Apontamentos da autoria de Marcos Farrajota para uma tentativa de escrever a História da Banda Desenhada em oposição à "História Oficial" que nos obriga a gramar com episódios inócuos e comerciais: super-heróis, idades do ouro e afins, tintins e spirous, etc...
terça-feira, 30 de junho de 2015
Punk Comix: Os “flirts” entre a BD e o Punk em Portugal
Bibliografia e anexo 1 de Punk Comix
domingo, 12 de outubro de 2014
comix remix extra
Outro caso deste espírito dos tempos do Comix Remix, foi o lançamento do livro Le Carnet Rouge (Soleil; 2007) do dinamarquês Teddy Kristiansen para o mercado norte-americano. O livro sofreu o milagre da duplicação e ficou um "split-álbum": The Red Diary / The Re[a]d Diary (Image; 2012). O que aconteceu é que Steven T. Seagle (argumentista ianque que colabora com Kristiansen nos super-heróis) não sabendo um pingo de francês ou dinamarquês "traduziu" o livro criando um texto novo para as mesmas imagens - aliás, ele usou a sua técnica de "transliteration", que é "traduzir" palavras de uma língua para o inglês mas pelo o que ela "soa" ou se "parece". O resultado é um texto - uma história - completamente diferente do Le Carnet Rouge. Ambos os contos não são nada de especial, algo de "light" como é típico nos "álbuns franco-belgas", em que a mediocridade de temas são disfarçados pela "bela" arte, que todos reconhecerão Kristiansen como tal, com o seu estilo "impressionista" - talvez por iso é que tem no currículo o facto de ter sido o primeiro europeu a desenhar o Super-Homem. Mas depois de ler a sensação é que não muito a não ser "belos" desenhos. Curiosamente, o texto de Seagle parece ser mais concreto e interessante que o "original"... Foi o Joseph Beuys que disse que a "cópia é melhor que o original"?
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2010 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2010)
Talvez já tenha mostrado o optimismo no blogue da Chili Com
Com a decadência das grandes estruturas comerciais e institucionais são os “pequenos” que suportam e criam novas estruturas. Este ano faço questão até de fazer uma listagem em vertical para mostrar a força da coisa.
Lista a) Começamos pelo básico! Continuaram a editar:
- Reject’zine (de
- Opuntia Books
- Imprensa Canalha
- Gambuzine
- MMMNNNRRRG
- Associação Chili Com Carne
- El Pep
- Zona BD
- Le Sketch
- Plana
Press
- Boletim CPBD
- Kingpin Books
- É Fartar Vilanagem! (de Alexandre Esgaio)
- autora Jucifer (Techno Allah)
- Pedranocharco
- Venham +5
- Filme da minha vida
- autor Rudolfo (vários títulos)
- Tertúlia BD’zine
- Cleópatra (De Tiago Baptista)
- Znok (de Filipe Duarte)
Lista b) Regressaram:
- Polvo
- Kzine
Lista c) Agora sim, o importante (já explico). Apareceram novos projectos:
- Yoshi, o puto dragão (edição de autor e reedição profissional pela Raging Planet)
- Apupópapa
- Soft Porn
Coloring Book
- B74
- Thou the Latrina spoken
- Sou daquelas (de Sílvia Rodrigues)
- Fígado da República (de José Smith)
- dois zines de David Campos
- dois zines de João Ortega
- Intro Espectro (de Tiago Araújo)
A Lista a) mostra uma continuidade de trabalho que insinua
uma “profissionalização” dos projectos como é o caso da MMMNNNRRRG, El Pep,
Zona BD,
No meio da lista a biblio-biodiversidade domina em objectos
e objectivos: do carácter mais coleccionista do Boletim CPBD ao lúdico Le
Sketch, do fetichismo dos Opuntias Books à necessidade de exteriorização
artística de
Duas notas para a lista b) a
Como repararam a Lista c) além de aplicar novidades em termos de conteúdo também mostra pujança em quantidade, isto se comparamos em relação com os últimos anos – a queixa mais bem registada está no Dossiê de 2007.
Durante os últimos anos, os zines em papel desapareceram
gradualmente – ou melhor perderam a força ou foram substituídos pela febre
“graphzine”. Em 2010 num “zeitgeist” qualquer apareceram não só novos títulos e
novos autores, em que modéstia à parte, deve-se juntar o esforço da antologia Destruição (Chili Com
Talvez até tenha acontecido isso mas estão aqui as novas raízes que esperamos ver florescer em 2011 e para a frente. Quem sabe talvez do panorama desolador dos últimos anos venha a dar frutos como aconteceu há 20 anos atrás quando só havia Meribérica-Liber, Jim Del Monaco e o Clube Português de BD.
Internacional:
+ do mesmo, isto é a Aldeia Global já é uma Cidade em que
não estranha os estrangeiros que entram nos seus terrenos… Miguel
Mais autores estrangeiros das veias alternativas que visitaram Portugal: o esloveno Jakob Klemencic no Festival de BD de Beja com o projecto europeu Greetings from Cartoonia, o croata Igor Hofbauer para duas exposições de sucesso em Lisboa e Beja, o texano Nevada Hill para a Feira Laica de Verão, e o sueco Mattias Elftorp, o francês Albert Foolmoon e o espanhol Martin Lopez Lam na Feira Laica de Natal. E claro, ainda tivemos um ícone da bd alternativa, a Dame Darcy que passou por Beja e por várias datas nortenhas.
“Profissional”
Apareceram duas novas associações, a Oficina do Cego dedicada à arte de bem imprimir – tendo já lançado dois números do jornal homónimo – e a Tentáculo que se dedica à publicação da antologia Zona BD. São obviamente associações sem fins lucrativos mas que dão um cunho mais profissional e de continuidade a projectos de edição. São mesmo bem-vindas!
A MMMNNNRRRG comemorou 10 anos, uma longevidade a respeitar
para o tipo de material que edita e pelo ódio que lhe é alvo pelos agentes da
“cena”. Talvez por isso tenha ido para o Porto lançar o Pénis Assassino,
trabalho
A Chili Com
Exposições
Em compensação, apesar da filosofia “easy come, easy go” que
afecta as galerias / lojas / espaços lisboetas, as exposições O Último
Fósforo (colectiva internacional vinda da Estónia), Mike Diana (recriação da
exposição de 2008) e Igor Hofbauer (cartazes) na Artside estiveram cheias. A
galeria de artes urbanas já fechou entretanto… Ao contrário das galerias
portuenses Dama Aflita (ilustração) e
Extras
Na falta de espaços para divulgação da edição independente,
a Associação Chili com
Nem tudo o que vem da ‘net é mau – pelo menos ao que diz respeito à bd – como se provou este ano quando Simples Alquimia entrou em linha em http://spiraltap.net/simplesalquimia, aplicando as teorias que apresentou em Reinventing Comics (2000) sobre a expansão da forma narrativa da bd pelo espaço infinito das páginas Web. Demorou 10 anos até alguém fazer a coisa com o deve ser. Parabéns ao Diogo Barros.
É caso para escrever com orgulho e expectativa o clássico “(continua…)”.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2009 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2009)
Foi um ano bastante emocionante no que diz respeito aos zine e a edição independente, em geral - pelo menos para este vosso relator. Mesmo que algumas estórias tenham acabado mal, outras talvez sejam o início de algo maior a acontecer no futuro. No geral, a característica comum é a internacionalização...
Foi um ano tão emocionante que fiquei desgastado e escrevi o texto menos inspirado de sempre.
«Vai!»
---
Cá dentro (mas cada vez mais para fora)
Continuaram em actividade os fanzines Boletim CPBD, Tertúlia BD zine, os zines Mesinha de Cabeceira, Shock e Znok bem como
os da autora Jucifer, o desdobrável gratuito de esboços Le Sketch (na
essência com autores norte-americanos), as colecções O filme da minha vida (da Associação Ao Norte) e Toupeira e a revista Venham +
Lançou-se o É fartar Vilanagem! (2 números) por Alexandre Esgaio, Jungle Comics (do Rudolfo da Silva), a antologia Zona BD (2 volumes) e Troubadour Comics (de Afonso Ferreira) e ainda saiu um zine de bd no vinil punk Raridades, vol.1 (Zerowork). Parece que em Guimarães, devido à licenciatura de BD, também saíram zines de bd mas como é seu apanágio, nada saiu para fora da sua rede. Devem ser a lógica do “consumo interno” como acontecia com os zines das Caldas da Rainha nos anos 90. Pergunto-me se as pessoas sabem mesmo o que é um zine? Se pensam que é apenas um amontoado de fotocópias que não difere muito do mítico trabalho na gaveta ou se sabem que é uma forma de comunicação? Deverei preocupar-me com isso? Não me parece... Se algo de bombástico tivesse a acontecer alguma coisa sairia "cá para fora” – como aconteceu inevitavelmente com os zines das Caldas.
Houve as habituais Feiras Laicas - de Verão nos jardins da Bedeteca de Lisboa e no Natal desta vez no Braço de Prata -, Mercado Negro (Porto), Bunny Weekend (Lagos) e A Mula Ruge (Porto). De realçar também o festival Vírus (Leiria) que inclui uma feira de zines e edição independente no restaurante / bar Cinema Paraíso. A exposição (entretanto itinerante) åbroïderij! HA! - International Graphic Arts visitou a Casa da Animação, Biblioteca de Abrantes e o Festival Outfest (Barreiro).
A nível de documentos sobre edição independente, no Almanaque do Festival de BD da Amadora são reconhecidos os esforços da cena independente como o Mutate & Survive (2001), Zalão de Danda Besenhada (2000), El Pep, Gajos da Mula, embora pese alguma confusão em assinalar projectos como o fanzine Zundap e Opuntia Books, uma vez que não são exclusivamente de bd mas «podia ser pior…»
-- Lá fora (mas cada vez mais cá dentro)
Continuam a ser publicados autores portugueses em edições estrangeiras: Ana Cortesão na revista universitária Splot (Polónia), Jorge Coelho e Pepedelrey na antologia The Passenger (Itália), André Lemos e um texto sobre bd portuguesa no jornal Kuti (Finlândia), Filipe Abranches na antologia Greetings from Cartoonia editada pela revista Stripburger (Eslovénia) e creio que as habituais participações no zine suíço Milk + Wodka.
Os convites para fora intensificaram-se: André Lemos e Pedro
Moura estiveram em Charloteville (EUA) com a exposição Divide et Impera,
Jucifer foi à SPX de Estocolmo, Filipe Abranches foi a Ljubjana por causa do Greetings from Cartoonia,
De realçar em relação ao Crack que a Chili com Carne cuidou da edição da antologia do evento, intitulada Crack On com trabalhos de autores portugueses, italianos, suecos, franceses e dos Balcãs. E essa não foi a única participação internacional no plano da colaboração editorial, junta-se o projecto Greetings from Cartoonia com a Chili Com Carne a ser a parceira oficial do projecto para representar Portugal – havendo ainda colectivos da Roménia, Polónia, Itália, Noruega e Finlândia ao barulho. E ainda a co-impressão de Caminhando Com Samuel de Tommi Musturi, com a MMMNNNRRRG a participar neste livro com outros editores independentes da Finlândia, Suécia e Bélgica. Neste último caso, dividindo custos de impressão por quatro partes, baixou os custos de produção de um livro luxuoso (capa dura, a quatro cores, 140 páginas) - é uma pista para o futuro, mostrando que não deve ser só as grandes Vitamina BD e Asa a serem as únicas a trabalhar desta forma.
Por fim, neste capítulo, veio também para a Bedeteca de Lisboa a exposição do livro/ antologia finlandesa GlömpX que explora a tridimensionalidade da bd, uma exposição ousada tal como a antologia. A exposição esteve patente durante a Feira Laica, tendo visitado três autores finlandeses participantes – e não esquecendo, a participação também na Laica, do colectivo Stripburger com dois autores a apresentar o jogo-bd Stripble, também mostrado na Mula Ruge.
-No meio (?)
A necessidade de espaços físicos para escoar a criação e
produção (nacional e estrangeira!) foi um placebo este ano, começou com um
“bang” e acabou num “puf”. Houve excepções como a abertura da Casa Ruim (
Sendo um dos sócios e o programador da minúscula sala de exposições, destacava algumas exposições ligadas a este tema: a do suíço Nicolas Robel (que dirige a editora B.u.l.b. Comix), Luís Henriques que tinha o livro de autor Time Life Life Time lançou pela Opuntia Books e ainda uma comemoração do zine Shock que mostrou trabalhos de Estrompa e José Lopes. No espaço havia também uma componente de loja de cultura alternativa – incluindo bd e ilustração ou edições alternativas – que sustentava a maior parte de espaço, e devo desvendar o facto do espaço ter fechado não foi por problemas financeiros ou comerciais mas apenas por desentendimento com um dos sócios, o que impossibilitava a “part-time” sustentar uma estrutura deste tipo. E nesse aspecto, não há problema nenhum, uma vez que não nutro simpatia pelo adágio “o segredo é a alma do negócio”, em revelar que gerir um espaço “só com material alternativo” não é um suicídio comercial! A verdade é que na loja vendeu-se de tudo: zines de um mero euro, livros da Imprensa Canalha ou da Canicola de preços “normais” (entre os 10 aos 20 eur), edições luxuosas do Le Dernier Cri ou o último número da antologia Kramer’s Ergot (cujo preço era de 125€!).
A verdade da fórmula é simples e já vinha encriptada na pretensiosa apresentação da inauguração do espaço: «É sempre com um orgulho que os lisboetas ouvem os estrangeiros falarem da sua cidade. E adoram ouvir o cliché da Luz da Cidade. Mas os lisboetas esquecem-se que a Luz que os estrangeiros falam não é Luciferiana, é apenas aquela cujos raios solares oxidam a matéria até à sua obliteração. Lisboa de Iluminada nada têm, é medieval sobre vários prismas. (…) era constrangedor explicar aos tais estrangeiros porque é que nesta capital europeia não havia um espaço dedicado às margens sonoras e gráficas.»
Não havendo espaços que tenham publicações alternativas nessa “grande cidade europeia e capital de Portugal”, existe uma clara necessidade de um espaço assim – na comemoração da mais pura e dura Lei da Oferta e da Procura! Seja para os “locais” e os “nacionais” seja para esses tais estrangeiros sedentos de levar edições deste canto europeu que tanto gostaram de visitar. E aproveito para fazer um parêntesis em relação aos últimos, um turista em Lisboa não encontra publicações de bd portuguesa em lado nenhum, seja nas cadeias de lojas (Fnac, Bertrand, etc…) ou no mercado livreiro porque há muito que não tem as edições dos tempos áureos da bd (Bedeteca de Lisboa, Polvo, etc…) como não se tem editado quase nenhuma bd portuguesa nos últimos anos em casa editoriais com distribuição profissional. Não sendo aqui a secção do Dossiê para uma discussão sobre mercado de bd – deixo isso para as “Edições” – serviu esta advertência só para explicar este ponto de vista “turístico”. E já agora, mais outra “boca-parêntesis”, desta feita para as lojas especializadas que também ignoram a produção portuguesa (com honrosas excepções!).
A fórmula? Bom… seria uma equação simples de 5 variáveis: espaço bem localizado, sócios sérios, boa promoção, programação dinâmica e envolvência com a comunidade. Utopia? É bem provável não se conseguir as cinco variáveis mas pela experiência bastaria três destas condições perfeitas para um projecto deste tipo poder avançar, evoluir e vencer. Até o Obama diria “yes we can-can”.
sábado, 30 de maio de 2009
"Porque Portugal não gosta de si…" in Splaft! #5 (Bedeteca de Beja; 2009)
O
Não sei o que aconteceu em
2004 mas é nesse ano que Marco junta-se a Miguel
As bd’s que publica em todos
estes títulos parecem “inacabadas” – ou seja, estão “ainda” a lápis, não foram passadas
a “limpo” (ou a preto), algumas pranchas até tem algum ensaio de cor. A perícia
técnica “naturalista” a que a maior parte da bd está associada está lá mas
parece que estamos antes a ver esboços do que um “produto final” até porque os
textos estão cheios de palavras riscadas ou saem dos limites dos balões ou das
caixas. A urgência de puxar a realidade para uma folha de papel ultrapassa os
formalismos e convenções de escrita e do desenho que habitualmente estamos
habituados a ver/ler na bd. O que é necessário é colocar o amigo
Marco vive uma altura
fantástica no que diz ao mundo da bd – aliás, é a BD que vive uma altura
fantástica de expansão no mundo infiltrando-se tanto na galeria de arte (por
acaso Marco é representado por uma) tanto como na livraria generalista tal é a
riqueza de propostas que tem oferecido nas últimas décadas. Uma das razões desta
riqueza deve-se também aos desenvolvimentos tecnológicos da impressão que
permitem reproduzir as tais “bd’s inacabadas” com uma qualidade impensável para
quem se via à rasca (por exemplo) com a fotocopiadora dos anos 80. Marco tal
como muitos autores a nível mundial - da Anke Feuchtenberger aos Elvis Studio, da
Amanda Vähämäki ao Brian Chippendale - podem imprimir as bd’s “urgentes” em
formatos baratos, como um zine fotocopiado, sem ter de passar pelos processos
de desenhar o lápis e depois a tinta onde se costuma perder a espontaneidade do
primeiro registo.
Desde os anos 60 que se tem
quebrado a lógica da divisão de tarefas na bd – vindo do “fordismo” dos
“comics” desde anos 30. Robert Crumb e Moebius cada um do lado do Atlântico e à
sua maneira trouxeram a “escrita automática” e o “cadáver-esquisito” para a bd.
Harvey Pekar trouxe a autobiografia tão ou mais importante que as “freakalhices”
dos outros dois monstruosos autores. Finalmente na bd podíamos TER realidade… um
registo do que é o mundo em bd – algo impossível de ter com as distorções
caricaturais ou escapistas que a bd estava associada.
Em Portugal existe “bd de
autor” desde 1975 com a revista Visão mas
são poucos as obras que digam o que “é Portugal” na bd. Na Visão apareceram alguns contos sobre o Ultramar, aqui e ali pode-se
encontrar algumas aproximações biográficas (mais “realistas”? mais
“intimistas”?) da sociedade portuguesa pós-25 de Abril -
Daqui umas décadas os Historiadores
ainda irão pensar que a bd é um produto infantil porque terão dificuldades em
encontrar obras que lhes digam o que raios os portugueses sentiam, faziam ou
que paisagem lhes rodeava desde 1950 (ano que Botelho deixa de fazer os “Ecos
da Semana”), no máximo poderão saber que havia boémia e uma cena artística no
Porto ou empregos miseráveis em Portugal!
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2008 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2008)
Só se fala em crise neste nosso país mas parece que a máxima “em tempos de crise é que aparece a criatividade” acaba por ser verdade. Não que tenham aparecido muitas inovações, como aconteceu nos anos 90 e princípios de milénio mas pelo menos no mundo da edição independente – seja fanzine, zines, livros de autor – tem havido massa crítica o suficiente nem que seja para escrever um texto como este.
Muitas
páginas, apesar da crise…
Desde
já, é de constatar que continuaram a ser publicados os seguintes fanzines e
zines: o Boletim CPBD, Facada de Tiago Baptista, [R]eject de Andreia
Rechena, Tertúlia BDzine e Efeméride ambos editados por Geraldes Lino.
Regressou o Gambuzine de Teresa Câmara Pestana, agora como uma nova numeração
/ nova série. A Joana Figueiredo lançou mais um zine com um título marado –
desta vez é o Post Shit que fez tanto sucesso no Crack (Roma) e no Festival
de Helsínquia que acho que não deve ter chegado a ser divulgado em Portugal… -
e Os Gajos da Mula lançaram Fantôme Galicia. O autor algarvio Phermad lançou
a colectânea De trute ise aute der que compila bd’s publicadas no seu antigo
projecto, o zine Terminal.
Novinhos
em folha foram Znok de Filipe Duarte e Faixa
Em
formato mais profissional saiu o número dois do Alçapão – fanzine de
arquitectura dura que incluiu uma bd de João Sequeira e muita (boa)
ilustração; Le Sketch, projecto de Paulo Patrício; os Opuntias Books
materializaram-se em três novos títulos com aspecto luxuoso e muito apelativo;
a Kingpin lançou os terceiros volumes das suas séries; a Imprensa Canalha
editou mais uns graphzines e a antologia Cabeça de Ferro; a Chili Com Carne
lançou um volume de Mercantologia, colecção dedicada a recuperar material dos
zines, intitulado Noitadas, Deprês e Bubas que reedita bd’s antigas do Mesinha de Cabeceira. A Bedeteca de Beja continuou o Venham+
Novidades:
saiu um livro intitulado Murmúrios das Profundezas que apesar de ter
resultados muito pobres a todos níveis (o texto, as adaptações, os desenhos e
técnica das bd’s e o design) é interessante porque é um projecto sinergético e
colectivo para um país cheio de individualistas. Copiando o “template” que foi
o Virgin’s Trip (El Pep; 2006), reúne autores envolta de um tema comum, neste
caso estórias do H.P. Lovecraft que são adaptadas para bd. O esforço de fazer
um livro “grande” é assim partilhado e sendo colectivo tem mais hipóteses de
chegar a mais público também. Creio que podia ser um bom modelo para que a haja
mais edição em Portugal… Apareceu uma nova editora, a Plana Press que lançou
dois títulos: Pandora Complexa
De
referir também o livro Os Frescos da Aldeia das Amoreiras editado pelo Centro
de Convergência / GAIA, que documenta uma experiência de bd na forma de pintura
mural numa aldeia alentejana.
De
um lado para o outro
Passaram por Lisboa no âmbito da exposição Honey Talks o autor Jakob Klemencic (publicado em Portugal pela Polvo e Chili Com Carne e na Quadrado) e o editor David Krancan, ambos da revista eslovena Stripburger; o colectivo brasileiro do zine Bongolê Bongoró esteve no evento Brucutumia 2008; o francês Guillaume Soutlages esteve durante a Feira Laica na Bedeteca de Lisboa; a sueca Kriistina Kohlemainen (organizadora da SPX de Estocolmo) foi convidada para os colóquios Banda Desenhada e Bibliotecas, e o polémico autor norte-americano Mike Diana esteve no Furacão Mitra. Ainda de referir as autoras finlandesas Anna Kaisa Laine e Tiitu Takalo que acidentalmente caíram (de pára-quedas?) na Feira de Fanzines de Almada e Feira Laica de Coimbra.
Mas
também houve o inverso, portugueses a visitarem eventos internacionais como
representantes da Chili Com Carne que foram ao Festival de Angoulême (França),
SPX (Suécia), Crack (Itália), Festival de Helsínquia – também a Chili Com Carne
foi representada no Boom Fest,
A
nível de publicação, alguns autores portugueses participaram em publicações
estrangeiras como Filipe Abranches na Stripburger e Splot (Polónia), uma
série de autores no habitual zine suíço Milk+Wodka, Teresa Câmara Pestana no
zine feminino e finlandês Irtoparta, Richard Câmara no zine espanhol ARGH!,
o autor destas linhas no «jornal ilustrado com um mês de atraso» Aooleu (Roménia), e como sempre André Lemos é o autor mais internacional que colaborou
nos seguintes zines (espero ter apanhado todos!):
Foi um ano em que em Lisboa fecharam a loja de Design Goma 386 e a galeria Work&Shop, sítios que comercializavam produções independentes e organizavam exposições de ilustração e bd. Em compensação, as lojas Central Comics, Kinpin Books e Mundo Fantasma reformularam os seus espaços dando uma maior dinâmica à produção nacional, e no Porto abriram a Dama Aflita e a Inc., a primeira é uma galeria dedicada à ilustração e a segunda uma livraria de edições de autor.
Talvez pela falta de estabilidade dos espaços comerciais portugueses é que se tem solidificado cada vez mais eventos “indies” em volta da edição, cada vez mais com uma programação ousada. Este ano houve três edições da Feira Laica, as segundas edições da MAGA nas Caldas da Rainha e do Bunny Weekend em Lagos – e o celebrado Furacão Mitra. Foi o ano de uma Feira de Fanzines de Almada que mais valia não regressar já que a organização actual do evento é incapaz de envolver a comunidade fanzinista na sua programação.
Desapaixonado este texto? Sim, sem dúvida… As edições relatadas também o são? Nada disso, não me permitindo fazer muitos juízos de qualidade – por várias razões, entre elas porque estes relatos não o permitem e por outro fazendo eu próprio parte da “cena”… Que giro! É que existe mesmo uma “cena”! – mas dizia, não me permitindo a fazer esses juízos, só há algo a fazer, é procurar estes títulos, estas editoras e julgar por si mesmo.
Como tudo na vida encontrará coisas que não serão do total agrado, outras pelo contrário serão revelações mas só nesta “cena” é que poderão desfrutar prazeres narrativos e estéticos porque de resto, na sua livraria predilecta a bd deixou de existir – não sei que dirá o Daniel Maia este ano nas “Edições” – tal como acontecia até aparecer a Bedeteca de Lisboa em 1996. Resumindo, nas livrarias não acontece nada… se existe algo é no mundo dos fanzines!





