quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2008 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2008)

Só se fala em crise neste nosso país mas parece que a máxima “em tempos de crise é que aparece a criatividade” acaba por ser verdade. Não que tenham aparecido muitas inovações, como aconteceu nos anos 90 e princípios de milénio mas pelo menos no mundo da edição independente – seja fanzine, zines, livros de autor – tem havido massa crítica o suficiente nem que seja para escrever um texto como este.

 

Muitas páginas, apesar da crise…

Desde já, é de constatar que continuaram a ser publicados os seguintes fanzines e zines: o Boletim CPBD, Facada de Tiago Baptista, [R]eject de Andreia Rechena, Tertúlia BDzine e Efeméride ambos editados por Geraldes Lino. Regressou o Gambuzine de Teresa Câmara Pestana, agora como uma nova numeração / nova série. A Joana Figueiredo lançou mais um zine com um título marado – desta vez é o Post Shit que fez tanto sucesso no Crack (Roma) e no Festival de Helsínquia que acho que não deve ter chegado a ser divulgado em Portugal… - e Os Gajos da Mula lançaram Fantôme Galicia. O autor algarvio Phermad lançou a colectânea De trute ise aute der que compila bd’s publicadas no seu antigo projecto, o zine Terminal.

Novinhos em folha foram Znok de Filipe Duarte e Faixa 9, um zine dedicado a «ambiências musicais em BD». E apareceu o um novo colectivo gráfico, o Hülülülü, que lançou cinco títulos em poucos meses de actividade – nada mal uma vez que o ano passado queixava-me que não havia uma nova geração de autores.

Em formato mais profissional saiu o número dois do Alçapão – fanzine de arquitectura dura que incluiu uma bd de João Sequeira e muita (boa) ilustração; Le Sketch, projecto de Paulo Patrício; os Opuntias Books materializaram-se em três novos títulos com aspecto luxuoso e muito apelativo; a Kingpin lançou os terceiros volumes das suas séries; a Imprensa Canalha editou mais uns graphzines e a antologia Cabeça de Ferro; a Chili Com Carne lançou um volume de Mercantologia, colecção dedicada a recuperar material dos zines, intitulado Noitadas, Deprês e Bubas que reedita bd’s antigas do Mesinha de Cabeceira. A Bedeteca de Beja continuou o Venham+5 (num formato de antologia na linha da revista Quadrado ou do Mutate & Survive) e a colecção Toupeira com uma bd de Susa Monteiro.

Novidades: saiu um livro intitulado Murmúrios das Profundezas que apesar de ter resultados muito pobres a todos níveis (o texto, as adaptações, os desenhos e técnica das bd’s e o design) é interessante porque é um projecto sinergético e colectivo para um país cheio de individualistas. Copiando o “template” que foi o Virgin’s Trip (El Pep; 2006), reúne autores envolta de um tema comum, neste caso estórias do H.P. Lovecraft que são adaptadas para bd. O esforço de fazer um livro “grande” é assim partilhado e sendo colectivo tem mais hipóteses de chegar a mais público também. Creio que podia ser um bom modelo para que a haja mais edição em Portugal… Apareceu uma nova editora, a Plana Press que lançou dois títulos: Pandora Complexa 500 de Julio Dolbeth e Rui Vitorino Santos (de ilustração) e Tomorrow the Chinese Will Deliver the Pandas de Marco Mendes (de bd). E a Associação Cinema Ao Norte iniciou uma nova colecção de bd, O filme da minha vida, onde já saíram dois títulos, um de André Lemos e outro de Daniel Lima. O Serrote estreou-se na edição de livros de ilustração com Minho e Nouveau Dictionnaire de Français, ambos de Nuno Neves.

De referir também o livro Os Frescos da Aldeia das Amoreiras editado pelo Centro de Convergência / GAIA, que documenta uma experiência de bd na forma de pintura mural numa aldeia alentejana.

 

De um lado para o outro

 A Aldeia Global continua em alta, especialmente necessária para abrir as cabeças periféricas portuguesas a novas ideias, experiências, contactos e projectos.

Passaram por Lisboa no âmbito da exposição Honey Talks o autor Jakob Klemencic (publicado em Portugal pela Polvo e Chili Com Carne e na Quadrado) e o editor David Krancan, ambos da revista eslovena Stripburger; o colectivo brasileiro do zine Bongolê Bongoró esteve no evento Brucutumia 2008; o francês Guillaume Soutlages esteve durante a Feira Laica na Bedeteca de Lisboa; a sueca Kriistina Kohlemainen (organizadora da SPX de Estocolmo) foi convidada para os colóquios Banda Desenhada e Bibliotecas, e o polémico autor norte-americano Mike Diana esteve no Furacão Mitra. Ainda de referir as autoras finlandesas Anna Kaisa Laine e Tiitu Takalo que acidentalmente caíram (de pára-quedas?) na Feira de Fanzines de Almada e Feira Laica de Coimbra.

Mas também houve o inverso, portugueses a visitarem eventos internacionais como representantes da Chili Com Carne que foram ao Festival de Angoulême (França), SPX (Suécia), Crack (Itália), Festival de Helsínquia – também a Chili Com Carne foi representada no Boom Fest, em S. Petersburgo. Filipe Abranches esteve nas Xornadas de BD de Ourense e os Gajos da Mula foram ao Proxecto Edición em Pontevedra (Galiza).

A nível de publicação, alguns autores portugueses participaram em publicações estrangeiras como Filipe Abranches na Stripburger e Splot (Polónia), uma série de autores no habitual zine suíço Milk+Wodka, Teresa Câmara Pestana no zine feminino e finlandês Irtoparta, Richard Câmara no zine espanhol ARGH!, o autor destas linhas no «jornal ilustrado com um mês de atraso» Aooleu (Roménia), e como sempre André Lemos é o autor mais internacional que colaborou nos seguintes zines (espero ter apanhado todos!): La Commissure (França), Zine Arcade (Inglaterra), Lazer Artzine (Bélgica) e Elk (EUA).

 

 Ao metro quadrado

 A questão de espaços e eventos tem sido cada vez mais notável e importante na cena independente uma vez que ao acesso de edições “indies” estarem vedadas ou ignoradas pelo mercado livreiro e até das ditas “lojas especializadas”.

Foi um ano em que em Lisboa fecharam a loja de Design Goma 386 e a galeria Work&Shop, sítios que comercializavam produções independentes e organizavam exposições de ilustração e bd. Em compensação, as lojas Central Comics, Kinpin Books e Mundo Fantasma reformularam os seus espaços dando uma maior dinâmica à produção nacional, e no Porto abriram a Dama Aflita e a Inc., a primeira é uma galeria dedicada à ilustração e a segunda uma livraria de edições de autor.

Talvez pela falta de estabilidade dos espaços comerciais portugueses é que se tem solidificado cada vez mais eventos “indies” em volta da edição, cada vez mais com uma programação ousada. Este ano houve três edições da Feira Laica, as segundas edições da MAGA nas Caldas da Rainha e do Bunny Weekend em Lagos – e o celebrado Furacão Mitra. Foi o ano de uma Feira de Fanzines de Almada que mais valia não regressar já que a organização actual do evento é incapaz de envolver a comunidade fanzinista na sua programação.

Desapaixonado este texto? Sim, sem dúvida… As edições relatadas também o são? Nada disso, não me permitindo fazer muitos juízos de qualidade – por várias razões, entre elas porque estes relatos não o permitem e por outro fazendo eu próprio parte da “cena”… Que giro! É que existe mesmo uma “cena”! – mas dizia, não me permitindo a fazer esses juízos, só há algo a fazer, é procurar estes títulos, estas editoras e julgar por si mesmo.

Como tudo na vida encontrará coisas que não serão do total agrado, outras pelo contrário serão revelações mas só nesta “cena” é que poderão desfrutar prazeres narrativos e estéticos porque de resto, na sua livraria predilecta a bd deixou de existir – não sei que dirá o Daniel Maia este ano nas “Edições” – tal como acontecia até aparecer a Bedeteca de Lisboa em 1996. Resumindo, nas livrarias não acontece nada… se existe algo é no mundo dos fanzines!

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