domingo, 12 de outubro de 2014

comix remix extra

Enquanto ia escrevendo o artigo Comix Remix iam aparecendo sempre novas situações ou velhas lembranças sobterradas, (re)descobertas que impressionavam e que poderiam ter entrado no artigo com o perigo de o transformar numa listagem, afinal são mais curiosidades que obras seminais mas gostaria de as partilhar aqui seja como for... 


Estive em Maio no Porto, na feira da ladra mais podre do país. Chama-se Vandoma e cada vez é maior e com mais tralha. Foi lá que descobri Grande Música Negra (RÉS; 1975), quinto livro de Jorge Lima Barreto. Um livrinho de capa preta que fala de Jazz à pedante que merece aquele tema dos Naked City: Jazz snob eat shit. Mas seria injusto também não escrever que a pespectiva é sempre chamar atenção ao sofrimento dos negros nos EUA. O que me motivou a comprar o livro não foi para ler sobre Jazz mas porque custava um euro e nas primeiras páginas do livro Barreto faz um "detournement" sobre uma BD do Tarzan, ou seja, mudou o texto original por outro completamente anti-imperialista, anti-colonialista e bastante divertido, como se espera desta técnica situacionista. Foi curioso encontrar isto a poucos dias de lançar o novo livro do Rui Eduardo Paes, o "a" maiúsculo com um círculo à volta. Barreto ousou usar uma BD para servir de chamariz visual, ou melhor ainda, como um manifesto contra o racismo e a exploração capitalista sem ser escrito apenas como texto simples. Em Portugal é tão raro usar a ilustração nos livros - visto como algo menor - que realmente este livro surpreende pela ousadia dupla, de pegar em desenho / BD e pelo "detournement".



Talvez nos anos 70 os intelectuais fossem menos parvos do que são hoje... No mesmo ano é editado em forma de livro comercial Conto de Natal para crianças (Forja) do poeta surrealista Mário Henrique Leiria, todo ele é um livro ilustrado e usando ideias de "detournement" do Situacionismo (e não do Surrealismo) porque é uma obra política. Realizado em Dezembro de 1972 como oferta a um amigo, este livro junta um texto inocente escrito com uma caligrafia de criança com as imagens mais horríveis da altura: mutilados de guerra, massacres e fome, fotografias de políticos fascistas "da altura" (Salazar, Nixon, Pinochet),... Uma obra de choque visual usando o paradoxo do texto bonito com imagens feias. Surgiu isto trocando outro livro de Leiria, Casos de Direito Galático, com um sócio da Chili Com Carne encontrado sem querer no mundo dos leilões virtuais. O mundo também é pequeno na Internet!



Esta página foi publicada no jornal Coice de Mula #4 (2002) e é de autoria de Alex Gaspar (1965-2010). O jornal existiu em oito números entre 1999 e 2007 "para a despoluição da arte contemporânea" sendo que o autor sempre colaborou com algumas BDs, algumas vezes assinando Chiquinho das Perdizes ou Frank Cinatra, creio... Esta será a única vez que assume o seu nome verdadeiro e pela reprodução a preto e branco do jornal ia jurar que o autor colou imagens alheias dos fachos do Batman e Tintim. Mais tarde esta BD seria republicada a cores num fanzine do Geraldes Lino dedicado a "Efemérides" (e sim, esse é o nome do fanzine) e aí topa-se que na realidade o autor ou fez imitação à vista ou decalcou as imagens. Não deixa de ser um "comix-remix" de alguma forma sendo que a BD fala por si...


Entretanto o camarada Lam enviou-me este link zdnd.tumblr.com, terra do não-direito (de autor) mas também do francês Yvang que desenvolve um trabalho incrível de colagem fractal de BD popular bem Pop, colorida, psicadélica vintage,... E poucos dias recebia a newsletter do Le Dernier Cri a anunciar a exposição e catálogo Fotoshok (2013) dedicada a montagens, onde vamos ter os cirurgicos Fredox ou Sekitani, o punk-velho Winston Smith (Dead Kennedys, Alternative Tentacles,...), o muy digital Dave 2000 entre outros cromos... tudo à mistura e sem créditos, uma javardice à LDC, um gajo tem de conhecer os trabalhos da malta para os poder identificar!



Por fim, na Terça FEIA apanhei um livrinho A6 editado pelo Samba, intitulado Sem/ registo (2012) de um tal Pedro Ivo Verçosa... É uma BD inteiramente feita de colagens e sem palavras. Um livro simples com um relato simples de uma bola humana que faz metamorfoses várias até voltar tudo ao mesmo. Plasticamente é bonito e vê-se que o autor domina a narrativa e composições de páginas da BD.


Outro caso deste espírito dos tempos do Comix Remix, foi o lançamento do livro Le Carnet Rouge (Soleil; 2007) do dinamarquês Teddy Kristiansen para o mercado norte-americano. O livro sofreu o milagre da duplicação e ficou um "split-álbum": The Red Diary / The Re[a]d Diary (Image; 2012). O que aconteceu é que Steven T. Seagle (argumentista ianque que colabora com Kristiansen nos super-heróis) não sabendo um pingo de francês ou dinamarquês "traduziu" o livro criando um texto novo para as mesmas imagens - aliás, ele usou a sua técnica de "transliteration", que é "traduzir" palavras de uma língua para o inglês mas pelo o que ela "soa" ou se "parece". O resultado é um texto - uma história - completamente diferente do Le Carnet Rouge. Ambos os contos não são nada de especial, algo de "light" como é típico nos "álbuns franco-belgas", em que a mediocridade de temas são disfarçados pela "bela" arte, que todos reconhecerão Kristiansen como tal, com o seu estilo "impressionista" - talvez por iso é que tem no currículo o facto de ter sido o primeiro europeu a desenhar o Super-Homem. Mas depois de ler a sensação é que não muito a não ser "belos" desenhos. Curiosamente, o texto de Seagle parece ser mais concreto e interessante que o "original"... Foi o Joseph Beuys que disse que a "cópia é melhor que o original"?

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2010 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2010)

Talvez já tenha mostrado o optimismo no blogue da Chili Com Carne, numa onda de “Mensagem do Presidente para 2011”. Aqui a análise é retroactiva, menos ampla, mais focada e isenta mas os sintomas de optimismo sentem-se – por ter sido escrita pela mesma pessoa, claro está. Aliás, é preciso mesmo olhar para o passado, neste acaso, em 12 meses para perceber que aconteceu muita coisa, tanta que a cabeça ficou tão cheia e insensível que se esqueceu da actividade dinâmica. Foi bom rever o que aconteceu em 2010 ao fazer a pesquisa para este Dossiê.

Com a decadência das grandes estruturas comerciais e institucionais são os “pequenos” que suportam e criam novas estruturas. Este ano faço questão até de fazer uma listagem em vertical para mostrar a força da coisa.

Lista a) Começamos pelo básico! Continuaram a editar:

- Reject’zine (de Andreia Rechena)

- Opuntia Books

- Imprensa Canalha

- Gambuzine

- MMMNNNRRRG

- Associação Chili Com Carne

- El Pep

- Zona BD

- Le Sketch

- Plana Press

- Boletim CPBD

- Kingpin Books

- É Fartar Vilanagem! (de Alexandre Esgaio)

- autora Jucifer (Techno Allah)

- Pedranocharco

- Venham +5

- Filme da minha vida

- autor Rudolfo (vários títulos)

- Tertúlia BD’zine

- Cleópatra (De Tiago Baptista)

- Znok (de Filipe Duarte)

 

Lista b) Regressaram:

- Polvo

- Kzine

 

Lista c) Agora sim, o importante (já explico). Apareceram novos projectos:

- Yoshi, o puto dragão (edição de autor e reedição profissional pela Raging Planet)

- Apupópapa

- Soft Porn Coloring Book

- B74

- Thou the Latrina spoken

- Sou daquelas (de Sílvia Rodrigues)

- Fígado da República (de José Smith)

- dois zines de David Campos

- dois zines de João Ortega

- Intro Espectro (de Tiago Araújo)

 

A Lista a) mostra uma continuidade de trabalho que insinua uma “profissionalização” dos projectos como é o caso da MMMNNNRRRG, El Pep, Zona BD, Plana Press e Kingpin Books – esta última nitidamente é uma casa comercial que coloca problemas em estar aqui a ser metida mas tendo em conta a pequena expressão no mercado faz sentido estar aqui.

No meio da lista a biblio-biodiversidade domina em objectos e objectivos: do carácter mais coleccionista do Boletim CPBD ao lúdico Le Sketch, do fetichismo dos Opuntias Books à necessidade de exteriorização artística de Andreia Rechena, do conteúdo programático da colecção O Filme da minha vida (da Associação Ao Norte) ao institucional de Venham +5 (editado pela Bedeteca de Beja)... Há de tudo para todos neste universo de edição independente em que misturo aqui fanzines, zines, livros de autor, livros impressos em tipografia ou em digital, colecções organizadas, números únicos, etc… Ao acrescentarmos os debutantes da Lista c) ficamos ainda mais ricos: zine/CD contra o Papa, Manga Cosplay-Metal, pornografia para colorir ou bds de continuação a seguir (mesmo!) com atenção.

Duas notas para a lista b) a Polvo que em tempos foi uma editora “média” (para a “média portuguesa”) e detentora de um catálogo histórico, inclui-se nesta análise porque suspeito que o capital da empresa, as tiragens dos livros e a sua projecção comercial está reduzida actualmente a quase qualquer outra iniciativa privada de “edição independente”. O Kzine é um fanzine dedicado à Manga (bd japonesa comercial).

Como repararam a Lista c) além de aplicar novidades em termos de conteúdo também mostra pujança em quantidade, isto se comparamos em relação com os últimos anos – a queixa mais bem registada está no Dossiê de 2007.

Durante os últimos anos, os zines em papel desapareceram gradualmente – ou melhor perderam a força ou foram substituídos pela febre “graphzine”. Em 2010 num “zeitgeist” qualquer apareceram não só novos títulos e novos autores, em que modéstia à parte, deve-se juntar o esforço da antologia Destruição (Chili Com Carne) que reuniu 15 novos talentos da bd portuguesa. Esta lufada de ar fresco há muita que era esperada dada ao fim do ciclo produtivo da geração dos anos 90. A questão que se colocava era se a bd de autor tinha desaparecido de completo? Que não havia novas pessoas a criarem bd de autor?

Talvez até tenha acontecido isso mas estão aqui as novas raízes que esperamos ver florescer em 2011 e para a frente. Quem sabe talvez do panorama desolador dos últimos anos venha a dar frutos como aconteceu há 20 anos atrás quando só havia Meribérica-Liber, Jim Del Monaco e o Clube Português de BD.


Internacional:

+ do mesmo, isto é a Aldeia Global já é uma Cidade em que não estranha os estrangeiros que entram nos seus terrenos… Miguel Carneiro e Marco Mendes publicados na revista eslovena Stripburger (Mendes duas vezes!), André Lemos no Lazer Art’zine (Bélgica), no ZI-NE (Roménia), na antologia Gazeta (EUA) e provavelmente em muitos mais sítios mas que não conseguimos seguir todos; José Feitor, Marcos Farrajota, Pedro Zamith e Pepedelrey no calendário brasileiro Pindura 2011, vários autores da Chili Com Carne no zine espanhol Combate (Ediciones Valientes) e ainda um livro de autor de Marta Monteiro pela Café Royal (Inglaterra). Também houve presenças em festivais internacionais como o Crack (Itália) e Alt Com (Suécia), para além de participação de André Lemos nas exposições Leaf and Signal e Not Tex Not Mex #1 (ambas nos EUA). Seis criativos da Chili Com Carne fizeram uma “tour” pela Europa fora, iniciativa inédita que passou por Espanha, Itália, Eslovénia, Sérvia, Áustria, Alemanha e França. Estas “férias peculiares” irão gerar um livro de viagens até agora no prelo.

Mais autores estrangeiros das veias alternativas que visitaram Portugal: o esloveno Jakob Klemencic no Festival de BD de Beja com o projecto europeu Greetings from Cartoonia, o croata Igor Hofbauer para duas exposições de sucesso em Lisboa e Beja, o texano Nevada Hill para a Feira Laica de Verão, e o sueco Mattias Elftorp, o francês Albert Foolmoon e o espanhol Martin Lopez Lam na Feira Laica de Natal. E claro, ainda tivemos um ícone da bd alternativa, a Dame Darcy que passou por Beja e por várias datas nortenhas.


“Profissional”

Apareceram duas novas associações, a Oficina do Cego dedicada à arte de bem imprimir – tendo já lançado dois números do jornal homónimo – e a Tentáculo que se dedica à publicação da antologia Zona BD. São obviamente associações sem fins lucrativos mas que dão um cunho mais profissional e de continuidade a projectos de edição. São mesmo bem-vindas!

A MMMNNNRRRG comemorou 10 anos, uma longevidade a respeitar para o tipo de material que edita e pelo ódio que lhe é alvo pelos agentes da “cena”. Talvez por isso tenha ido para o Porto lançar o Pénis Assassino, trabalho Janus feito em 2001 mas que só em 2010 alguém teve os “tomates” para o editar. Aliás, para uma editora odiada até houve “amor” logo no início do ano quando lhe foi atribuído o Prémio Titan para o livro Já não há maçãs no Paraíso de Max Tilmann (Tiago Manuel).

A Chili Com Carne e a El Pep ganharam um prémio em Itália para melhor fanzine (3º prémio) com o Seitan Seitan Scum (Mesinha de Cabeceira #22) no evento Slow Comics. Só o Festival da Amadora é que o fenómeno da edição independente é que lhe passa ao lado, não admira que este ano tenha estado às moscas…


Exposições

Em compensação, apesar da filosofia “easy come, easy go” que afecta as galerias / lojas / espaços lisboetas, as exposições O Último Fósforo (colectiva internacional vinda da Estónia), Mike Diana (recriação da exposição de 2008) e Igor Hofbauer (cartazes) na Artside estiveram cheias. A galeria de artes urbanas já fechou entretanto… Ao contrário das galerias portuenses Dama Aflita (ilustração) e Mundo Fantasma (bd) que são estáveis e mantêm uma programação exemplar. Que durem todos os anos que quiserem! Voltando a Lisboa. Porque sou lisboeta e tenho sempre Esperança que esta cidade melhore, as lojas de música Matéria Prima e Trem Azul deram o ano passado os primeiros passos no sentido de terem patentes exposição gráficas nas suas instalações. Se fosse cristão até acendia duas velinhas…

 

Extras

Na falta de espaços para divulgação da edição independente, a Associação Chili com Carne promoveu várias sessões sobre o assunto na Casa da Achada. O PEQUENO é bom! tratou de lançamentos, discussões sobre zines, música e animação DIY. Acabou o verão e teve se retirar, talvez volte em 2011.

Nem tudo o que vem da ‘net é mau – pelo menos ao que diz respeito à bd – como se provou este ano quando Simples Alquimia entrou em linha em http://spiraltap.net/simplesalquimia, aplicando as teorias que apresentou em Reinventing Comics (2000) sobre a expansão da forma narrativa da bd pelo espaço infinito das páginas Web. Demorou 10 anos até alguém fazer a coisa com o deve ser. Parabéns ao Diogo Barros.

É caso para escrever com orgulho e expectativa o clássico “(continua…)”.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2009 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2009)

 

Foi um ano bastante emocionante no que diz respeito aos zine e a edição independente, em geral - pelo menos para este vosso relator. Mesmo que algumas estórias tenham acabado mal, outras talvez sejam o início de algo maior a acontecer no futuro. No geral, a característica comum é a internacionalização...

Foi um ano tão emocionante que fiquei desgastado e escrevi o texto menos inspirado de sempre.

«Vai!»

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Cá dentro (mas cada vez mais para fora)

Continuaram em actividade os fanzines Boletim CPBD, Tertúlia BD zine, os zines Mesinha de Cabeceira, Shock e Znok bem como os da autora Jucifer, o desdobrável gratuito de esboços Le Sketch (na essência com autores norte-americanos), as colecções O filme da minha vida (da Associação Ao Norte) e Toupeira e a revista Venham +5, estas duas últimas pela Bedeteca de Beja. A Imprensa Canalha e Opuntia Books lançaram três graphzines / livros de autor cada. As editoras MMMNNNRRRG, Kingpin Books e a El Pep produziram dois livros cada, três deles de autores estrangeiros: Igor Hofbauer (Croácia), Tommi Musturi (Finlândia) e colectivo Tx Comics (EUA). A Plana Press lançou um título apenas. De realçar o regresso dos Gajos da Mula com o muy aguardado Qu’Inferno, pujante objecto gráfico.

Lançou-se o É fartar Vilanagem! (2 números) por Alexandre Esgaio, Jungle Comics (do Rudolfo da Silva), a antologia Zona BD (2 volumes) e Troubadour Comics (de Afonso Ferreira) e ainda saiu um zine de bd no vinil punk Raridades, vol.1 (Zerowork). Parece que em Guimarães, devido à licenciatura de BD, também saíram zines de bd mas como é seu apanágio, nada saiu para fora da sua rede. Devem ser a lógica do “consumo interno” como acontecia com os zines das Caldas da Rainha nos anos 90. Pergunto-me se as pessoas sabem mesmo o que é um zine? Se pensam que é apenas um amontoado de fotocópias que não difere muito do mítico trabalho na gaveta ou se sabem que é uma forma de comunicação? Deverei preocupar-me com isso? Não me parece... Se algo de bombástico tivesse a acontecer alguma coisa sairia "cá para fora” – como aconteceu inevitavelmente com os zines das Caldas.

Houve as habituais Feiras Laicas - de Verão nos jardins da Bedeteca de Lisboa e no Natal desta vez no Braço de Prata -, Mercado Negro (Porto), Bunny Weekend (Lagos) e A Mula Ruge (Porto). De realçar também o festival Vírus (Leiria) que inclui uma feira de zines e edição independente no restaurante / bar Cinema Paraíso. A exposição (entretanto itinerante) åbroïderij! HA! - International Graphic Arts visitou a Casa da Animação, Biblioteca de Abrantes e o Festival Outfest (Barreiro).

A nível de documentos sobre edição independente, no Almanaque do Festival de BD da Amadora são reconhecidos os esforços da cena independente como o Mutate & Survive (2001), Zalão de Danda Besenhada (2000), El Pep, Gajos da Mula, embora pese alguma confusão em assinalar projectos como o fanzine Zundap e Opuntia Books, uma vez que não são exclusivamente de bd mas «podia ser pior…»

  

-- Lá fora (mas cada vez mais cá dentro)

Continuam a ser publicados autores portugueses em edições estrangeiras: Ana Cortesão na revista universitária Splot (Polónia), Jorge Coelho e Pepedelrey na antologia The Passenger (Itália), André Lemos e um texto sobre bd portuguesa no jornal Kuti (Finlândia), Filipe Abranches na antologia Greetings from Cartoonia editada pela revista Stripburger (Eslovénia) e creio que as habituais participações no zine suíço Milk + Wodka.

Os convites para fora intensificaram-se: André Lemos e Pedro Moura estiveram em Charloteville (EUA) com a exposição Divide et Impera, Jucifer foi à SPX de Estocolmo, Filipe Abranches foi a Ljubjana por causa do Greetings from Cartoonia, Marcos Farrajota foi à comemoração dos 20 Anos da Fanzinoteca de Poitiers (França) e uma grande comitiva a representar a Chili Com Carne foi ao Festival Crack (Roma) - Jucifer, André Lemos, Marcos Farrajota, José Feitor, João Maio Pinto e ainda o impressor de serigrafia António Coelho (Mike Goes West). Participaram também a Chili Com Carne e El Pep no Festival de BD de Angoulême.

De realçar em relação ao Crack que a Chili com Carne cuidou da edição da antologia do evento, intitulada Crack On com trabalhos de autores portugueses, italianos, suecos, franceses e dos Balcãs. E essa não foi a única participação internacional no plano da colaboração editorial, junta-se o projecto Greetings from Cartoonia com a Chili Com Carne a ser a parceira oficial do projecto para representar Portugal – havendo ainda colectivos da Roménia, Polónia, Itália, Noruega e Finlândia ao barulho. E ainda a co-impressão de Caminhando Com Samuel de Tommi Musturi, com a MMMNNNRRRG a participar neste livro com outros editores independentes da Finlândia, Suécia e Bélgica. Neste último caso, dividindo custos de impressão por quatro partes, baixou os custos de produção de um livro luxuoso (capa dura, a quatro cores, 140 páginas) - é uma pista para o futuro, mostrando que não deve ser só as grandes Vitamina BD e Asa a serem as únicas a trabalhar desta forma.

Por fim, neste capítulo, veio também para a Bedeteca de Lisboa a exposição do livro/ antologia finlandesa GlömpX que explora a tridimensionalidade da bd, uma exposição ousada tal como a antologia. A exposição esteve patente durante a Feira Laica, tendo visitado três autores finlandeses participantes – e não esquecendo, a participação também na Laica, do colectivo Stripburger com dois autores a apresentar o jogo-bd Stripble, também mostrado na Mula Ruge.

  

-No meio (?)

A necessidade de espaços físicos para escoar a criação e produção (nacional e estrangeira!) foi um placebo este ano, começou com um “bang” e acabou num “puf”. Houve excepções como a abertura da Casa Ruim (em Torres Vedras), a união da loja Matéria-Prima (do Porto) à Galeria Dama Aflita (a única galeria que se dedica à ilustração) e a continuidade da programação da galeria na loja Mundo Fantasma. Do que me referia em onomatopeias aconteceu em Lisboa, com o espaço “diferente” e “alternativo” CHILI! que durou sete meses.

Sendo um dos sócios e o programador da minúscula sala de exposições, destacava algumas exposições ligadas a este tema: a do suíço Nicolas Robel (que dirige a editora B.u.l.b. Comix), Luís Henriques que tinha o livro de autor Time Life Life Time lançou pela Opuntia Books e ainda uma comemoração do zine Shock que mostrou trabalhos de Estrompa e José Lopes. No espaço havia também uma componente de loja de cultura alternativa – incluindo bd e ilustração ou edições alternativas – que sustentava a maior parte de espaço, e devo desvendar o facto do espaço ter fechado não foi por problemas financeiros ou comerciais mas apenas por desentendimento com um dos sócios, o que impossibilitava a “part-time” sustentar uma estrutura deste tipo. E nesse aspecto, não há problema nenhum, uma vez que não nutro simpatia pelo adágio “o segredo é a alma do negócio”, em revelar que gerir um espaço “só com material alternativo” não é um suicídio comercial! A verdade é que na loja vendeu-se de tudo: zines de um mero euro, livros da Imprensa Canalha ou da Canicola de preços “normais” (entre os 10 aos 20 eur), edições luxuosas do Le Dernier Cri ou o último número da antologia Kramer’s Ergot (cujo preço era de 125€!).

A verdade da fórmula é simples e já vinha encriptada na pretensiosa apresentação da inauguração do espaço: «É sempre com um orgulho que os lisboetas ouvem os estrangeiros falarem da sua cidade. E adoram ouvir o cliché da Luz da Cidade. Mas os lisboetas esquecem-se que a Luz que os estrangeiros falam não é Luciferiana, é apenas aquela cujos raios solares oxidam a matéria até à sua obliteração. Lisboa de Iluminada nada têm, é medieval sobre vários prismas. (…) era constrangedor explicar aos tais estrangeiros porque é que nesta capital europeia não havia um espaço dedicado às margens sonoras e gráficas.»

Não havendo espaços que tenham publicações alternativas nessa “grande cidade europeia e capital de Portugal”, existe uma clara necessidade de um espaço assim – na comemoração da mais pura e dura Lei da Oferta e da Procura! Seja para os “locais” e os “nacionais” seja para esses tais estrangeiros sedentos de levar edições deste canto europeu que tanto gostaram de visitar. E aproveito para fazer um parêntesis em relação aos últimos, um turista em Lisboa não encontra publicações de bd portuguesa em lado nenhum, seja nas cadeias de lojas (Fnac, Bertrand, etc…) ou no mercado livreiro porque há muito que não tem as edições dos tempos áureos da bd (Bedeteca de Lisboa, Polvo, etc…) como não se tem editado quase nenhuma bd portuguesa nos últimos anos em casa editoriais com distribuição profissional. Não sendo aqui a secção do Dossiê para uma discussão sobre mercado de bd – deixo isso para as “Edições” – serviu esta advertência só para explicar este ponto de vista “turístico”. E já agora, mais outra “boca-parêntesis”, desta feita para as lojas especializadas que também ignoram a produção portuguesa (com honrosas excepções!).

A fórmula? Bom… seria uma equação simples de 5 variáveis: espaço bem localizado, sócios sérios, boa promoção, programação dinâmica e envolvência com a comunidade. Utopia? É bem provável não se conseguir as cinco variáveis mas pela experiência bastaria três destas condições perfeitas para um projecto deste tipo poder avançar, evoluir e vencer. Até o Obama diria “yes we can-can”.

sábado, 30 de maio de 2009

"Porque Portugal não gosta de si…" in Splaft! #5 (Bedeteca de Beja; 2009)

O Marco Mendes (1978, Coimbra) desde 2004 têm se afirmado como autor de bd’s “pedaços-da-vida” registadas como autobiografia e desenhadas de forma suja e urgente, ao contrário do que as suas participações na antologia Mutate & Survive (Chili Com Carne; 2001) e na revista Quadrado (Bedeteca de Lisboa; 2003) apontavam. Nessas publicações vamos encontrar um virtuoso desenhador de estilo “Pop Art” ou seja, com tudo limpinho, bonitinho, em ordem…

Não sei o que aconteceu em 2004 mas é nesse ano que Marco junta-se a Miguel Carneiro e outros artistas para criarem o colectivo Os Gajos da Mula (no Porto) e desatam a editar zines com títulos escabrosos como Paint Suck’s!, Lamb-Heart (onde são publicados fantásticos desenhos de Marco quando era puto!), Hum, Hum! Estou a ver!..., Estou careca e a minha cadela vai morrer e Cospe Aqui. Mais recentemente faz com Janus o zine O projecto de fecundar a lua e com a sua companheira Lígia Paz o Carlitos.

As bd’s que publica em todos estes títulos parecem “inacabadas” – ou seja, estão “ainda” a lápis, não foram passadas a “limpo” (ou a preto), algumas pranchas até tem algum ensaio de cor. A perícia técnica “naturalista” a que a maior parte da bd está associada está lá mas parece que estamos antes a ver esboços do que um “produto final” até porque os textos estão cheios de palavras riscadas ou saem dos limites dos balões ou das caixas. A urgência de puxar a realidade para uma folha de papel ultrapassa os formalismos e convenções de escrita e do desenho que habitualmente estamos habituados a ver/ler na bd. O que é necessário é colocar o amigo Janus, por exemplo, entre outras pessoas reais a falarem banalidades - e de preferência embriagados.

Marco vive uma altura fantástica no que diz ao mundo da bd – aliás, é a BD que vive uma altura fantástica de expansão no mundo infiltrando-se tanto na galeria de arte (por acaso Marco é representado por uma) tanto como na livraria generalista tal é a riqueza de propostas que tem oferecido nas últimas décadas. Uma das razões desta riqueza deve-se também aos desenvolvimentos tecnológicos da impressão que permitem reproduzir as tais “bd’s inacabadas” com uma qualidade impensável para quem se via à rasca (por exemplo) com a fotocopiadora dos anos 80. Marco tal como muitos autores a nível mundial - da Anke Feuchtenberger aos Elvis Studio, da Amanda Vähämäki ao Brian Chippendale - podem imprimir as bd’s “urgentes” em formatos baratos, como um zine fotocopiado, sem ter de passar pelos processos de desenhar o lápis e depois a tinta onde se costuma perder a espontaneidade do primeiro registo.

Desde os anos 60 que se tem quebrado a lógica da divisão de tarefas na bd – vindo do “fordismo” dos “comics” desde anos 30. Robert Crumb e Moebius cada um do lado do Atlântico e à sua maneira trouxeram a “escrita automática” e o “cadáver-esquisito” para a bd. Harvey Pekar trouxe a autobiografia tão ou mais importante que as “freakalhices” dos outros dois monstruosos autores. Finalmente na bd podíamos TER realidade… um registo do que é o mundo em bd – algo impossível de ter com as distorções caricaturais ou escapistas que a bd estava associada.

Em Portugal existe “bd de autor” desde 1975 com a revista Visão mas são poucos as obras que digam o que “é Portugal” na bd. Na Visão apareceram alguns contos sobre o Ultramar, aqui e ali pode-se encontrar algumas aproximações biográficas (mais “realistas”? mais “intimistas”?) da sociedade portuguesa pós-25 de Abril - Relvas, Luís Félix, Diniz Conefrey, Ana Cortesão, Janus e até Arlindo Fagundes poderão estar nesta mini-lista que tem origens em Raphael Bordalo Pinheiro e ruptura em Carlos Botelho.

Daqui umas décadas os Historiadores ainda irão pensar que a bd é um produto infantil porque terão dificuldades em encontrar obras que lhes digam o que raios os portugueses sentiam, faziam ou que paisagem lhes rodeava desde 1950 (ano que Botelho deixa de fazer os “Ecos da Semana”), no máximo poderão saber que havia boémia e uma cena artística no Porto ou empregos miseráveis em Portugal!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2008 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2008)

Só se fala em crise neste nosso país mas parece que a máxima “em tempos de crise é que aparece a criatividade” acaba por ser verdade. Não que tenham aparecido muitas inovações, como aconteceu nos anos 90 e princípios de milénio mas pelo menos no mundo da edição independente – seja fanzine, zines, livros de autor – tem havido massa crítica o suficiente nem que seja para escrever um texto como este.

 

Muitas páginas, apesar da crise…

Desde já, é de constatar que continuaram a ser publicados os seguintes fanzines e zines: o Boletim CPBD, Facada de Tiago Baptista, [R]eject de Andreia Rechena, Tertúlia BDzine e Efeméride ambos editados por Geraldes Lino. Regressou o Gambuzine de Teresa Câmara Pestana, agora como uma nova numeração / nova série. A Joana Figueiredo lançou mais um zine com um título marado – desta vez é o Post Shit que fez tanto sucesso no Crack (Roma) e no Festival de Helsínquia que acho que não deve ter chegado a ser divulgado em Portugal… - e Os Gajos da Mula lançaram Fantôme Galicia. O autor algarvio Phermad lançou a colectânea De trute ise aute der que compila bd’s publicadas no seu antigo projecto, o zine Terminal.

Novinhos em folha foram Znok de Filipe Duarte e Faixa 9, um zine dedicado a «ambiências musicais em BD». E apareceu o um novo colectivo gráfico, o Hülülülü, que lançou cinco títulos em poucos meses de actividade – nada mal uma vez que o ano passado queixava-me que não havia uma nova geração de autores.

Em formato mais profissional saiu o número dois do Alçapão – fanzine de arquitectura dura que incluiu uma bd de João Sequeira e muita (boa) ilustração; Le Sketch, projecto de Paulo Patrício; os Opuntias Books materializaram-se em três novos títulos com aspecto luxuoso e muito apelativo; a Kingpin lançou os terceiros volumes das suas séries; a Imprensa Canalha editou mais uns graphzines e a antologia Cabeça de Ferro; a Chili Com Carne lançou um volume de Mercantologia, colecção dedicada a recuperar material dos zines, intitulado Noitadas, Deprês e Bubas que reedita bd’s antigas do Mesinha de Cabeceira. A Bedeteca de Beja continuou o Venham+5 (num formato de antologia na linha da revista Quadrado ou do Mutate & Survive) e a colecção Toupeira com uma bd de Susa Monteiro.

Novidades: saiu um livro intitulado Murmúrios das Profundezas que apesar de ter resultados muito pobres a todos níveis (o texto, as adaptações, os desenhos e técnica das bd’s e o design) é interessante porque é um projecto sinergético e colectivo para um país cheio de individualistas. Copiando o “template” que foi o Virgin’s Trip (El Pep; 2006), reúne autores envolta de um tema comum, neste caso estórias do H.P. Lovecraft que são adaptadas para bd. O esforço de fazer um livro “grande” é assim partilhado e sendo colectivo tem mais hipóteses de chegar a mais público também. Creio que podia ser um bom modelo para que a haja mais edição em Portugal… Apareceu uma nova editora, a Plana Press que lançou dois títulos: Pandora Complexa 500 de Julio Dolbeth e Rui Vitorino Santos (de ilustração) e Tomorrow the Chinese Will Deliver the Pandas de Marco Mendes (de bd). E a Associação Cinema Ao Norte iniciou uma nova colecção de bd, O filme da minha vida, onde já saíram dois títulos, um de André Lemos e outro de Daniel Lima. O Serrote estreou-se na edição de livros de ilustração com Minho e Nouveau Dictionnaire de Français, ambos de Nuno Neves.

De referir também o livro Os Frescos da Aldeia das Amoreiras editado pelo Centro de Convergência / GAIA, que documenta uma experiência de bd na forma de pintura mural numa aldeia alentejana.

 

De um lado para o outro

 A Aldeia Global continua em alta, especialmente necessária para abrir as cabeças periféricas portuguesas a novas ideias, experiências, contactos e projectos.

Passaram por Lisboa no âmbito da exposição Honey Talks o autor Jakob Klemencic (publicado em Portugal pela Polvo e Chili Com Carne e na Quadrado) e o editor David Krancan, ambos da revista eslovena Stripburger; o colectivo brasileiro do zine Bongolê Bongoró esteve no evento Brucutumia 2008; o francês Guillaume Soutlages esteve durante a Feira Laica na Bedeteca de Lisboa; a sueca Kriistina Kohlemainen (organizadora da SPX de Estocolmo) foi convidada para os colóquios Banda Desenhada e Bibliotecas, e o polémico autor norte-americano Mike Diana esteve no Furacão Mitra. Ainda de referir as autoras finlandesas Anna Kaisa Laine e Tiitu Takalo que acidentalmente caíram (de pára-quedas?) na Feira de Fanzines de Almada e Feira Laica de Coimbra.

Mas também houve o inverso, portugueses a visitarem eventos internacionais como representantes da Chili Com Carne que foram ao Festival de Angoulême (França), SPX (Suécia), Crack (Itália), Festival de Helsínquia – também a Chili Com Carne foi representada no Boom Fest, em S. Petersburgo. Filipe Abranches esteve nas Xornadas de BD de Ourense e os Gajos da Mula foram ao Proxecto Edición em Pontevedra (Galiza).

A nível de publicação, alguns autores portugueses participaram em publicações estrangeiras como Filipe Abranches na Stripburger e Splot (Polónia), uma série de autores no habitual zine suíço Milk+Wodka, Teresa Câmara Pestana no zine feminino e finlandês Irtoparta, Richard Câmara no zine espanhol ARGH!, o autor destas linhas no «jornal ilustrado com um mês de atraso» Aooleu (Roménia), e como sempre André Lemos é o autor mais internacional que colaborou nos seguintes zines (espero ter apanhado todos!): La Commissure (França), Zine Arcade (Inglaterra), Lazer Artzine (Bélgica) e Elk (EUA).

 

 Ao metro quadrado

 A questão de espaços e eventos tem sido cada vez mais notável e importante na cena independente uma vez que ao acesso de edições “indies” estarem vedadas ou ignoradas pelo mercado livreiro e até das ditas “lojas especializadas”.

Foi um ano em que em Lisboa fecharam a loja de Design Goma 386 e a galeria Work&Shop, sítios que comercializavam produções independentes e organizavam exposições de ilustração e bd. Em compensação, as lojas Central Comics, Kinpin Books e Mundo Fantasma reformularam os seus espaços dando uma maior dinâmica à produção nacional, e no Porto abriram a Dama Aflita e a Inc., a primeira é uma galeria dedicada à ilustração e a segunda uma livraria de edições de autor.

Talvez pela falta de estabilidade dos espaços comerciais portugueses é que se tem solidificado cada vez mais eventos “indies” em volta da edição, cada vez mais com uma programação ousada. Este ano houve três edições da Feira Laica, as segundas edições da MAGA nas Caldas da Rainha e do Bunny Weekend em Lagos – e o celebrado Furacão Mitra. Foi o ano de uma Feira de Fanzines de Almada que mais valia não regressar já que a organização actual do evento é incapaz de envolver a comunidade fanzinista na sua programação.

Desapaixonado este texto? Sim, sem dúvida… As edições relatadas também o são? Nada disso, não me permitindo fazer muitos juízos de qualidade – por várias razões, entre elas porque estes relatos não o permitem e por outro fazendo eu próprio parte da “cena”… Que giro! É que existe mesmo uma “cena”! – mas dizia, não me permitindo a fazer esses juízos, só há algo a fazer, é procurar estes títulos, estas editoras e julgar por si mesmo.

Como tudo na vida encontrará coisas que não serão do total agrado, outras pelo contrário serão revelações mas só nesta “cena” é que poderão desfrutar prazeres narrativos e estéticos porque de resto, na sua livraria predilecta a bd deixou de existir – não sei que dirá o Daniel Maia este ano nas “Edições” – tal como acontecia até aparecer a Bedeteca de Lisboa em 1996. Resumindo, nas livrarias não acontece nada… se existe algo é no mundo dos fanzines!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2007 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2007)

Uma análise ao ano de 2007 sem pessimismo não seria uma análise a 2007. A Ficção Científica do século XX sempre gostou de cenários desastrosos para além do Milénio. No que diz à bd portuguesa nem o escritor de FC mais hardcore poderia prever tal descalabro – pior que não se editar obras estrangeiras de interesse, pior que o desaparecimento da bd popular, pior que não haver apoios institucionais, é saber que quase não se encontra interesse pela bd nos jovens. E é por isso que no meio independente, o cenário não é muito animador porque pura e simplesmente quase não há “sangue novo” nem uma “nova geração”. O pessimismo dos subtítulos acusa para esse sentido.

 

They came from… nowhere!?

Antes de mais, 2007 foi caracterizado pela visita a Portugal de uma série de editores independentes da Europa como Roman Maeder (do zine suíço Milk+Wodka) e Alberto Corradi (da editora italiana Black Velvet) durante duas Feira Laica, Max (premiado autor e editor da extinta Nosotros Somos los Muertos) e Kike Benloch (do colectivo editorial galego Polaqia) durante o Festival de BD de Beja, Ilan Manouach (autor e editor grego), Fábio Zimbres (autor e editor da inesquecível revista brasileira Animal) e os Requins Marteaux (editora francesa) durante a BD Amadora, e ainda no fechar do ano os editores do zine espanhol de arte contemporânea La Más Bela estiveram na Galeria ZDB. Esta tendência parece que não irá morrer tão cedo, afinal “dois Stripburgers” já visitaram a exposição Honey Talks na Bedeteca de Lisboa em Janeiro de 2008. O mundo está mais pequeno ou as viagens de avião são mais baratas?

Não estando errada a segunda sugestão, a resposta mais romântica será um “mundo mais pequeno”, até porque a julgar pelo contínuo crescente número de participações de portugueses em projectos como Milk+Wodka, Barsowia (da Polaqia), Glömp, Kuti (ambos da Finlândia), Golden Age (Grécia), Bongolê Bongoró (Brasil) e no catálogo do festival Komikazen (Itália). Entre Filipe Abranches, Pepedelrey, Paulo Monteiro ou Teresa Câmara Pestana, aquele que mais participou em projectos internacionais foi, sem sombras de dúvida, André Lemos.

 

Zines are dead!

Parece que a fotocópia já pouco é usada para editar material gráfico, seja para bd ou para ilustração – muito provavelmente porque as novas gerações não querem saber da bd para nada ou andam perdidos na ‘net. E ao que parece, as confusões sobre o que é um fanzine e afins continuam. O caso mais bizarro deste ano foi a Bedeteca de Beja ter aceite o Prémio de Melhor Fanzine do Festival de BD da Amadora para o título Venham +5. O Venham +5 é uma publicação de uma instituição pública (ligada à Câmara Municipal de Beja) - de “fanzine” ou de “zine” parece que tem pouco por definição mas considerando o deserto editorial e sobretudo o típico deserto de ideias do Festival da Amadora que se reflecte no sistema de atribuição dos prémios, não é de admirar que isto aconteça.

Começando pelos projectos de teor profissional (a avaliação é feita pela impressão e tiragem) continuaram projectos como os comics da loja Kingpin of Comics, os livros da Pedranocharco (incluindo o BDjornal) ou os desdobráveis Le Sketch (editados por Paulo Patrício). A Má Criação prometeu o Área de Segurança: Gorazde de Joe Sacco mas até agora não se sabe de nada dessa bênção, digo, edição. A MMMNNNRRRG continuou a sua existência “bruta” com um livro: Já não há maçãs no Paraíso de Max Tilmann. Por sua vez a Imprensa Canalha iniciou-se no formato livro com Babinski de José Feitor e Luís Henriques. Curiosamente muitas destas edições tiveram boas críticas (no caso de Tilmann foi considerado um dos 20 melhores livros pela revista comercial literária Os meus livros) e vendas bastante interessantes para “pequeninos” – num saco editorial vazio é interessante que quem o encha sejam os que sempre foram marginalizados tradicionalmente pelas livrarias e imprensa (especializada ou não).

Passando para os zines, a Imprensa Canalha lançou mais um título, Animais de José Feitor, e o projecto Opuntia Books de André Lemos mais quatro – dois de Lemos, outros dois de autores estrangeiros, a saber, Sylvain Gerand (também editor do premiado zine L’Horreur est Humain) e Mehdi Hercberg. O Ups! saiu mais uma vez com banda sonora incluída no espaço virtual: myspace.com/zineups. Marco Mendes editou em parceria Projecto de fecundar a lua com Janus e Carlitos com Lígia Paz. Tiago Baptista lançou vários títulos que até suspeito que não apanhei todos: Facada, Bolso e Cleópatra. Continuaram O hábito faz o Monstro (de Lucas Almeida) e Shock (de Estrompa) e iniciou-se o Fantástico, Michael - um colectivo de Oeiras.

Indo para os “Fanzines”: continuaram o Efeméride (dedicado ao Príncipe Valente com pastiches de vários autores) e Tertúlia BD’zine (fanzine da Tertúlia de BD) ambos de Geraldes Lino, Fandaventuras (reedição de clássicos) de José Pires e o Boletim CPBD (reedição de clássicos e alguns ensaios) do Clube Português de BD. Inesperado foi o décimo número de Eros que Geraldes Lino lançou para comemorar o nascimento do projecto há 20 anos apesar de não publicar o zine desde 1991!!! Sim, o fanzine dedica-se à edição de bd erótica com colaborações de vários autores e o chato ainda é a masturbação, digo, discussão do que é erótico e o que é pornográfico passados 20 anos!

Uma surpresa de 2007 foi o ataque feminino nos formatos “indies” como o livro Postais de Viagem de Teresa Câmara Pestana (editora do Gambuzine) e os inícios de Joana do Paço com o zine Os músculos não têm para onde ir e Andreia Rechena com o zine [R]eject (que já prepara o segundo número para 2008). A Piggy regressou com o Enfraskado, um zine dentro de um frasco – saudades do Succedâneo? Estas edições estão longe da condescendência de projectos como All*girlzine, lançado em 2006 e com continuidade lenta!

 

Nobody can hear you scream in deep space

2007 foi o ano de celebração oficial dos 10 anos da Associação Chili Com Carne em que a questão colocada pela própria entidade ficará sempre por responder: «(…) ainda hoje parece-nos inacreditável que uma estrutura como a Associação Chili Com Carne, não só tenha sobrevivido 10 anos, como seja única num Portugal que se rege por 14 distritos - não deveriam haver pelo menos 14 "chilis" no país?»  Para uma associação que já provou o seu “profissionalismo”, curiosamente, este ano só editaram um zine em fotocópias para comemorar o aniversário e que foi oferecido como “bilhete” numa festa com concertos Rock e Electrónico. Ainda remodelaram o site entre outras iniciativas que se prolongam até 21 de Abril de 2008 – esperemos que a bd faça parte dos planos.

E se qualquer editor independente já está habituado a escrever, desenhar, editar, promover e comercializar o seu trabalho – a independência obriga a todas estas e outras mil tarefas – só faltava ter de criar o seu próprio espaço comercial. Coisa que a Chili Com Carne conseguiu com a galeria Work’n’Shop e a editora de música electrónica Thisco. A loja Book’n’Shop dedica-se à cultura alternativa sendo que se pode encontrar lá fanzines, zines, edições de autor, edições limitadas, estrangeiras e nacionais num claro acto de desafio a uma cultura oficial cada vez mais competitiva, espectacular e em decadente espiral.

Claramente, que no meio alternativo procura-se conquistar espaços de trabalho e comercialização uma vez que os sítios oficiais parecem cada vez mais fechados a novas ideias. Talvez por isso que em 2007 assistiu-se a quatro eventos da Feira Laica: em Oeiras, no Seixal, na Bedeteca de Lisboa (como de habitual desde 2005) e uma no Natal desta vez no Porto. E ainda houve exposições, ressacas das actividades da Laica no Espaço (2006), na Velha-a-Branca (Braga) e na loja de música Carbono. Em Faro apareceu o Festival P/Artes, ainda em formato experimental mas com um modelo de interesse que inclui lançamento de zines, workshops, exposições, exibição de filmes e concertos.

 

Famous lust words

Como a cena zinista está a morrer já começam a ser publicadas as primeiras linhas de análise e investigação sobre o assunto – piada de mau gosto?

Aconteceu logo no principio do ano com o livro Unpopular culture : transforming the European comic book in the 1990’s do académico canadiano Bart Beaty que analisa a “movida europeia” não faltando referências à Bedeteca de Lisboa ou ao Salão Lisboa mas também às “pérolas” da cena independente como foi o Mr. Burroughs (Círculo de Abuso; 2000) de David Soares e Pedro Nora. Seguiu-se o catálogo Salão Olímpico 2003/06 de José Maia que apanhou uma outra “movida”, ou seja, o movimento artístico do Porto em que os fanzines e a bd têm bastante “tempo de antena” neste grosso volume. Há referências à A Mosca, alíngua/ Satélite Internacional, Janus, A Mula, Senhorio embora de forma bastante fragmentada e incompleta. Por fim, uma pequena provocação no jornal Cascais Submerso, ou pelo menos um primeiro levantar de nomes da cena zinista e bedéfila em Cascais, feito por este vosso escriba.

E claro, aquele que ainda teve maior impacto mediático, o programa Ver BD de Pedro Moura que passou na RTP2 durante o Verão – que dedicou um dos cinco episódios à edição – com zines incluídos.

 

Funerais assim até que são divertidos! Zines: RIP (rust in punk).

sábado, 5 de maio de 2007

"Max - Alumbrado de Palma de Maiorca" in Splaft! #3 (Bedeteca de Beja; 2007)

Max, pseudónimo de Francesc Capdevila (Barcelona, 1956) é um dos autores de bd espanhóis (catalão! catalão!) com uma carreira irregular - não pela qualidade mas pela quantidade – e que se confunde com a história moderna da bd espanhola: da "la movida" dos zines (El Rollo Enmascarado) nos anos 70 à criação da mítica revista El Vibora, das tentativas de conquista do mercado tecnocrata franco-belga nos anos 80 (El carnaval de los ciervos de 1984) até às excitantes alternativas dos anos 90 com a revista Nosotros Somos Los Muertos (1995-2007) co-editada com o seu amigo Pere Joan e ainda com o livro El prolongado Sueño del Sr.T (1998). Não será à toa que é dos poucos autores de bd no mundo que tem uma colecção dedicada a toda sua produção (Todo Max pela La Cúpula). Recentemente foi alvo de mais edições retrospectivas, uma dedicada ao trabalho de ilustração, o monstruoso Espiasueños (La Cúpula; 2003) e outra, Bardín, el surrealista (La Cúpula; 2006), que reúne as desventuras meta-parabólicas de Bardín, personagem a que se têm dedicado nos últimos anos.

Em tempos de pouco espiritualidade ou de uma espiritualidade deturpada dos livros bestsellers (Paulo Coelhos, Códigos Da Vinci's e outras parvoíces), Bardín (a série não o personagem) é o antídoto à barbárie intelectual desta Nova Era das Trevas em que vivemos. Max não perde tempo para gozar com as conspirações à pressão, o Orientalismo de meia-tigela e o Surrealismo para o povão – “Relógios moles, montanhas de queijo! Ha ha ha ha!!” ri-se o "Cão Andaluz" do talento que roubou a Dali, enquanto oferece a Bardín (personagem) poderes iluministas. Mas Bardin, filho do materialismo ocidental freudiano mais comum continuará a ser um pobre diabo no jogo ilusório da vida. Se o mundo não fosse feito de camadas de mentiras quer Peter Pank (série de 1985 a 1990 que era uma paródia mucho hardcore desmistificadora da juventude eterna) quer Bardin não teriam sido criados por Max – nem faria sentido a sua participação no livro colectivo Lanza en Astillero (Castilla-La Mancha; 2005) para comemorar o IV Centenário do alucinado “Dom Quixote de la Mancha”. Com Bardin, creio que Max recuperou a sua joie de vivre depois de um período negativo desiludido com a bd – eu diria mesmo que agora se encontra num perfeito equilíbrio Yin / Yang ou com os Chakras (é assim que se escreve?) nos sítios certos mas do que sei eu realmente disso?

Relembro que algumas das histórias de Bardín foram lidas na revista Quadrado da Bedeteca de Lisboa, aliás, esta é a única publicação em que poderemos encontrar trabalhos de Max em português, apesar das várias passagens do autor nos nossos principais festivais de bd - Porto, Amadora, Lisboa e agora, Beja. Minto, também poderão encontrar um ou dois livros ilustrados para a infância mas se não mentisse também vos impressionaria menos.