quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2008 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2008)

Só se fala em crise neste nosso país mas parece que a máxima “em tempos de crise é que aparece a criatividade” acaba por ser verdade. Não que tenham aparecido muitas inovações, como aconteceu nos anos 90 e princípios de milénio mas pelo menos no mundo da edição independente – seja fanzine, zines, livros de autor – tem havido massa crítica o suficiente nem que seja para escrever um texto como este.

 

Muitas páginas, apesar da crise…

Desde já, é de constatar que continuaram a ser publicados os seguintes fanzines e zines: o Boletim CPBD, Facada de Tiago Baptista, [R]eject de Andreia Rechena, Tertúlia BDzine e Efeméride ambos editados por Geraldes Lino. Regressou o Gambuzine de Teresa Câmara Pestana, agora como uma nova numeração / nova série. A Joana Figueiredo lançou mais um zine com um título marado – desta vez é o Post Shit que fez tanto sucesso no Crack (Roma) e no Festival de Helsínquia que acho que não deve ter chegado a ser divulgado em Portugal… - e Os Gajos da Mula lançaram Fantôme Galicia. O autor algarvio Phermad lançou a colectânea De trute ise aute der que compila bd’s publicadas no seu antigo projecto, o zine Terminal.

Novinhos em folha foram Znok de Filipe Duarte e Faixa 9, um zine dedicado a «ambiências musicais em BD». E apareceu o um novo colectivo gráfico, o Hülülülü, que lançou cinco títulos em poucos meses de actividade – nada mal uma vez que o ano passado queixava-me que não havia uma nova geração de autores.

Em formato mais profissional saiu o número dois do Alçapão – fanzine de arquitectura dura que incluiu uma bd de João Sequeira e muita (boa) ilustração; Le Sketch, projecto de Paulo Patrício; os Opuntias Books materializaram-se em três novos títulos com aspecto luxuoso e muito apelativo; a Kingpin lançou os terceiros volumes das suas séries; a Imprensa Canalha editou mais uns graphzines e a antologia Cabeça de Ferro; a Chili Com Carne lançou um volume de Mercantologia, colecção dedicada a recuperar material dos zines, intitulado Noitadas, Deprês e Bubas que reedita bd’s antigas do Mesinha de Cabeceira. A Bedeteca de Beja continuou o Venham+5 (num formato de antologia na linha da revista Quadrado ou do Mutate & Survive) e a colecção Toupeira com uma bd de Susa Monteiro.

Novidades: saiu um livro intitulado Murmúrios das Profundezas que apesar de ter resultados muito pobres a todos níveis (o texto, as adaptações, os desenhos e técnica das bd’s e o design) é interessante porque é um projecto sinergético e colectivo para um país cheio de individualistas. Copiando o “template” que foi o Virgin’s Trip (El Pep; 2006), reúne autores envolta de um tema comum, neste caso estórias do H.P. Lovecraft que são adaptadas para bd. O esforço de fazer um livro “grande” é assim partilhado e sendo colectivo tem mais hipóteses de chegar a mais público também. Creio que podia ser um bom modelo para que a haja mais edição em Portugal… Apareceu uma nova editora, a Plana Press que lançou dois títulos: Pandora Complexa 500 de Julio Dolbeth e Rui Vitorino Santos (de ilustração) e Tomorrow the Chinese Will Deliver the Pandas de Marco Mendes (de bd). E a Associação Cinema Ao Norte iniciou uma nova colecção de bd, O filme da minha vida, onde já saíram dois títulos, um de André Lemos e outro de Daniel Lima. O Serrote estreou-se na edição de livros de ilustração com Minho e Nouveau Dictionnaire de Français, ambos de Nuno Neves.

De referir também o livro Os Frescos da Aldeia das Amoreiras editado pelo Centro de Convergência / GAIA, que documenta uma experiência de bd na forma de pintura mural numa aldeia alentejana.

 

De um lado para o outro

 A Aldeia Global continua em alta, especialmente necessária para abrir as cabeças periféricas portuguesas a novas ideias, experiências, contactos e projectos.

Passaram por Lisboa no âmbito da exposição Honey Talks o autor Jakob Klemencic (publicado em Portugal pela Polvo e Chili Com Carne e na Quadrado) e o editor David Krancan, ambos da revista eslovena Stripburger; o colectivo brasileiro do zine Bongolê Bongoró esteve no evento Brucutumia 2008; o francês Guillaume Soutlages esteve durante a Feira Laica na Bedeteca de Lisboa; a sueca Kriistina Kohlemainen (organizadora da SPX de Estocolmo) foi convidada para os colóquios Banda Desenhada e Bibliotecas, e o polémico autor norte-americano Mike Diana esteve no Furacão Mitra. Ainda de referir as autoras finlandesas Anna Kaisa Laine e Tiitu Takalo que acidentalmente caíram (de pára-quedas?) na Feira de Fanzines de Almada e Feira Laica de Coimbra.

Mas também houve o inverso, portugueses a visitarem eventos internacionais como representantes da Chili Com Carne que foram ao Festival de Angoulême (França), SPX (Suécia), Crack (Itália), Festival de Helsínquia – também a Chili Com Carne foi representada no Boom Fest, em S. Petersburgo. Filipe Abranches esteve nas Xornadas de BD de Ourense e os Gajos da Mula foram ao Proxecto Edición em Pontevedra (Galiza).

A nível de publicação, alguns autores portugueses participaram em publicações estrangeiras como Filipe Abranches na Stripburger e Splot (Polónia), uma série de autores no habitual zine suíço Milk+Wodka, Teresa Câmara Pestana no zine feminino e finlandês Irtoparta, Richard Câmara no zine espanhol ARGH!, o autor destas linhas no «jornal ilustrado com um mês de atraso» Aooleu (Roménia), e como sempre André Lemos é o autor mais internacional que colaborou nos seguintes zines (espero ter apanhado todos!): La Commissure (França), Zine Arcade (Inglaterra), Lazer Artzine (Bélgica) e Elk (EUA).

 

 Ao metro quadrado

 A questão de espaços e eventos tem sido cada vez mais notável e importante na cena independente uma vez que ao acesso de edições “indies” estarem vedadas ou ignoradas pelo mercado livreiro e até das ditas “lojas especializadas”.

Foi um ano em que em Lisboa fecharam a loja de Design Goma 386 e a galeria Work&Shop, sítios que comercializavam produções independentes e organizavam exposições de ilustração e bd. Em compensação, as lojas Central Comics, Kinpin Books e Mundo Fantasma reformularam os seus espaços dando uma maior dinâmica à produção nacional, e no Porto abriram a Dama Aflita e a Inc., a primeira é uma galeria dedicada à ilustração e a segunda uma livraria de edições de autor.

Talvez pela falta de estabilidade dos espaços comerciais portugueses é que se tem solidificado cada vez mais eventos “indies” em volta da edição, cada vez mais com uma programação ousada. Este ano houve três edições da Feira Laica, as segundas edições da MAGA nas Caldas da Rainha e do Bunny Weekend em Lagos – e o celebrado Furacão Mitra. Foi o ano de uma Feira de Fanzines de Almada que mais valia não regressar já que a organização actual do evento é incapaz de envolver a comunidade fanzinista na sua programação.

Desapaixonado este texto? Sim, sem dúvida… As edições relatadas também o são? Nada disso, não me permitindo fazer muitos juízos de qualidade – por várias razões, entre elas porque estes relatos não o permitem e por outro fazendo eu próprio parte da “cena”… Que giro! É que existe mesmo uma “cena”! – mas dizia, não me permitindo a fazer esses juízos, só há algo a fazer, é procurar estes títulos, estas editoras e julgar por si mesmo.

Como tudo na vida encontrará coisas que não serão do total agrado, outras pelo contrário serão revelações mas só nesta “cena” é que poderão desfrutar prazeres narrativos e estéticos porque de resto, na sua livraria predilecta a bd deixou de existir – não sei que dirá o Daniel Maia este ano nas “Edições” – tal como acontecia até aparecer a Bedeteca de Lisboa em 1996. Resumindo, nas livrarias não acontece nada… se existe algo é no mundo dos fanzines!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2007 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2007)

Uma análise ao ano de 2007 sem pessimismo não seria uma análise a 2007. A Ficção Científica do século XX sempre gostou de cenários desastrosos para além do Milénio. No que diz à bd portuguesa nem o escritor de FC mais hardcore poderia prever tal descalabro – pior que não se editar obras estrangeiras de interesse, pior que o desaparecimento da bd popular, pior que não haver apoios institucionais, é saber que quase não se encontra interesse pela bd nos jovens. E é por isso que no meio independente, o cenário não é muito animador porque pura e simplesmente quase não há “sangue novo” nem uma “nova geração”. O pessimismo dos subtítulos acusa para esse sentido.

 

They came from… nowhere!?

Antes de mais, 2007 foi caracterizado pela visita a Portugal de uma série de editores independentes da Europa como Roman Maeder (do zine suíço Milk+Wodka) e Alberto Corradi (da editora italiana Black Velvet) durante duas Feira Laica, Max (premiado autor e editor da extinta Nosotros Somos los Muertos) e Kike Benloch (do colectivo editorial galego Polaqia) durante o Festival de BD de Beja, Ilan Manouach (autor e editor grego), Fábio Zimbres (autor e editor da inesquecível revista brasileira Animal) e os Requins Marteaux (editora francesa) durante a BD Amadora, e ainda no fechar do ano os editores do zine espanhol de arte contemporânea La Más Bela estiveram na Galeria ZDB. Esta tendência parece que não irá morrer tão cedo, afinal “dois Stripburgers” já visitaram a exposição Honey Talks na Bedeteca de Lisboa em Janeiro de 2008. O mundo está mais pequeno ou as viagens de avião são mais baratas?

Não estando errada a segunda sugestão, a resposta mais romântica será um “mundo mais pequeno”, até porque a julgar pelo contínuo crescente número de participações de portugueses em projectos como Milk+Wodka, Barsowia (da Polaqia), Glömp, Kuti (ambos da Finlândia), Golden Age (Grécia), Bongolê Bongoró (Brasil) e no catálogo do festival Komikazen (Itália). Entre Filipe Abranches, Pepedelrey, Paulo Monteiro ou Teresa Câmara Pestana, aquele que mais participou em projectos internacionais foi, sem sombras de dúvida, André Lemos.

 

Zines are dead!

Parece que a fotocópia já pouco é usada para editar material gráfico, seja para bd ou para ilustração – muito provavelmente porque as novas gerações não querem saber da bd para nada ou andam perdidos na ‘net. E ao que parece, as confusões sobre o que é um fanzine e afins continuam. O caso mais bizarro deste ano foi a Bedeteca de Beja ter aceite o Prémio de Melhor Fanzine do Festival de BD da Amadora para o título Venham +5. O Venham +5 é uma publicação de uma instituição pública (ligada à Câmara Municipal de Beja) - de “fanzine” ou de “zine” parece que tem pouco por definição mas considerando o deserto editorial e sobretudo o típico deserto de ideias do Festival da Amadora que se reflecte no sistema de atribuição dos prémios, não é de admirar que isto aconteça.

Começando pelos projectos de teor profissional (a avaliação é feita pela impressão e tiragem) continuaram projectos como os comics da loja Kingpin of Comics, os livros da Pedranocharco (incluindo o BDjornal) ou os desdobráveis Le Sketch (editados por Paulo Patrício). A Má Criação prometeu o Área de Segurança: Gorazde de Joe Sacco mas até agora não se sabe de nada dessa bênção, digo, edição. A MMMNNNRRRG continuou a sua existência “bruta” com um livro: Já não há maçãs no Paraíso de Max Tilmann. Por sua vez a Imprensa Canalha iniciou-se no formato livro com Babinski de José Feitor e Luís Henriques. Curiosamente muitas destas edições tiveram boas críticas (no caso de Tilmann foi considerado um dos 20 melhores livros pela revista comercial literária Os meus livros) e vendas bastante interessantes para “pequeninos” – num saco editorial vazio é interessante que quem o encha sejam os que sempre foram marginalizados tradicionalmente pelas livrarias e imprensa (especializada ou não).

Passando para os zines, a Imprensa Canalha lançou mais um título, Animais de José Feitor, e o projecto Opuntia Books de André Lemos mais quatro – dois de Lemos, outros dois de autores estrangeiros, a saber, Sylvain Gerand (também editor do premiado zine L’Horreur est Humain) e Mehdi Hercberg. O Ups! saiu mais uma vez com banda sonora incluída no espaço virtual: myspace.com/zineups. Marco Mendes editou em parceria Projecto de fecundar a lua com Janus e Carlitos com Lígia Paz. Tiago Baptista lançou vários títulos que até suspeito que não apanhei todos: Facada, Bolso e Cleópatra. Continuaram O hábito faz o Monstro (de Lucas Almeida) e Shock (de Estrompa) e iniciou-se o Fantástico, Michael - um colectivo de Oeiras.

Indo para os “Fanzines”: continuaram o Efeméride (dedicado ao Príncipe Valente com pastiches de vários autores) e Tertúlia BD’zine (fanzine da Tertúlia de BD) ambos de Geraldes Lino, Fandaventuras (reedição de clássicos) de José Pires e o Boletim CPBD (reedição de clássicos e alguns ensaios) do Clube Português de BD. Inesperado foi o décimo número de Eros que Geraldes Lino lançou para comemorar o nascimento do projecto há 20 anos apesar de não publicar o zine desde 1991!!! Sim, o fanzine dedica-se à edição de bd erótica com colaborações de vários autores e o chato ainda é a masturbação, digo, discussão do que é erótico e o que é pornográfico passados 20 anos!

Uma surpresa de 2007 foi o ataque feminino nos formatos “indies” como o livro Postais de Viagem de Teresa Câmara Pestana (editora do Gambuzine) e os inícios de Joana do Paço com o zine Os músculos não têm para onde ir e Andreia Rechena com o zine [R]eject (que já prepara o segundo número para 2008). A Piggy regressou com o Enfraskado, um zine dentro de um frasco – saudades do Succedâneo? Estas edições estão longe da condescendência de projectos como All*girlzine, lançado em 2006 e com continuidade lenta!

 

Nobody can hear you scream in deep space

2007 foi o ano de celebração oficial dos 10 anos da Associação Chili Com Carne em que a questão colocada pela própria entidade ficará sempre por responder: «(…) ainda hoje parece-nos inacreditável que uma estrutura como a Associação Chili Com Carne, não só tenha sobrevivido 10 anos, como seja única num Portugal que se rege por 14 distritos - não deveriam haver pelo menos 14 "chilis" no país?»  Para uma associação que já provou o seu “profissionalismo”, curiosamente, este ano só editaram um zine em fotocópias para comemorar o aniversário e que foi oferecido como “bilhete” numa festa com concertos Rock e Electrónico. Ainda remodelaram o site entre outras iniciativas que se prolongam até 21 de Abril de 2008 – esperemos que a bd faça parte dos planos.

E se qualquer editor independente já está habituado a escrever, desenhar, editar, promover e comercializar o seu trabalho – a independência obriga a todas estas e outras mil tarefas – só faltava ter de criar o seu próprio espaço comercial. Coisa que a Chili Com Carne conseguiu com a galeria Work’n’Shop e a editora de música electrónica Thisco. A loja Book’n’Shop dedica-se à cultura alternativa sendo que se pode encontrar lá fanzines, zines, edições de autor, edições limitadas, estrangeiras e nacionais num claro acto de desafio a uma cultura oficial cada vez mais competitiva, espectacular e em decadente espiral.

Claramente, que no meio alternativo procura-se conquistar espaços de trabalho e comercialização uma vez que os sítios oficiais parecem cada vez mais fechados a novas ideias. Talvez por isso que em 2007 assistiu-se a quatro eventos da Feira Laica: em Oeiras, no Seixal, na Bedeteca de Lisboa (como de habitual desde 2005) e uma no Natal desta vez no Porto. E ainda houve exposições, ressacas das actividades da Laica no Espaço (2006), na Velha-a-Branca (Braga) e na loja de música Carbono. Em Faro apareceu o Festival P/Artes, ainda em formato experimental mas com um modelo de interesse que inclui lançamento de zines, workshops, exposições, exibição de filmes e concertos.

 

Famous lust words

Como a cena zinista está a morrer já começam a ser publicadas as primeiras linhas de análise e investigação sobre o assunto – piada de mau gosto?

Aconteceu logo no principio do ano com o livro Unpopular culture : transforming the European comic book in the 1990’s do académico canadiano Bart Beaty que analisa a “movida europeia” não faltando referências à Bedeteca de Lisboa ou ao Salão Lisboa mas também às “pérolas” da cena independente como foi o Mr. Burroughs (Círculo de Abuso; 2000) de David Soares e Pedro Nora. Seguiu-se o catálogo Salão Olímpico 2003/06 de José Maia que apanhou uma outra “movida”, ou seja, o movimento artístico do Porto em que os fanzines e a bd têm bastante “tempo de antena” neste grosso volume. Há referências à A Mosca, alíngua/ Satélite Internacional, Janus, A Mula, Senhorio embora de forma bastante fragmentada e incompleta. Por fim, uma pequena provocação no jornal Cascais Submerso, ou pelo menos um primeiro levantar de nomes da cena zinista e bedéfila em Cascais, feito por este vosso escriba.

E claro, aquele que ainda teve maior impacto mediático, o programa Ver BD de Pedro Moura que passou na RTP2 durante o Verão – que dedicou um dos cinco episódios à edição – com zines incluídos.

 

Funerais assim até que são divertidos! Zines: RIP (rust in punk).

sábado, 5 de maio de 2007

"Max - Alumbrado de Palma de Maiorca" in Splaft! #3 (Bedeteca de Beja; 2007)

Max, pseudónimo de Francesc Capdevila (Barcelona, 1956) é um dos autores de bd espanhóis (catalão! catalão!) com uma carreira irregular - não pela qualidade mas pela quantidade – e que se confunde com a história moderna da bd espanhola: da "la movida" dos zines (El Rollo Enmascarado) nos anos 70 à criação da mítica revista El Vibora, das tentativas de conquista do mercado tecnocrata franco-belga nos anos 80 (El carnaval de los ciervos de 1984) até às excitantes alternativas dos anos 90 com a revista Nosotros Somos Los Muertos (1995-2007) co-editada com o seu amigo Pere Joan e ainda com o livro El prolongado Sueño del Sr.T (1998). Não será à toa que é dos poucos autores de bd no mundo que tem uma colecção dedicada a toda sua produção (Todo Max pela La Cúpula). Recentemente foi alvo de mais edições retrospectivas, uma dedicada ao trabalho de ilustração, o monstruoso Espiasueños (La Cúpula; 2003) e outra, Bardín, el surrealista (La Cúpula; 2006), que reúne as desventuras meta-parabólicas de Bardín, personagem a que se têm dedicado nos últimos anos.

Em tempos de pouco espiritualidade ou de uma espiritualidade deturpada dos livros bestsellers (Paulo Coelhos, Códigos Da Vinci's e outras parvoíces), Bardín (a série não o personagem) é o antídoto à barbárie intelectual desta Nova Era das Trevas em que vivemos. Max não perde tempo para gozar com as conspirações à pressão, o Orientalismo de meia-tigela e o Surrealismo para o povão – “Relógios moles, montanhas de queijo! Ha ha ha ha!!” ri-se o "Cão Andaluz" do talento que roubou a Dali, enquanto oferece a Bardín (personagem) poderes iluministas. Mas Bardin, filho do materialismo ocidental freudiano mais comum continuará a ser um pobre diabo no jogo ilusório da vida. Se o mundo não fosse feito de camadas de mentiras quer Peter Pank (série de 1985 a 1990 que era uma paródia mucho hardcore desmistificadora da juventude eterna) quer Bardin não teriam sido criados por Max – nem faria sentido a sua participação no livro colectivo Lanza en Astillero (Castilla-La Mancha; 2005) para comemorar o IV Centenário do alucinado “Dom Quixote de la Mancha”. Com Bardin, creio que Max recuperou a sua joie de vivre depois de um período negativo desiludido com a bd – eu diria mesmo que agora se encontra num perfeito equilíbrio Yin / Yang ou com os Chakras (é assim que se escreve?) nos sítios certos mas do que sei eu realmente disso?

Relembro que algumas das histórias de Bardín foram lidas na revista Quadrado da Bedeteca de Lisboa, aliás, esta é a única publicação em que poderemos encontrar trabalhos de Max em português, apesar das várias passagens do autor nos nossos principais festivais de bd - Porto, Amadora, Lisboa e agora, Beja. Minto, também poderão encontrar um ou dois livros ilustrados para a infância mas se não mentisse também vos impressionaria menos.


domingo, 31 de dezembro de 2006

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2006 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2006)

 Do you want Total War? 

Boyd Rice

 

Para a análise dos “Fanzines” do Dossiê 2006 decidi, este ano, não fazer distinção entre Fanzines, Zines, Prozines, Edição Amadora, Edição DIY, Edição Independente, Edição de Autor, etc… porque para além das diatribes já terem sido lançadas no Dossier 2005 (e também em http://chilicomcarne.blogspot.com/2006/07/mais-esforos-aborrecidos-ou-quantas.html),  para mais, em mais um ano “na fossa”, 2006 foi um ano rico em experiências no mundo da “pequena imprensa”, diria mesmo, que foi neste mundo onde surgiram as obras mais interessantes dado o deserto da edição comercial.

Tal com a revista Times colocou um espelho na sua capa para eleger a Personalidade do Ano de 2006 – “You.” (você ou nós a população mundial – ou aquela com acesso à www) – devido à capacidade da Humanidade gerar cada vez mais Cultura fora dos malefícios das “grandes companhias” graças a serviços informatizados cada vez mais utilitários (apesar do Youtube, Blogger, POD, etc… serem serviços de grandes empresas), pouco a pouco também (em Portugal) tem aumentado a capacidade de edição de objectos físicos feitos por indivíduos ou colectivos sem grandes recursos materiais e capitais.

Creio que se o mercado comercial da bd está em crise, a culpa é dos “pequenos”, daqueles autores e editores que foram ridicularizados pelos apreciadores da bd comercial – que não achavam que o Maus de Art Spiegelman fosse bd porque não servia para rir, ou que os “autobiográficos” não passavam de autores preguiçosos. Ora do que se fala nos Media tem sido autores como Chris Ware, Craig Thompson, Robert Crumb, Joe Sacco, Marjane Satrapi… Ou ainda, por exemplo, no fim deste ano, em Itália, foi lançada uma colecção de “graphics novels” (que incluía Maus, Palestina de Joe Sacco, Mattotti…) que se vendia com o jornal La Repubblica. Não me parece muito convincente o que se continua a editar por cá. Neste novo milénio as nossas editoras de bd (ou editoras que editam bd) ainda lançam apenas bd’s de super-tipos com cuecas de fora ou álbuns europeus – em que seja qual for o género (História, Western, Policial, etc…) tem sempre uma cena picante, ali mesmo: entre uma conspiração na Corte e uma Cruzada. O panorama da bd portuguesa mudou quando houve um período dinâmico da edição portuguesa entre 1996 e 2001 (em grande parte graças aos apoios da Bedeteca de Lisboa). Os gostos mudaram, os leitores habituaram-se a ler bd portuguesa ou bd de autor mas são os sabujos álbuns europeus que ainda mais se editam em Portugal não deixando espaço público para os “indies”.

 Tem sido esta a batalha da “pequena imprensa”: criar não só o seu próprio espaço de exposição pública como ainda criar novos públicos. E por isso que o primeiro destaque de 2006 que faço vai para duas “pseudo-entidades” que animaram a vida cultural da bd, ilustração e edição independente quase durante o ano todo (literalmente desde Janeiro até Dezembro de 2006), no Porto e em Lisboa. Falo d’A Mula e da Feira Laica, “feiras de zines e edição independente” com exposições de originais incluídas (e mais do que isso, no caso da Feira Laica, que incluía artesanato urbano, comida vegetariana, produtos culturais muito baratos fossem de origem fossem em segunda mão), a primeira esteve residente nos Maus Hábitos no primeiro trimestre e ainda andou por Sto. Tirso, Braga e Vigo (Galiza). A segunda, realizou a «MAIOR feira de edições independentes» (zines, livros, discos) nos jardins da Bedeteca de Lisboa e programou quase três meses de actividades no Espaço – Centro de Desastres até culminar numa feira de natal. No primeiro caso, ainda de salientar o lançamento do Cospe Aqui, maníaco-zine do mesmo grupo organizador do evento, ou seja a dupla Miguel Carneiro e Marco Mendes, bem como os colaboradores (André Lemos, Manuel João Vieira,…), verdadeira lufada de ar fresco no meio.

  

Rompendo para o exterior

Mais um ano e mais alguns casos de autores saíram do “anonimato” para registos “oficiais” ultrapassando as instituições públicas onde se encontram as colecções para novos autores como a Lx Comics da Bedeteca de Lisboa - que mais uma vez falhou em lançar novos autores. A respectiva colecção Toupeira, da Bedeteca de Beja, só conseguiu lançar um número.

Em 2006, a iniciativa foi privada dada à contínua desorientação pública, em que assistimos aos regressos das editoras Polvo, Nova Comix e Pedranocharco, bem como da El Pep e da Má Criação, dos quais destaco as últimas duas por estarem a trabalhar de uma forma colectiva - essa palavra alienígena em Portugal – como foi o caso do Virgin’s trip (El Pep), uma história desenhada por vários ilustradores (Pepedelrey, Jorge Coelho, Lacas e Rui Gamito) e Dias Eléctricos (Má Criação), várias histórias escritas por um autor (Luís Rainha) e desenhada por autores consagrados (João Fazenda, Daniel Lima) e novos talentos vindos dos cursos da escola Ar.Co. Espero que esta forma de trabalho seja para continuar.

Como novas experiências profissionais DIY apareceram dois “comics” (de continuação) da loja Kingpin of Comics e a revista de humor HL Comix do autor Derradé que lançou dois números nas bancas.

Uma revista que apostou na bd foi a Underworld – Entulho Informativo, dedicada à música underground, que publicou 2 páginas de bd nos quatro números de 2006: o sérvio Aleksandar Zograf, o português João Maio Pinto, e os polémicos norte-americanos Dirty Danny e Mike Diana.

Literalmente para fora, para o estrangeiro, continuaram as colaborações nacionais no zine suíço Milk+Wodka, André Lemos participou em vários projectos pela Europa fora (Bongout, Le Dernier Cri, La Commissure, 5eme Couche), Pedro Nora e Isabel Carvalho na antologia finlandesa Glömp, Isabel também participou na antologia de bd no feminino … de ellas (Edicions De Ponent) e João Maio Pinto em duas antologias da 5eme Couche.

 

Sucedâneos?

Enquanto o formato “fotocópia barata” vai sendo descartado pelos novos autores / editores – que preferem a Internet ou imprimir edições com aspecto profissional – e ao mesmo tempo que o Succedâneo fez 10 anos em Abril (e suspendeu actividade no número -31 que era um carro de rolamentos!) na Bedeteca de Lisboa, surgiram dois novos projectos que seguem as pegadas do Succ: usam o formato fanzine mas com maiores preocupações de produção, apostam em boas fotocopias, assumem o facto de serem edições limitadas e como tal especulam na sua raridade. Foram eles a Imprensa Canalha com três projectos, a saber, o Néscio, Mundo dos Insectos (de José Feitor) e Belo Cadáver; e a Opuntia Books também com três títulos monográficos de André Lemos, Bruno Borges e Frederico (uma criança de 4 anos). Nas folhas destes projectos vamos encontrar algumas bd’s ou colaborações de autores de bd como Filipe Abranches, Rosa Baptista...

 

 Por fim,

 Continuaram a revista Sketchbook (que acabou ao terceiro número), o zine mutante (agora antologia / livro) Mesinha de Cabeceira pela Associação Chili Com Carne, a revista Venham +5 da Bedeteca de Beja, os zine Aqui no canto (especial Aqui no cantinho com uma bd para crianças), O Hábito faz o monstro, Durty Kat, Jazzbanda e mais um título bombástico da Joana Figueiredo…

Saiu o Allgirlzine (zine de bd no feminino organizado por Daniel Maia), Alçapão, zine dedicado à «arquitectura dura» com um bom grupo de ilustradores e autores de bd a colaborarem, e 24h volta em Portugal em bd (pelo colectivo Dr. Makete) que embora seja um zine é descrito como um «um livro de bd com 24 histórias diferentes realizadas em 24 horas em 24 locais diferentes».

 

Power to the people!

Marcos Farrajota

sábado, 31 de dezembro de 2005

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2005 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2005)

Mais um ano em que o resumo sobre os zines / edição Do It Yourself é analisado de uma forma (demasiada) esquemática, não por preguiça mas por pragmatismo dada às muitas variáveis deste tipo de edição em Portugal. Houve uma evolução com características nítidas até 2001 que têm sido pouco a pouco pulverizadas com a solidificação da edição DTP (desktop publishing) que inclui a expansão para o ciberespaço, e a crise económica do nosso país cujos efeitos são difíceis de contabilizar.

Nesta fragmentação que nos acompanha desde 2002 não tem havido novidades até este ano surgirem uma série de novas publicações que podem ser colocadas num saco X e que obrigam a uma observação mais critica (parte X) da minha parte.  

 

Assim sendo, por tópicos o que 2005 pariu:

I. Keep on truckin’:

Os zines Porca Frita, Aqui no Canto, Na verdade tenho 60 anos e Gatafunho continuaram a sair.

Foi mais um ano de feiras de zines e edições independentes em sítios tão diversificados como nos Jardins do Estoril e na Caixa Económica Operária (Lisboa) ou em eventos como Cidade Desconhecida (Viseu), Salão Lisboa 2005, BejAlternativa, Feira Laica II (na Bedeteca de Lisboa), Zurzir o Gigante (Lisboa), Festival de BD do Pinhal Novo e Encontro de BD de Sto. Tirso ou no festival Superstereo Demonstration (Linhares da Beira).

O zine suíço Milk & Wodka continuou com a sua quota de participação anual de autores portugueses.

Dos independentes até foi um ano com algumas novidades: a MMMNNNRRRG editou o Malus do britânico Christopher Webster, a Associação Chili Com Carne lançou o último volume da CCC Ilustrada (Mesinha de Cabeceira) e um livro de esboços de João Cabaço (Do acidente e da culinária), o zine Zundap investiu no Piolheira Blues de Artur Varela, e Paulo Patrício publicou o segundo número do desdobrável Le Sketch com esboços do norte-americano Matt Maden.

 

II. Zombies:

Regressou a Feira de Fanzines de Almada, após 4 (longos) anos de interregno, com uma programação simpática mas esqueceram-se que os zines “já não existem” (em quantidade e no tradicional formato de fotocópia) e não souberam gerir esse problema da melhor forma. Esperemos que ainda haja uma edição em 2007 e não em 2009.

A revista Satélite Internacional demorou um ano a deitar cá para fora o número duplo 4/5 (especial "Sputnik" e sem imagens). Só publicou – e compensou o desafio -  textos sobre bd escritos pelos alguns dos melhores críticos nacionais e internacionais. Um documento único em Portugal.

A Lx Comics voltou com um número, depois da contabilização negativa de 2004. Relembro, que esta situação – a ausência de publicação em 2004 – foi devido à falta de propostas e não devido a questões orçamentais. Um novo número já está a ser preparado para 2006. Espero que estejamos numa situação de recuperação da colecção!

 

III. Reload

Uma emergente corrente de autores de bd, ilustradores e críticos tem criado os seus sítios na Internet, sobretudo na forma de blogues: André Lemos, Barbara Ròf, João Maio Pinto, José Feitor, Rui Gamito, Geraldes Lino, Pedro Moura, Nuno Franco, etc…

Também houve uma participação portuguesa tímida no site www.40075km-comics.net – organizado pelo colectivo belga L’Employé du Moi.

 

IV. Fim de ciclo?

David Soares aparentemente abandonou o seu projecto editorial Círculo de Abuso, onde editou sete edições (não só de bd mas também de poesia, conto e ensaio) entre 2000 e 2004. Demonstrando cansaço perfeitamente legítimo pelas lides (auto)editoriais, optou por uma editora já estabelecida, a Polvo, para o seu segundo livro de contos.

 

V. Back to the future

O workshop do colectivo francês Le Dernier Cri promovido pelo Salão Lisboa 2005 trouxe dois frutos: por um lado, o resultado prático do workshop que foi a saída de 50 exemplares do graphzine Tome Celo com os trabalhos dos participantes; por outro, a aplicação desses moldes experimentados por André Lemos (que tinha participado no inspirador workshop), em Tribune Brute, edição da MMMNNNRRRG com o apoio de Mike Goes West. Mais objectos destes para o futuro? Espero que sim…

 

VI. Falsos novos

Novidades de zines não houve – e se houve nada que chamasse a atenção – mas na prática houve novos títulos vindos de autores/ editores já conhecidos, que continuaram a produzir ora com novos conceitos ora metamorfoseando os títulos das suas publicações. O divulgador mais activo de sempre, Geraldes Lino, apanhou uma série de autores para o seu novo Jazzbanda (dedicado ao Jazz) e para o Nemo no Século XXI (para homenagear o Little Nemo in Slumberland). Joana Figueiredo fez o The Last Hurrah (incluindo trabalhos de Rafael Gouveia, Pitchu, José Feitor, André Lemos…) e o emigrado Pitchu o Car Crash (versus o colectivo norueguês Dongery).

Destaque, pela qualidade, experimentação e regularidade dos zines de Marco Mendes, Miguel Carneiro & cia, Lamb Haert, Hum hum estou a ver… e Deja-me Solo! Estou careca e a minha cadela vai morrer… Para 2006 prometem novidades pujantes!

 

VII. Easy come, easy go

Do underground para o mainstream, só houve o João Maio Pinto a substituir o Rui Ricardo na série de bd “Superfuzz”, no jornal Blitz, mas poucos meses a série foi cancelada – dada às remodelações internas da redacção e crise do jornal. Nenhuma explicação foi dada aos fãs da série.

A edição ilustrada do Público – para o Salão Lisboa 2005 como tem sido hábito todos os anos desde 1998 – teve direito a um interessante “refresh”. Nessa edição em espaços predefinidos do jornal foram convidados autores de bd (e ilustradores) para realizar a sua própria “crónica gráfica-narrativa” em vez de da mera ilustração de notícias. No caso da bd – que parece-me que correu de forma mais incisiva e sumarenta – foram publicados autores directamente vindos dos “indies” como João Maio Pinto, Sandy Gageiro e José Feitor (do extinto Zundap), Marte e Pedro Brito, Francisco Sousa Lobo.

Geraldes Lino tem também conseguido mobilizar autores para serem publicados no jornal Mundo Universitário, tendo já passado por lá o Pepedelrey, Jorge Coelho, etc… curiosamente consegue fazer com que os autores sejam pagos ao contrário do gigante Público!

 

VIII. Work

A inaugurada Bedeteca de Beja elaborou uma exposição dedicada aos “10 anos do Submarino”. Submarino é um fanzine de bd que existe desde 1995, resultado do Atelier de BD organizado pela Câmara de Beja para crianças entre os 7 e os 13 anos. Pretende essencialmente estimular nos jovens o gosto pela bd, o Submarino é o seu veículo de publicação dos resultados dos seus pequenos participantes. Curiosamente «torna-o num dos fanzines mais antigos do país, o que não deixa de ser um facto interessante.»

Houve worshops em Cascais (de zines) e em Braga (de bd) que resultou no zine Velha-Desenhada. Os resultados foram zines em fotocópias, nada a declarar.

 

XIX. DIY

Zurzir o Gigante foi um evento organizado por um grupo informal de artistas gráficos com o objectivo de proporcionar a compra de originais de ilustração ao mesmo tempo que criaram um espaço agradável de convívio e troca de experiências artísticas durante três dias de Dezembro. Esta iniciativa insere-se numa lógica que pretende a proximidade entre o público e os artistas, e a possibilidade da aquisição de obras de arte a preços acessíveis, desafiando assim a filosofia das galerias de arte, através da realização de eventos organizados e promovidos pelos próprios artistas, sem intermediários. A experiência filia-se em outras já ensaiadas e plenamente conseguidas, como A Arte dos Trezentos (2001), as Fantasias de Natal (2003) e as mostras de ilustração que decorreram paralelamente às diferentes edições da Feira Laica – a última realizada na Bedeteca de Lisboa.

Apesar do texto acima ser um excerto adaptado da nota de imprensa da organização, serve para relembrar que (pelo menos no Natal) há sempre um grupo que inventa uma capacidade sinérgica temporária para realizar um evento que divulga “artes gráficas” (bd incluída) sem apoios institucionais de relevância. E que consegue de uma forma ou de outra impressionar os meios artísticos raquíticos da capital pela frescura e sinceridade das propostas. Estes eventos mostram o quanto um conjunto de pessoas pode criar uma diferença no meio. O problema é que "colectivo” em português também significa “temporário”.

 

X. Novos Rituais de Passagem

A bd portuguesa de 2005 tem uma nova característica curiosa em relação ao seu passado, nomeadamente foi um ano de proliferação de projectos editorais que apoiam a produção amadora. Da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL) nasceu um Núcleo de BD que editou já dois números da revista Blazt (o número zero intitulava-se Blastmagazine), a Bedeteca de Beja lançou a revista Venham +5 e a colecção Toupeira (uma mimética da Lx Comics), a AJ-COI começou a revista Sketchbook e o CITEN publicou o livro Memórias 10 – sendo que a direcção deseja continuar a editar livros dos participantes dos seus cursos de BD, Ilustração e Argumento.

A chatice destas edições é que todas elas são cheias de boas intenções mas falham naquilo que se pretende: bd nova, bd feita por autores que tenham coisas para dizer, bd que se tenha prazer de ler - ou um incómodo pela novidade criativa. A maior parte – senão todos – dos autores não conseguem criar discursos próprios para podermos destacar um – talvez haja um, o Ricardo Cabral (da Blazt) exclusivamente pela sua extraordinária capacidade técnica gráfica. O que acontece é que existem programas que estão a ser cumpridos: o CITEN a incentivar uma experiência para-pedagógica, o Núcleo da FBAUL a projectar os seus alunos, a Bedeteca de Beja o talento local, etc… mas nenhum conseguiu fugir do “talento verde” cheio de clichés e repetições de ideias gastas, resultado contra a maré especialmente numa era em que há mais informação disponível (via lojas, festivais, Internet) e que a bd vive tempos de perfeita expansão de temas e formas – independentemente dos radicalismos, temos desde o jornalismo ao naíf, dos jogos oubapos à pintura, etc…

Gosto de pensar que isto é o início de algo que irá amadurecer no futuro mas se acrescentarmos o facto que publicam na alçada de instituições – a AJ-COI é uma associação que depende da iniciativa privada do seu grupo fundador uma vez que não está inserido numa câmara municipal ou numa escola – parece que estamos no pior paternalismo que é tão típico em Portugal. Receio que maior parte destes principiantes ficariam encostados à bananeira se não tivessem tido estes produtores / editores a publicar os seus trabalhos sem grandes exigências.

A desilusão que sinto neste desperdício de meios não me leva a declarar que estes projectos não devem existir ou que não mereçam apoio, o que me incomoda é a falta de consciência dos seus intervenientes que parecem necessitar preencher os egos invés de quererem criar um trajecto artístico – eles dirão que não, claro – e pior, o que dá a entender é que a “iniciativa privada” está morta, não é possível concretizá-la ou ninguém quer concretizá-la ignorando o sucesso que venha a ter ou não. Parece o que aconteceu nos anos 90 já não existe, relembro, que foi a iniciativa privada dos autores que construíram as suas carreiras (ou se preferirem experiências) talvez porque esses autores tinham algo para dizer de tão urgente que tiveram de ir em frente de qualquer forma fosse com zines fotocopiados, fosse com pequenas editoras, etc… Talvez por ter vivido esses momentos que agora pareço um reaccionário mas desta mão cheia de edições não houve uma única vez que tenha sentido algo na sua leitura. Serei eu?

Como projectos editoriais parece que estamos perante um limbo ou uma “terra de ninguém” porque não sendo eles mediáticos (foram ignorados na essência seja pela imprensa generalista quer pela especializada) e nunca ultrapassando a baixa tiragem de 500 exemplares parecem que se inserem nesta secção de “zines e edição independente” mas acho que eles não tem o pathos do DIY. Não tem a selvajaria da criação. De todos, o mais genuíno (e para mim logo o mais interessante) parece-me que será o Sketchbook pela forma como estão a trabalhar. Elaboraram um concurso e um festival de bd para apanhar talentos e lançaram o desafio para explorá-los. Nas suas páginas almeja-se que os autores produzam bd’s de 10 páginas – cada número trará 2 bd’s de autores diferentes – sem alguma espécie de tema predefinido. Mas também tinham de ser eles a porem o pé na poça ao escrevem algures na nota de imprensa que em Portugal «também temos Morrisons, Moebius, Palmiottis e Isanoves, que merecem que lhes seja dada uma oportunidade». Assumir o cliché como apanágio de um possível profissionalismo parece-me um bocado parvo. Pergunto-me se eles não podiam dizer que o que temos é este tipo com nome bem português e que ele vale por si só, que esse tipo não é o Grant Morrison e ainda bem porque no mundo já existe um e não queremos mais Morrisons caso contrário o mundo seria neutral. A bd portuguesa já criou os seus fenómenos únicos e inimitáveis como o Filipe Abranches ou a Ana Cortesão sem este discurso entre o naif e o pretensioso. Não é isso que interessa?

sexta-feira, 31 de dezembro de 2004

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2004 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2004)

 Assim não dá, que crise! Crise a rodos e para todos. Em 2003 queixava-me da miséria medieval da cena fanzinista. 2004 pareceu-me pior que nunca. Parece que tudo correu mal. Então vejamos:

_o Zundap acabou mesmo e de forma hilariante – até teve direito a notícia sobre o lançamento no Mil Folhas;

_o site bizarro.cc também foi à vida;

_o #4 do Satélite Internacional ainda não saiu – aliás, não saiu nenhum número em 2004 e perdeu o seu site;

_a participação de Isabel Carvalho na antologia norte-americana Scheherazade: comics about love, treachery, mothers, and monsters (Soft Skull) correu mal graças a impressão defeituosa;

_não houve novos números da Lx Comics e não foi por falta de orçamento da Bedeteca mas por falta de propostas!;

_quase não houve nenhuma continuação dos títulos do(s) ano(s) anterior(es) à excepção do Terminal e do Durty Kat mas em versão online: durtykat.tk;

_as editoras independentes (Associação Chili Com Carne, Círculo de Abuso, colectivo alíngua) perderam a distribuição livreira assegurada pela editora Witloof, com isto quer dizer que agora encontrar edições independentes será quase impossível – antes, mal por mal sempre estavam ao lado dos Manaras e Astérixes.

 

Coisinhas boas, poucas:

_Miguel Carneiro e Marco Mendes começaram um novo zine, o Paint Suck’s!, divertido q.b;

_o mesmo Miguel Carneiro juntamente com João Marçal editaram Bom apetite! um mini-álbum de humor propositadamente boçal e desbundado;

_novo fanzine em papel e online Aqui no canto (2 números) de João Rubim [aquinocanto.do.sapo.pt];

_das Caldas da Rainha mais zines: Vírus demente, O hábito faz o monstro e mais algum que me deve ter falhado…

_José Carlos Fernandes foi publicado na revista Tos (Espanha), o Filipe Abranches e Pedro Nora foram editados no segundo número da antologia Rosetta (cuja a edição da secção europeia ficou a cargo de Domingos Isabelinho);

_muitas feiras de fanzines na maior parte organizadas pela Associação Chili Com Carne ou pela Família Alternativa – especialmente pela última que organizou na Galeria ZDB, Feira do Livro de Lisboa, Faculdade das Caldas da Rainha (Comunicar:design), em Sines…

_o João Bragança editou o segundo número do Pecarritchitchi, o fanzine enfezado (o fanzine mais pequeno do mundo?) e lançou-se online: succedaneo.com;

_a bd O coleccionador de borboletas de José Lopes que é suplemento ao DVD, Doczine #1 - um documentário amador sobre zines e bd que infelizmente é completamente desinteressante sob vários e quase todos os pontos de vista;

_as duas únicas edições “indies” deste ano: o segundo número da CriCaClássica Ilustrada (o Mesinha de Cabeceira disfarçado!) pela Associação Chili com Carne com trabalhos de André Lemos, Pepedelrey, Ana Ribeiro, Joana Figueiredo, João Chambel, João Fazenda, André Ruivo,… e Sobre BD de David Soares, um livro de ensaios sob a chancela da Círculo de Abuso, claro.

 

Para acabar, resta a notícia que alguns alunos da António Arroios lançaram o zine Gatafunho sob a protecção do Prof. José Feitor (do Zundap), e se podemos encontrar novos talentos nas suas páginas , curiosamente é assim que se percebe que zines em papel são artigos pré-históricos para as novas gerações. Afinal sempre é mais fácil (tempo & dinheiro) fazer uma página web como acontece com a Mina Anguelova [geocities.com/undermycoat] e pergunto se não deveria começar a pesquisar pelas infinitas páginas web, galerias de novos autores… 2005 para além de se comemorar os 250 anos do terramoto de Lisboa não deveria ser antes o Ano Nacional da Reciclagem?

quarta-feira, 31 de dezembro de 2003

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2003 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2003)

Foi o ano de ruptura total das características verificadas noutros anos: os fanzines com periodicidade perderam-na (excepto o novo Espiral), relações com a Multimédia não foram mais exploradas e não houve quase nenhuma internacionalização (com a excepção da grande participação no zine suíço Milk & Wodka #IIII).

O cenário de pobreza e falta de energia só se explica com a ausência de uma nova geração de autores que a bd (no geral) nos últimos 3 anos não tem conseguido parir. Se olharmos para os autores de zines que foram envolvidos em projectos profissionais só temos o José da Fonseca a ser publicado no Lx Comics #14, e mesmo assim, é da geração d’A vaca que veio do espaço, um colectivo dos anos 80!

Haverá só uma crise geracional? Também, e uma económica que deve explicar a ausência de mais zines. Mesmo para um tipo de produção barata como a dos zines exige algum tempo e dedicação. Nestes tempos stressados que vivemos percebe-se que há pouco “tempo-é-dinheiro” para os zines.

Ainda assim continuaram: Durty Kat (da Ana Ribeiro), Terminal (com 4 números de uma só vez), Saboniz (dedicado a ilustração e design por Nuno Valério), o velho Shock (com o Tornado do Estrompa a comemorar 10 anos), Carneiro Mal Morto, Porca Frita e Notibó (ambos das Caldas da Rainha), o eterno extravagante Succedâneo (de João Bragança), Zundap (zine de cultura Pop e com morte anunciada para 2004), Sub (de Pitchu!) e O Papel do Monstro (de estudantes da FBAUL). E dos que continuaram o que teve mais impacto foi o Ups! (da Guarda) que foi acompanhado por uma exposição e que recrutou ainda os talentos de Rafael Gouveia, Filipe Abranches e André Lemos.

Novos títulos: O/velha Negra (da Madeira), Espiral (de Noé Touraldo), A Carne (de Ana Ribeiro e Miguel Tavares) e Jungle Juice (de Rute Santiago e Pitchu!). Não houve o Na verdade tenho 60 anos mas Joana Figueiredo editou os novos mini-zines Menina Jesusa e Chicken Bloody Rice, ambos de ilustração e o último com restos (falsos) de arroz de cabidela que ainda assim fez um cromo da bd vomitar!

Feiras pelo país inteiro: Caldas da Rainha, S.Romão, Cacilhas (devia ser o ano da Feira de Fanzines de Almada mas tal não aconteceu infelizmente), Cascais, Lisboa (Salão Lisboa, Estufa Fria, ZDB Tercenas), a maior parte delas organizadas pelo colectivo Crime Creme ou pela Associação Chili Com Carne. Houve uma exposição de fanzines em Viseu intitulada Cidade Desconhecida e ainda participação de alguns títulos em eventos como o Mercado Negro (Porto) e Mundo Mix (Lisboa). A maior feira dedicada às edições alternativas foi Fantasias de Natal (no Cais do Sodré), organizada por um grupo entre os quais incluía o zine Succedâneo e Associação Chili Com Carne.

Foi também um ano parado em edições independentes. Começou bem, logo em Janeiro com A última grande sala de cinema de David Soares mas ficou por aí! Ainda houve dois novos números do prozine Satélite Internacional do colectivo Alíngua e o novo prozine CanibalCriCa Ilustrada (Mesinha de Cabeceira disfarçado!) da Associação Chili Com Carne.

Frente a esta miséria medieval, o que dá para concluir é que os projectos que mais se destacaram em 2003 foram os que resultaram de esforços conjuntos – de colectivos. Num ano em que no Salão Lisboa esteve presente o associação eslovena Stripcore – que levou a desconhecida bd eslovena à internacionalização, num país com menos condições do que o nosso! – não se pode dizer não há bons exemplos para conhecer e copiar. Não é à toa que destaco Puro Capricho, uma estranha brochura do colectivo In Útil que saiu durante uma exposição de artes plásticas na Galeria Parthenon. Trata-se de uma fotonovela realizada e produzida pelo colectivo e paginada por Miguel Rocha. A atmosfera da fotonovela lembra ingenuamente as bd’s de Miguel Angél. Martin pelo “gore” cirúrgico e é o caso mais feliz em volta da bd e edição independente para 2003. O irónico disto é que este trabalho cheio de frescura resulta de esforços conjuntos de pessoas à margem da bd e da edição - se excepturamos o Miguel Rocha que era um convidado do colectivo. A união faz a força? Sem dúvida...