domingo, 31 de dezembro de 2006

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2006 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2006)

 Do you want Total War? 

Boyd Rice

 

Para a análise dos “Fanzines” do Dossiê 2006 decidi, este ano, não fazer distinção entre Fanzines, Zines, Prozines, Edição Amadora, Edição DIY, Edição Independente, Edição de Autor, etc… porque para além das diatribes já terem sido lançadas no Dossier 2005 (e também em http://chilicomcarne.blogspot.com/2006/07/mais-esforos-aborrecidos-ou-quantas.html),  para mais, em mais um ano “na fossa”, 2006 foi um ano rico em experiências no mundo da “pequena imprensa”, diria mesmo, que foi neste mundo onde surgiram as obras mais interessantes dado o deserto da edição comercial.

Tal com a revista Times colocou um espelho na sua capa para eleger a Personalidade do Ano de 2006 – “You.” (você ou nós a população mundial – ou aquela com acesso à www) – devido à capacidade da Humanidade gerar cada vez mais Cultura fora dos malefícios das “grandes companhias” graças a serviços informatizados cada vez mais utilitários (apesar do Youtube, Blogger, POD, etc… serem serviços de grandes empresas), pouco a pouco também (em Portugal) tem aumentado a capacidade de edição de objectos físicos feitos por indivíduos ou colectivos sem grandes recursos materiais e capitais.

Creio que se o mercado comercial da bd está em crise, a culpa é dos “pequenos”, daqueles autores e editores que foram ridicularizados pelos apreciadores da bd comercial – que não achavam que o Maus de Art Spiegelman fosse bd porque não servia para rir, ou que os “autobiográficos” não passavam de autores preguiçosos. Ora do que se fala nos Media tem sido autores como Chris Ware, Craig Thompson, Robert Crumb, Joe Sacco, Marjane Satrapi… Ou ainda, por exemplo, no fim deste ano, em Itália, foi lançada uma colecção de “graphics novels” (que incluía Maus, Palestina de Joe Sacco, Mattotti…) que se vendia com o jornal La Repubblica. Não me parece muito convincente o que se continua a editar por cá. Neste novo milénio as nossas editoras de bd (ou editoras que editam bd) ainda lançam apenas bd’s de super-tipos com cuecas de fora ou álbuns europeus – em que seja qual for o género (História, Western, Policial, etc…) tem sempre uma cena picante, ali mesmo: entre uma conspiração na Corte e uma Cruzada. O panorama da bd portuguesa mudou quando houve um período dinâmico da edição portuguesa entre 1996 e 2001 (em grande parte graças aos apoios da Bedeteca de Lisboa). Os gostos mudaram, os leitores habituaram-se a ler bd portuguesa ou bd de autor mas são os sabujos álbuns europeus que ainda mais se editam em Portugal não deixando espaço público para os “indies”.

 Tem sido esta a batalha da “pequena imprensa”: criar não só o seu próprio espaço de exposição pública como ainda criar novos públicos. E por isso que o primeiro destaque de 2006 que faço vai para duas “pseudo-entidades” que animaram a vida cultural da bd, ilustração e edição independente quase durante o ano todo (literalmente desde Janeiro até Dezembro de 2006), no Porto e em Lisboa. Falo d’A Mula e da Feira Laica, “feiras de zines e edição independente” com exposições de originais incluídas (e mais do que isso, no caso da Feira Laica, que incluía artesanato urbano, comida vegetariana, produtos culturais muito baratos fossem de origem fossem em segunda mão), a primeira esteve residente nos Maus Hábitos no primeiro trimestre e ainda andou por Sto. Tirso, Braga e Vigo (Galiza). A segunda, realizou a «MAIOR feira de edições independentes» (zines, livros, discos) nos jardins da Bedeteca de Lisboa e programou quase três meses de actividades no Espaço – Centro de Desastres até culminar numa feira de natal. No primeiro caso, ainda de salientar o lançamento do Cospe Aqui, maníaco-zine do mesmo grupo organizador do evento, ou seja a dupla Miguel Carneiro e Marco Mendes, bem como os colaboradores (André Lemos, Manuel João Vieira,…), verdadeira lufada de ar fresco no meio.

  

Rompendo para o exterior

Mais um ano e mais alguns casos de autores saíram do “anonimato” para registos “oficiais” ultrapassando as instituições públicas onde se encontram as colecções para novos autores como a Lx Comics da Bedeteca de Lisboa - que mais uma vez falhou em lançar novos autores. A respectiva colecção Toupeira, da Bedeteca de Beja, só conseguiu lançar um número.

Em 2006, a iniciativa foi privada dada à contínua desorientação pública, em que assistimos aos regressos das editoras Polvo, Nova Comix e Pedranocharco, bem como da El Pep e da Má Criação, dos quais destaco as últimas duas por estarem a trabalhar de uma forma colectiva - essa palavra alienígena em Portugal – como foi o caso do Virgin’s trip (El Pep), uma história desenhada por vários ilustradores (Pepedelrey, Jorge Coelho, Lacas e Rui Gamito) e Dias Eléctricos (Má Criação), várias histórias escritas por um autor (Luís Rainha) e desenhada por autores consagrados (João Fazenda, Daniel Lima) e novos talentos vindos dos cursos da escola Ar.Co. Espero que esta forma de trabalho seja para continuar.

Como novas experiências profissionais DIY apareceram dois “comics” (de continuação) da loja Kingpin of Comics e a revista de humor HL Comix do autor Derradé que lançou dois números nas bancas.

Uma revista que apostou na bd foi a Underworld – Entulho Informativo, dedicada à música underground, que publicou 2 páginas de bd nos quatro números de 2006: o sérvio Aleksandar Zograf, o português João Maio Pinto, e os polémicos norte-americanos Dirty Danny e Mike Diana.

Literalmente para fora, para o estrangeiro, continuaram as colaborações nacionais no zine suíço Milk+Wodka, André Lemos participou em vários projectos pela Europa fora (Bongout, Le Dernier Cri, La Commissure, 5eme Couche), Pedro Nora e Isabel Carvalho na antologia finlandesa Glömp, Isabel também participou na antologia de bd no feminino … de ellas (Edicions De Ponent) e João Maio Pinto em duas antologias da 5eme Couche.

 

Sucedâneos?

Enquanto o formato “fotocópia barata” vai sendo descartado pelos novos autores / editores – que preferem a Internet ou imprimir edições com aspecto profissional – e ao mesmo tempo que o Succedâneo fez 10 anos em Abril (e suspendeu actividade no número -31 que era um carro de rolamentos!) na Bedeteca de Lisboa, surgiram dois novos projectos que seguem as pegadas do Succ: usam o formato fanzine mas com maiores preocupações de produção, apostam em boas fotocopias, assumem o facto de serem edições limitadas e como tal especulam na sua raridade. Foram eles a Imprensa Canalha com três projectos, a saber, o Néscio, Mundo dos Insectos (de José Feitor) e Belo Cadáver; e a Opuntia Books também com três títulos monográficos de André Lemos, Bruno Borges e Frederico (uma criança de 4 anos). Nas folhas destes projectos vamos encontrar algumas bd’s ou colaborações de autores de bd como Filipe Abranches, Rosa Baptista...

 

 Por fim,

 Continuaram a revista Sketchbook (que acabou ao terceiro número), o zine mutante (agora antologia / livro) Mesinha de Cabeceira pela Associação Chili Com Carne, a revista Venham +5 da Bedeteca de Beja, os zine Aqui no canto (especial Aqui no cantinho com uma bd para crianças), O Hábito faz o monstro, Durty Kat, Jazzbanda e mais um título bombástico da Joana Figueiredo…

Saiu o Allgirlzine (zine de bd no feminino organizado por Daniel Maia), Alçapão, zine dedicado à «arquitectura dura» com um bom grupo de ilustradores e autores de bd a colaborarem, e 24h volta em Portugal em bd (pelo colectivo Dr. Makete) que embora seja um zine é descrito como um «um livro de bd com 24 histórias diferentes realizadas em 24 horas em 24 locais diferentes».

 

Power to the people!

Marcos Farrajota

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