash (versus o colectivo norueguês Dongery).
Destaque, pela qualidade,
experimentação e regularidade dos zines de Marco
Mendes, Miguel Carneiro
& cia, Lamb Haert, Hum hum estou a ver… e Deja-me Solo! Estou careca e
a minha cadela vai morrer… Para 2006 prometem novidades pujantes!
VII. Easy come, easy go
Do underground para o mainstream,
só houve o João Maio Pinto a
substituir o Rui
Ricardo na série de bd “Superfuzz”, no jornal Blitz, mas
poucos meses a série foi cancelada – dada às remodelações internas da redacção
e crise do jornal. Nenhuma explicação foi dada aos fãs da série.
A edição ilustrada do Público – para o Salão Lisboa 2005 como tem sido
hábito todos os anos desde 1998 – teve direito a um interessante “refresh”.
Nessa edição em espaços predefinidos do jornal foram convidados autores de bd
(e ilustradores) para realizar a sua própria “crónica gráfica-narrativa” em vez
de da mera ilustração de notícias. No caso da bd – que parece-me que correu de
forma mais incisiva e sumarenta – foram publicados autores directamente vindos
dos “indies” como
João Maio Pinto, Sandy Gageiro e
José Feitor (do extinto Zundap), Marte e Pedro Brito,
Francisco Sousa Lobo.
Geraldes Lino tem também
conseguido mobilizar autores para serem publicados no jornal Mundo
Universitário, tendo já passado por lá o Pepedelrey,
Jorge Coelho, etc… curiosamente consegue fazer com que os autores sejam pagos ao
contrário do gigante Público!
VIII. Work
A inaugurada Bedeteca de Beja
elaborou uma exposição dedicada aos “10 anos do Submarino”.
Submarino é um fanzine de bd que
existe desde 1995, resultado do Atelier de BD organizado pela Câmara de Beja
para crianças entre os 7 e os 13 anos. Pretende essencialmente estimular nos
jovens o gosto pela bd, o Submarino é o seu veículo de publicação dos resultados dos seus pequenos participantes.
Curiosamente «torna-o num dos fanzines mais antigos do país, o que não deixa de
ser um facto interessante.»
Houve worshops em Cascais (de
zines) e em Braga
(de bd) que resultou no zine Velha-Desenhada. Os resultados foram zines em
fotocópias, nada a declarar.
XIX. DIY
Zurzir o Gigante foi um evento
organizado por um grupo informal de artistas gráficos com o objectivo de
proporcionar a compra de originais de ilustração ao mesmo tempo que criaram um
espaço agradável de convívio e troca de experiências artísticas durante três
dias de Dezembro. Esta iniciativa insere-se numa lógica que pretende a
proximidade entre o público e os artistas, e a possibilidade da aquisição de
obras de arte a preços acessíveis, desafiando assim a filosofia das galerias de
arte, através da realização de eventos organizados e promovidos pelos próprios
artistas, sem intermediários. A experiência filia-se em outras já ensaiadas e
plenamente conseguidas, como A Arte dos Trezentos (2001), as Fantasias de Natal (2003) e as mostras de ilustração que decorreram paralelamente às diferentes
edições da Feira Laica – a última realizada na Bedeteca de Lisboa.
Apesar do texto acima ser um
excerto adaptado da nota de imprensa da organização, serve para relembrar que
(pelo menos no Natal)
há sempre um grupo que inventa uma capacidade sinérgica temporária para
realizar um evento que divulga “artes gráficas” (bd incluída) sem apoios
institucionais de relevância. E que consegue de uma forma ou de outra
impressionar os meios artísticos raquíticos da capital pela frescura e
sinceridade das propostas. Estes eventos mostram o quanto um conjunto de
pessoas pode criar uma diferença no meio. O problema é que "colectivo” em
português também significa “temporário”.
X. Novos Rituais de Passagem
A bd portuguesa de 2005 tem uma
nova característica curiosa em relação ao seu passado, nomeadamente foi um ano
de proliferação de projectos editorais que apoiam a produção amadora. Da
Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL) nasceu um Núcleo de
BD que editou já dois números da revista Blazt (o número zero intitulava-se Blastmagazine), a Bedeteca de Beja lançou a revista Venham +5 e a colecção Toupeira (uma
mimética da Lx Comics), a AJ-COI começou a revista Sketchbook e o CITEN publicou
o livro Memórias 10 – sendo que a direcção deseja continuar a editar livros dos participantes dos
seus cursos de BD, Ilustração e Argumento.
A chatice destas edições é que
todas elas são cheias de boas intenções mas falham naquilo que se pretende: bd
nova, bd feita por autores que tenham coisas para dizer, bd que se tenha prazer
de ler - ou um incómodo pela novidade criativa. A maior parte – senão todos –
dos autores não conseguem criar discursos próprios para podermos destacar um –
talvez haja um, o Ricardo Cabral (da Blazt) exclusivamente pela sua extraordinária capacidade técnica gráfica. O
que acontece é que existem programas que estão a ser cumpridos: o CITEN a
incentivar uma experiência para-pedagógica, o Núcleo da FBAUL a projectar os
seus alunos, a Bedeteca de Beja o talento local, etc… mas nenhum conseguiu
fugir do “talento verde” cheio de clichés e repetições de ideias gastas, resultado
contra a maré especialmente numa era em que há mais informação disponível (via
lojas, festivais, Internet) e que a bd vive tempos de perfeita expansão de
temas e formas – independentemente dos radicalismos, temos desde o jornalismo
ao naíf, dos jogos oubapos à pintura, etc…
Gosto de pensar que isto é o
início de algo que irá amadurecer no futuro mas se acrescentarmos o facto que
publicam na alçada de instituições – a AJ-COI é uma associação que depende da
iniciativa privada do seu grupo fundador uma vez que não está inserido numa
câmara municipal ou numa escola – parece que estamos no pior paternalismo que é
tão típico em
Portugal. Receio que maior parte destes principiantes
ficariam encostados à bananeira se não tivessem tido estes produtores /
editores a publicar os seus trabalhos sem grandes exigências.
A desilusão que sinto neste
desperdício de meios não me leva a declarar que estes projectos não devem
existir ou que não mereçam apoio, o que me incomoda é a falta de consciência
dos seus intervenientes que parecem necessitar preencher os egos invés de quererem
criar um trajecto artístico – eles dirão que não, claro – e pior, o que dá a
entender é que a “iniciativa privada” está morta, não é possível concretizá-la
ou ninguém quer concretizá-la ignorando o sucesso que venha a ter ou não.
Parece o que aconteceu nos anos 90 já não existe, relembro, que foi a
iniciativa privada dos autores que construíram as suas carreiras (ou se
preferirem experiências) talvez porque esses autores tinham algo para dizer de
tão urgente que tiveram de ir em frente de qualquer forma fosse com zines
fotocopiados, fosse com pequenas editoras, etc… Talvez por ter vivido esses
momentos que agora pareço um reaccionário mas desta mão cheia de edições não
houve uma única vez que tenha sentido algo na sua leitura. Serei eu?
Como projectos editoriais parece
que estamos perante um limbo ou uma “terra de ninguém” porque não sendo eles
mediáticos (foram ignorados na essência seja pela imprensa generalista quer
pela especializada) e nunca ultrapassando a baixa tiragem de 500 exemplares
parecem que se inserem nesta secção de “zines e edição independente” mas acho
que eles não tem o pathos do DIY. Não tem a selvajaria da criação. De todos, o
mais genuíno (e para mim logo o mais interessante) parece-me que será o
Sketchbook pela forma como
estão a trabalhar. Elaboraram um concurso e um festival de bd para apanhar
talentos e lançaram o desafio para explorá-los. Nas suas páginas almeja-se que
os autores produzam bd’s de 10 páginas – cada número trará 2 bd’s de autores
diferentes – sem alguma espécie de tema predefinido. Mas também tinham de ser
eles a porem o pé na poça ao escrevem algures na nota de imprensa que em Portugal
«também temos Morrisons, Moebius, Palmiottis e Isanoves, que merecem que lhes
seja dada uma oportunidade». Assumir o cliché como apanágio de um possível profissionalismo
parece-me um bocado parvo. Pergunto-me se eles não podiam dizer que o que temos
é este tipo com nome bem português e que ele vale por si só, que esse tipo não
é o Grant Morrison e ainda bem porque no mundo já existe um e não queremos mais
Morrisons caso contrário o mundo seria neutral. A bd portuguesa já criou os
seus fenómenos únicos e inimitáveis como
o Filipe
Abranches ou a Ana Cortesão
sem este discurso entre o naif e o pretensioso. Não é isso que interessa?