A História é dos Vencidos
Apontamentos da autoria de Marcos Farrajota para uma tentativa de escrever a História da Banda Desenhada em oposição à "História Oficial" que nos obriga a gramar com episódios inócuos e comerciais: super-heróis, idades do ouro e afins, tintins e spirous, etc...
sábado, 25 de janeiro de 2025
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sexta-feira, 27 de setembro de 2019
1001 Vencidos

Li recentemente este livro que recomenda 1001 BDs para lermos antes de morrer e a sensação com que fiquei é que já li mais das metade das sugestões, que metade dessa metade, ou até mais, é lixo; que faltam realmente obras-primas na banda desenhada; que uma boa parte dos colaboradores deste calhamaço são nacionalistas ou cromos, ou ambos. Todos todos, menos o Domingos Isabelinho e o Pedro Moura que assinam os textos mais brilhantes deste tijolo - os textos significam "sinopses" e "contextos" das obras sugeridas - e não, não estou a ser um porco nacionalista ao defender estes dois investigadores portugueses.
Agora que sofreram da "timidez tuga" isso é visível, tendo só conseguido incluir a obra de um português - O Diário de K (Polvo; 2001) de Filipe Abranches, adaptando Raul Brandão - enquanto que o menos escrupuloso sueco Fredik Strömberg fartou-se de meter das suas merdinhas. Haveria razões para colocar mais obras portuguesas? Sim, pelo menos duas, a saber:
- No Lazareto (Empreza Literária Luso-Brazileira, 1881 - reed.: Frenesi, 2003) de Raphael Bordalo Pinheiro, pai/ avô e mais qualquer coisa da BD portuguesa, o que seria um título tão importante como qualquer outro de outro país periférico às grandes indústrias da "bedófilia" se, efectivamente não tivesse mais valor intrínseco proporcionalmente ao seu desconhecimento público nacional e mundial. É das primeiras obras autobiográficas do mundo em BD, documento sobre os métodos de viagem e quarentena de quem vinha dos trópicos, denunciador da burocracia e corrupção latina e graficamente hilariante como só RBP sabia fazer.
- Ecos da Semana de Carlos Botelho que entre 1928 e 1950, no jornal Sempre Fixe, produziu uma pequena vida sobre a cidade de Lisboa mas também comentando a ascensão do fascismo pela Europa e pincelando alguns episódios de recorte pessoal (autobiografia outra vez). Faz parte daquelas obras que toda junta - infelizmente só existem duas (re)edições em livro, uma pela Gulbenkian (1989) e outra pela Bedeteca de Lisboa (1998) - rivaliza outras idênticas, aquelas que acompanham o tempo real de braço dado com a vida do autor da obra, como o Gasoline Alley de Frank King, começada em 1918 e que existe até hoje, Príncipe Valente (bocejo!) de Harold Foster começada em 1937 ou Mämmillä de Tarvo Koivisto de 1974. Todas elas contam as ficções de uma família ou de uma cidade a evoluir em tempo real, ou seja, os bebés crescem e tornam-se punks, o príncipe dá umas fodinhas na princesa para que a aristocracia continue na boa, a ser aquilo que sempre foi: inútil. O "Vaselina" e o Valente podem ser muito bonitinhos mas parece que o Koivisto e o Botelho sejam mais relevantes, uma opinião.
Depois deste aparte, rewind... o pior de tudo são aquelas tiras "clássicas" ou a inclusão dos primeiros números em que aparecem este ou aquele super-herói. Não defendo que tenha-se de fazer grandes separações entre a BD comercial e popular da artística mas há uma diferença entre o Little Nemo de Winsor Mckay e a cagada do primeiro número da Action Comics onde nasce o Super-Homem. É que o Nemo ainda se consegue ler depois de 100 anos, o Super-Homem de 1938 é trampa e quem consegue ler aquilo e achar piada, só pode ser um atrasado mental - sem querer ofender os deficientes mentais. Que incluam super-heróis quando eles tenham interesse, por exemplo nas mãos de Frank Miller (facho de merda!), Alan Moore (anarquia já!) ou Grant Morrison (drogado do caralho!) mas fazer este compromisso de apresentar 1001 BDs entaladas entre socialmente relevante (super-heróis, por exemplo) com Arte, é dar um tiro nos pés. Sobretudo porque impinge a ideia de cânones dos cromos como uma espinha dorsal que depois congrega "o resto". Esse "resto" é o que realmente interessa. Por isso, é que não se encontra quase títulos Amok / Fréon / Fremok ou muito poucos de L'Association no terreno europeu, o que é deveras estranho quando foram eles que mais cartas deram à BD nos últimos 30 anos - o livro acaba com a data de 2011 - ficando só listados os que receberam prémios em Angoulême, como se fosse deste festival que viesse o carimbo exclusivo de qualidade.
Fazer uma coisa destas dá uma trabalheira e não vale a pena pensar a quantidade de pequenas incongruências ou erros que sucedem nas suas páginas. Num volume aumentado, melhorado e tal deverá dar -se conta disso mas há um gosto de derrota ao lê-lo. O Gravett de certeza que podia ter reparado em faltas graves - que ele não consiga engolir obras de línguas que não percebe como a portuguesa, tudo bem - mas nitidamente só do monstro franco-belga há razões para incluir outras obras e excluir outras em língua inglesa ou francesa ou japonesa.
Então, fui às compras, à procura de algumas das obras referidas e agradeço ter descoberto o artista dinamarquês Palle Nielsen (1920-2000) e o seu Orfeus og Eurydike (Hans Reitzels; 1955) mas já a parvoíce enche-chouriços britânico Magic Mirror (Elbonvale; 2010) de Ed Pisent dispenso completamente, foi deitar dinheiro para o lixo; tal como Kari (HarpeCollins India, 2008) da indiana Amruta Patil que pelo facto de ser um trabalho que a personagem é lésbica num país conservador faz dela uma autora corajosa mas não uma artista; ou Rumble Strip (Myriad; 2008) de Woodrow Phoenix que possui um texto poderoso sobre a (ir)responsabilidade de quem está ao volante mas os visuais minimalistas e sem uso de figuras humanas, não surtem nenhum efeito especial a não ser pensar que estamos de frente da preguiça, o que é pena, conceptualmente prometia; e, Forget Sorrow (W.W. Norton; 2010) de Belle Yang é outra desilusão, desenho horrível e narração desinteressante - o marketing insiste em comparar a Maus ou Marjane Satrapi mas não se compara, é um sucedâneo como muitos que andam por aí. Disappearance Diary ((Fanfare; 2008) de Hideo Azuma tem tudo para ser interessante, é o diário de um autor de BD que se passa e vive uma vida de mendigo. Infelizmente rapidamente torna-se num "gourmet" para sem-abrigos com piadolas sobre o aleatório deste tipo de vida. Sem nunca se explicar da razão do seu desequilíbrio mental ou a forma como isso afectou os seus pares, a obra torna-se tonta a dada altura.
Uma surpresa foi Special Exits (Fantagraphics; 2010) de Joyce Farmer, uma auto-ficção sobre os últimos dias dos pais da autora, livro com um peso deprimente mas com alguns apontamentos reconfortantes sobre a vida e a morte.
Recentemente li o Tom Hart e o seu Hutch Owen, divertidissimo mas nada feito nos "1001", não foi dos eleitos - por ser anarquista? Li The Pillbox (Jonathan Cape; 2015) de David Hughes e arrepiei-me q.b., não consegui o que o "1001" recomendava - Walking the dog (Jonathan Cape; 2009) - mas fiquei curioso... isto para dizer que há ainda obras a descobrir para além das "1001", menos mal.
Em compensação Life? Or Theater? (Taschen; 2017) de Charlotte Salomon (1917-43) é uma obra tão inesperada quanto impressionante. Composta por 700 desenhos / pinturas feitas a caminho para exterminação pela máquina Nazi, conta a história de Salomon e membros da sua família, o advento do Nazismo e sobretudo a vontade de viver de Charlotte face a um historial de suicídios de várias mulheres da sua família. E mais que um relato de uma tragédia há lugar para ensaios e que não deixaria passar esta frase: If the comtemporary sculptor cannot work without the phonograph sounding in his ears 'for inspiration of his soul' - this to me is proof that most artists of our time have lost the primordial sense of experience (...) all their urge to create turns them into apes and parrots (p.448) Um espírito assertivo que viveu nos piores dos tempos. Aliás estas frases poderão ser aplicadas a 75% do livro das "1001 BDs"...
Bom, estava preocupado enquanto profissional na área de que houvesse assim tantas obras importantes que não tivesse lido. Afinal está tudo bem, muito obrigado!
terça-feira, 30 de junho de 2015
Punk Comix: Os “flirts” entre a BD e o Punk em Portugal
Bibliografia e anexo 1 de Punk Comix
domingo, 12 de outubro de 2014
comix remix extra
Outro caso deste espírito dos tempos do Comix Remix, foi o lançamento do livro Le Carnet Rouge (Soleil; 2007) do dinamarquês Teddy Kristiansen para o mercado norte-americano. O livro sofreu o milagre da duplicação e ficou um "split-álbum": The Red Diary / The Re[a]d Diary (Image; 2012). O que aconteceu é que Steven T. Seagle (argumentista ianque que colabora com Kristiansen nos super-heróis) não sabendo um pingo de francês ou dinamarquês "traduziu" o livro criando um texto novo para as mesmas imagens - aliás, ele usou a sua técnica de "transliteration", que é "traduzir" palavras de uma língua para o inglês mas pelo o que ela "soa" ou se "parece". O resultado é um texto - uma história - completamente diferente do Le Carnet Rouge. Ambos os contos não são nada de especial, algo de "light" como é típico nos "álbuns franco-belgas", em que a mediocridade de temas são disfarçados pela "bela" arte, que todos reconhecerão Kristiansen como tal, com o seu estilo "impressionista" - talvez por iso é que tem no currículo o facto de ter sido o primeiro europeu a desenhar o Super-Homem. Mas depois de ler a sensação é que não muito a não ser "belos" desenhos. Curiosamente, o texto de Seagle parece ser mais concreto e interessante que o "original"... Foi o Joseph Beuys que disse que a "cópia é melhor que o original"?
sábado, 5 de maio de 2007
"Max - Alumbrado de Palma de Maiorca" in Splaft! #3 (Bedeteca de Beja; 2007)
Max, pseudónimo de
Em tempos de pouco
espiritualidade ou de uma espiritualidade deturpada dos livros bestsellers (Paulo Coelhos, Códigos Da Vinci's e outras
parvoíces), Bardín (a série não o personagem) é o antídoto à barbárie
intelectual desta Nova Era das Trevas em que vivemos. Max não perde tempo para
gozar com as conspirações à pressão, o Orientalismo de meia-tigela e o
Surrealismo para o povão – “Relógios moles, montanhas de queijo! Ha ha ha ha!!”
ri-se o "Cão Anda
Relembro que algumas das histórias de Bardín foram lidas na revista Quadrado da Bedeteca de Lisboa, aliás, esta é a única publicação em que poderemos encontrar trabalhos de Max em português, apesar das várias passagens do autor nos nossos principais festivais de bd - Porto, Amadora, Lisboa e agora, Beja. Minto, também poderão encontrar um ou dois livros ilustrados para a infância mas se não mentisse também vos impressionaria menos.
domingo, 31 de dezembro de 2000
Relatório Fanzines BD Portuguesa de 2000 in Contador-mor #8 (Bedeteca de Lisboa; 2000)
O "Zalão de Danda Besenhada,
o último salão dos independentes", para além de ter exposto bd de outra
forma, conseguiu reunir num projecto comum os melhores fanzines de Lisboa e
Autores dos fanzines criaram
editoras ou foram editados em livros: Círculo de Abuso (
Novas tecnologias: o primeiro
CD-ROM de bd (
Ritmos alucinantes de edição:
Gambuzine trimestral e Succedâneo bimestral!
Promessas de novos números do Cru
e d'
Muitas Feiras de Fanzines pelo
país (o Festival da Amadora voltou a dar atenção aos 'zines apesar do aspecto
de covil do stand) e saíram novos números do
Qual é a próxima jogada?





