terça-feira, 30 de junho de 2015

Punk Comix: Os “flirts” entre a BD e o Punk em Portugal

1. Questões e constatações

Este paper é um resumo de uma investigação da forma que o Punk é tratado na Banda Desenhada portuguesa e o que conta a Banda Desenhada portuguesa sobre o Punk, numa base de testemunho pessoal, de escrita empírica e com uma investigação sobre os acervos pessoais e públicos (sobretudo no da Bedeteca de Lisboa). A investigação será publicada na íntegra num livro sob o título “Punk Comix : Banda Desenhada e Punk em Portugal”.

Serve o artigo como um documento de referência para quem quiser pegar na BD para trabalhar em assuntos relacionados com o Punk, culturas urbanas, música, cultura Do-It-Yourself (DIY), artes gráficas e editoriais. A cultura da BD sofre de reconhecimento social e institucional, sempre relacionada como um produto de massas e de preferência para as camadas infanto-juvenis. Vista como uma “arte freak” pelo uso simultâneo de texto e de imagem, costuma irritar quem quer coisas bem comportadas e estanques que se possam colocar numa gaveta literária ou numa visual. É justamente este estatuto híbrido que a torna bastante interessante para quem precisa de imagens ou documentos textuais em alguma investigação sobre uma cultura, como a da KISMIF sobre o punk.

Apesar dos bravos e originais inícios, a BD portuguesa tem reduzida produção por falta de investimento das editoras, seja em BD comercial ou “de autor”. Pior é constatar que são poucas as obras que nos contam sobre Portugal e as suas gentes, mesmo quando mascarada em autoficções ou ficções. Pode-se culpar o isolamento do Fascismo e a geografia periférica para essa pobreza de conteúdos; mas mesmo depois do 25 de Abril até hoje ainda são poucas as obras ligadas à “reportagem”, “jornalismo”, “crónica”, “diário de viagem” ou “autobiografia”.

Para além disso há pouca regularidade de produção de cada autor para se conseguir manter um contínuo de análise da evolução de um tema específico. Há obras que saltam no tempo – como o caso de Arlindo fagundes que fez dois álbuns de BD separados por 17 anos! - e não há diálogo entre obras e autores. Para ter um quadro mais completo sobre a “BD punk” é preciso ir buscar mais fontes, seja a BDs de outros temas, seja à ilustração ou ainda ao meio editorial independente.

Dada a estas limitações gerais até é bastante fácil apanhar “toda” a produção feita em volta do Punk na BD portuguesa e felizmente, através do acervo da Bedeteca de Lisboa consegue-se aceder a quase todas as edições, mesmo as underground, para se poder trabalhar neste tema – ou qualquer outro.

Resta chamar a atenção que durante esta investigação levantaram-se questões que alguém deveria estudar e responder, sobre a importância da BD na construção da cultura Punk. A começar internacionalmente no berço do Punk com a revista nova-iorquina Punk Magazine (1976/79) de John Holmstrom que parece mais uma revista de BD “underground” do que uma revista de música. Activa entre 1975 e 1979, a revista terá um impacto na comunidade de Nova Iorque, solidificando o termo “punk” (especialmente quando um número foi enviado como material de imprensa na promoção do disco de esteia dos Ramones) e mais tarde influenciando várias outras publicações pelo planeta fora, sendo um catalisador para inúmeros fanzines punk que surgiram como o Snifin’Glue de Londres.

Em Portugal, temos o caso da loja Mundo da Banda Desenhada (mais tarde Op) que entre 1977 e 1987 era um importante ponto de encontro frequentado por punks e boémios lisboetas; e há também o caso levantado por Paula Guerra, Pedro Quintela e Júlio Dolbeth no catálogo God Save The Portuguese Fanzines (2014) sobre a importância da BD que se encontrava no primeiro fanzine punk do Porto, Cadáver Esquisito (1986).


2. Existem obras que tratam sobre o punk em Portugal?

Surpreendentemente, apesar da “miséria” da produção portuguesa, encontram-se obras curiosas e válidas para estudar o Punk em Portugal. Elas existem e de várias formas, havendo até livros monográficos dedicados exclusivamente ao tema.
Apesar de haver umas figuras ou referências ao punk desde 1979, tratavam-nas sem dar importância e/ou fora de contexto, como os punks que apareciam na Iª Guerra Mundial da série O Espião Acácio de Fernando Relvas na revista Tintin.

O que podermos chamar de personagem com protagonismo será outra vez pelas mãos de Relvas em 1983 e desta vez com personagens femininas - algo de espantar num meio machista como o da BD e do punk! Sabina e Sangue Violeta são as personagens/BDs que aparecem no semanário Se7e. Depois disso os punks vão desaparecendo face a outras subculturas que nascem ou crescem nas últimas décadas do século XX, servindo apenas de “mobiliário urbano”. Voltam no início deste milénio com a entrada da Autobiografia na BD portuguesa em que são tratados menos como estereótipos mas como “humanos” – criticados, interrogados e a testemunharem factos reais.

Há uma proeminência de histórias curtas com/sobre punks porque apareciam em publicações “precárias” (como fanzines) ou efémeras como “gags” de páginas de periódicos – as BDs de Nuno Saraiva e o seu Zé Inocêncio. Na maior parte das BDs o papel do punk é quase sempre secundário. São em BDs longas que ganham protagonismo como nas BDs de Relvas, 88 de Nunsky e Punk Redux de João Mascarenhas mas são nas BDs curtas que se encontra o conteúdo mais documental - autorias de Teresa Câmara Pestana, Marcos Farrajota, José Smith Vargas,…

E se as primeiras BDs com Punks aparecem logo em jornais – Relvas no Se7e e Diniz Conefrey no Blitz – a sua presença mediática vai desaparecendo à medida que perde o impacto na cultura urbana dos anos 90. Essas mesmas BDs voltarão oficialmente com a reedição em formato livro a partir de 1996, apanhando o “boom” da BD portuguesa dessa época até aos dias de crise de hoje.

A maioria das BDs sobre Punk aparecem em edições de pequena tiragem como fanzines e livros auto-editados de Rigo, T.C. Pestana, Associação Chili Com Carne, fanzines de BD (Ritmo, Epitáfio, Nuxcuro, Hips!, Mesinha de Cabeceira, KBD e Azul BD3), fanzines punk (Cadáver Esquisito, Morte à Censura e LBN Punx Zine) e ainda fanzines punk de BD: Over-12, Os Positivos e Ezequiel.


3. Que documentação apresentam essas obras sobre a realidade do punk?

Conforme as preocupações do projecto KISMIF, tentou-se localizar tópicos que possam ajudar investigadores noutros estudos: o retrato da boémia ou ambientes ligados à cultura urbana em Portugal, identificação de punks ligados à música, bandas e concertos, códigos comportamentais e estéticos, convívio com outras tribos urbanas em especial com a cultura skinhead neo-nazi, comportamentos sexuais, utilização de drogas, movimento okupa e o “aging”.

Em relação à boémia, a BD portuguesa tem várias obras que apresentam casos realistas dos sítios que eram frequentado e a respectiva “fauna”, sobretudo no que diz respeito à capital nos anos 80 e 90 em obras de Relvas, Ana Cortesão (importantíssima a sua BD sem título de 1993 reeditada mais tarde no álbum A minha vida é um esgoto para perceber o cosmopolitismo e a “gentrificação” de Lisboa no final dos 80s), o álbum colectivo Noites de Vidro (CML; 1991) sobre os sítios nocturnos de Lisboa e as três BDs do (anti-herói) Ruivo de Diniz Conefrey no Blitz.

Quanto a representação de músicos punks conclui-se facilmente que João Ribas (1965-2014) é o super-punk! É o músico mais retratado por gerações diferentes: Relvas na Sangue Violeta (no Se7e) em 1984 com a banda Kú de Judas; Diniz Conefrey no jornal Blitz (1992) e por Afonso Cortez-Pinto e Marcos Farrajota no disco Raridades (2009) nos tempos de Censurados. Haverá mais bandas portuguesas (e estrangeiras) representadas não necessariamente punk ou underground até hoje: Xutos & Pontapés, UHF e Pop Dell’Arte (na colecção BD Pop Rock Português), Crise Total, X-Acto, Albert Fish, Ratos de Porão entre outros sobretudo em zines.

A BD é excelente para representar códigos comportamentais e estéticos de tribos urbanas e encontram-se em várias obras já citadas (Relvas, Rigo, Saraiva, etc…) e mais tarde no primeiro volume da série Loverboy, de Marte e João Fazenda, os comportamentos globalizados da “cultura alternativa” marcada pela MTV.

Surpreendente é a presença de skinheads nas BDs, na maior parte do tempo como figurantes mas também como antagonistas às personagens principais, sobretudo nos anos 90. A única situação realista com estes indivíduos é dada pela primeira BD de Ruivo (de Conefrey) em que regista um jogo parvo e estranho de darem estaladas uns nos outros. Outras tribos urbanas (rockabillys, dreads, “vanguardas”, freaks e metaleiros) aparecem noutras BDs em coexistência mais ou menos pacífica. Violência policial quase nunca é retratada tirando uma referência numa BD de T.C Pestana num Gambuzine.

Procurou-se por sexo mas não se descobriu nada de especial tirando o facto que quase toda a sexualidade na BD portuguesa é sobre um ponto de vista heterossexual mesmo na ”BD punk”. Dentro da ficção há várias fantasias eróticas envolta do imaginário punk, como demonstra Nunsky em duas BDs no zine Mesinha de CabeceiraInadaptados (1994) e 88 (1997).

Já a droga é quase sinónimo de Punk, e por isso “ela” (a heroína) está-lhe sempre associada, em modo de ficção, humor ou fantasia. O caso mais real será a excelente BD de Pestana - O meu vizinho no Gambuzine de 2008 - que conta uma história sobre a sua experiência pessoal numa “okupa” em Hannover, em 1989, com toxicodependentes.

É suposto que as “okupas” portuguesas feitas por punks aconteceram só nos anos 90 e talvez por isso que demoram a aparecer nas BDs. Só neste milénio é que existem esses registos, mesmo que se reportem a 1989 como a BD de Pestana que apesar de se passar na Alemanha com as devidas distâncias socioeconómicas reflecte bem o espírito da altura. Há mais dois registos sobre “okupas” portuguesas, uma no livro Boring Europa (Chili Com Carne; 2011) sobre a destruição da S.P.C.C., provavelmente a última “okupa” em Lisboa, e José Smith Vargas sobre a expulsão e emparedamento do edifício onde decorria o projecto social auto-suficiente e autogerido Es.Col.A no Alto da Fontinha, Porto – editada na revista Buraco (2012).

Sobre o “aging” a situação complica-se porque não há uma obra como Locas do norte-americano Jaime Hernandez em Portugal (sobre este autor, ver anexo 1). Por isso é preciso saltitar por registos que ofereçam situações idênticas, sendo que a escolha será sobre autores que usem a “autobiografia” como matéria-prima na sua obra, como Marcos Farrajota, Marco Mendes e Teresa Câmara Pestana. É preciso fazer pontes entre eles para ter uma vista panorâmica do que possa ser a vida de criativos em Portugal ligados à cultura DIY. Curiosamente até há uma crítica a um autor quando Pestana ataca Farrajota por ser um “punk de escritório (…) quase honesto”, num número do Gambuzine. Em contraponto há as BDs que Farrajota fez em 1995, 2001 e 2011 em vários zines sobre o “ponto da situação” da sua vida, sobretudo a profissional. E Mendes tem feito autobiografia desde 2007 apanhando temas como a boémia do Porto, o trabalho precário e miséria social da crise portuguesa que assaltou o século XXI. Estas duas últimas situações são preocupações de uma classe “mérdia” (usando uma expressão de Pestana) mas sendo são dos poucos testemunhos sobre percursos de vida que se pode fazer analogias aos modos de vida das subculturas em Portugal. Por fim, têm sido colocadas questões “existenciais” à cultura punk e underground por Farrajota no zine brasileiro Prego (2011), no livrinho do DVD do 15º aniversário do Festival de Metal de Barroselas (2011) e na revista eslovena Stripburger #62 (2013).


4. De que forma o punk é tratado nas BDs?

Maltratado, claro! Sobretudo no campo da ficção e fantasia, alinhado à cultura oficial, o Punk aparece representado como um pequeno criminoso de rua, marginal ou toxicodependente, geralmente identificado com um moicano. Mesmo as personagens principais de obras sobre punks elas parecem pouco “humanas” – o que Violeta de Relvas nos diz? Diz tanto como o emblemático slogan “No Future”. Pode-se afirmar que não há personagens punks interessantes! Também não se detectou “anti-heróis” – como os estrangeiros Peter Pank, Tank girl ou Bob Cuspe… E já agora, sejamos realistas estes três exemplos vieram a Portugal importados de revistas brasileiras! Quase não há representações de punks de BDs estrangeiras traduzidas em Portugal – encontrei uma BD de Serge Clerc no Jornal da B.D. (1985) e pouco mais… Só isto revela a (falta de) dinâmica do mercado nacional.

Só no final dos 90 e neste milénio é que os punks são tratados como “pessoas” (Pestana, Boring Europa, Farrajota), devido a duas razões. Primeiro, porque o punk em Portugal começou como algo fútil, uma tribo urbana a fugir à modorra pós-PREC, e só nos anos 90 é que se foi metamorfoseando num circuito realmente underground com estruturas e modos de vida militantes; e em segundo, só nos anos 90 é que a BD portuguesa acedeu aos novos paradigmas de criação da “BD Alternativa” norte-americana e europeia, explorando o género “documental” até então inexistente ou esquecido – estranhamente quando os pioneiros Rafael Bordalo Pinheiro e Carlos Botelho fartaram-se de fazer Crónica!


5. Existem autores que foram / são punks?

A discussão neste ponto é complicada porque tinha-se de identificar autores “punks” no meio de uma enorme lista de autores de BD em Portugal ligados à cultura DIY. Esta cultura DIY na BD nacional justifica-se pela ausência de editoras interessadas em publicar autores portugueses, com trabalhos comerciais ou não. Fazer um levantamento dos artistas que publicaram os seus fanzines ou criaram estruturas independentes de edição mostra um verdadeiro “movimento” que raramente se pode ver noutras áreas criativas neste “país onde não se passa nada”. Mais do que haver ou ter havido autores punks, o que houve foi autores que fazem “flirts” ao Punk e a cultura DIY, uns com mais militância que outros, raramente colocando um moicano na cabeça.

Em teoria, o punk não trouxe movimentos para a BD, o estudioso Domingos Isabelinho no texto do catálogo Tinta nos Nervos até duvida que se possa falar em “ismos” na BD. E se pudermos afirmar que a cena da BD é tendencialmente conservadora devido ao seu passado infanto-juvenil e que a cena punk é essencialmente politizada, quem vive num dos mundos será impossível viver no outro. São raros os casos de intersecção mesmo a nível internacional. Foram escolhidos quatro casos para criar modelos de identificação de autores punk (ver anexo 1), a saber:

1)            BD de género dentro de um nicho (Ganes)
2)            BD com aspecto tradicional que retrata uma cena (Hernandez)
3)            BD autobiográfica na cena punk (Konture)
4)            BD com um estilo gráfico surgido da acção punk (Panter)

Tentando usar modelos internacionais para identificar “autores punk” até se encontra situações idênticas com as devidas longas distâncias. O caso do britânico Simon Gane, o “king of punk comics”, ou seja, uma “BD de género dentro de um nicho de mercado” poderá ser encontrado em Portugal através dos autores Marcelão e Valter de Matos que publicaram ou ainda publicam, respectivamente, os fanzines Over-12 e Os Positivos. Circunscritos ao reduzido circuito do Hardcore e Straight Edge português torna-os quase invisíveis ao “olho público” comparando com a “fama” de Gane no underground internacional. No entanto neste milénio, o underground português tem-se profissionalizado e embora as suas BDs não reflictam directamente uma vivência “punk”, encontramos os nomes de André Coelho e José Smith Vargas reconhecidos mais pelo trabalho gráfico para cartazes, capas de discos, skates, t-shirts do mundo da música underground ao nível internacional.

No caso de Jaime Hernandez, ou uma “BD com aspecto tradicional que retrata uma cena” já foi referido os casos de Relvas, Conefrey, Loverboy e Mascarenhas que tratam sobretudo de situações lisboetas de boémia com alguns punks mas de longe apanham o fenómeno de “aging” ou oferecem vozes para uma minoria cultural.

No caso do francês Mattt Konture, ou “BD autobiográfica na cena punk”, há claramente T.C. Pestana que se enquadra num estilo de vida underground e em contacto profundo com esta cultura.

E para equiparar ao texano Gary Panter (ou “BD com estilo gráfico surgido da acção punk”) parece impossível fazer essa correlação e salta-se para a última questão.


6. Havendo autores punks, que estilos gráficos usam? Haverá um estilo gráfico punk português?

Os estilos gráficos das BDs portuguesas são deveras personalizados devido à falta de massa crítica de produção, ao contrário dos facilmente identificáveis estilos de países com grandes mercados e indústrias culturais como o Japão (o “estilo Manga”), os EUA (o género “Super-Heróis”) e os “grandes narizes” e a “linha clara” da BD franco-belga. Em Portugal, cada autor, underground ou comercial, desenvolve o seu estilo gráfico único e que poucos imitam porque cada estilo reflecte um percurso irrepetível de carreira profissional, que não pode ser continuado por outros.

Aumentando o leque de observação para os autores de BD que fizeram grafismos para bandas / discos / cartazes punk também não se conseguem deslumbrar uma linha gráfica única porque também na música portuguesa nos anos 80 e 90 se faziam poucos discos de bandas nacionais – como referido, só o aumento de produção de discos neste milénio é que criou um nicho para autores como Coelho ou Vargas.

No grafismo Punk, consegue-se identificar algumas características gerais, a maior parte passiveis com origens noutras denominações artísticas como no Dada, Art Brut, Geração Beat e Situacionismo. O Punk e a música Industrial irão exponenciar muitas dessas características transformando-as em práticas comuns na produção criativa popular. As quatro características possíveis de identificar grafismo “punk” serão:

1)            O “brutismo”, ou autores sem formação que criam sem pudor ou interesse económico, tal como o termo “Art Brut” cunhado por Jean Dubuffet;
2)            Iconoclastia, ou a alteração de imagens, o uso da colagem, os “detournement” Situacionistas, vindo dos Dadas e “ready-mades”;
3)            O humor como confronto político e social, inteligente e contundente (como Dead Kennedys ou os Crass nas capas de discos) ou apenas grosseiro e canalha (como mil bandas Drunk / Street Punk fazem com desenhos feitos na tasca mais perto de si);
4)            O DIY, que significa na realidade Independência ou Liberdade, em que o autor prefere fazer ele próprio tudo, dominar os meios de produção invés de entregar um trabalho a alguém que o poderá arruinar ou alterar a forma ou o conteúdo.

Tentou-se verificar se existem alguns traços comuns entre a produção nacional com as características básicas da estética Punk, chega-se à conclusão que a “iconoclastia” e o “humor” não são características que se possam assinalar por razões equidistantes, no primeiro caso porque é raro encontrar colagem na BD ou uso exclusivo dessa técnica, e no segundo, o impacto da revista brasileira Chiclete Com Banana (onde aparecia o Bob Cuspe) do Angeli ultrapassa o “guetho” punk e encontra-se em várias produções humorísticas generalistas portuguesas de BD. Também se deve pensar que o humor escatológico e tonto é quase universal nas produções punk para ser pensado como um exclusivo nacional.

Já a “art brut” (ou sujidade ou espontaneidade do desenho) e o “DIY” (que não é um valor estético em si) são as características que unem uma série de autores de BD, que tenham ou não tratado de assuntos punk, desde os anos 70. Em parte deve-se ao advento das tecnologias baratas de reprodução (as fotocopiadoras) que permitirem cada um publicar sem pedir licença a ninguém e explorar as limitações dessas tecnologias no tratamento das suas imagens, de forma que esses processos ajudaram os seus estilos a evoluírem.
Será também o desenvolvimento tecnológico dos meios digitais (a começar pelo processamento de texto até ao Photoshop) que irão limpar e nivelar os grafismos underground até um profissionalismo que se confunde com o da cultura oficial, a partir dos meados dos anos 90.

Por fim, pegando na questão da produção de fanzines e auto-edição, surge a dúvida da “galinha ou o ovo” na BD portuguesa. Olhando para grande produção de fanzines portugueses que data ainda antes do 25 de Abril de 1974 fica-se a pensar se a influência do Punk na BD portuguesa não passa de um fenómeno paralelo, um bastardo de algo maior que estava acontecer. Uma dúvida que merece uma investigação específica.

A produção portuguesa de BD sustenta-se na premissa da produção amadora, militante e DIY para existir e evoluir ao longo dos tempos, especialmente depois do 25 de Abril quando o profissionalismo tornou-se cada vez mais raro – essa raridade já vinha dos anos 60 em que deixou de haver um proteccionismo de Estado para este mercado. São poucas as séries publicadas em jornais ou revistas e raramente existem encomendas para livros. Quase toda a produção pós-25 de Abril é feita de auto-edições ou editoras que são empresas de pequena dimensão. Logo o que se podia dizer com muita excitação é que a BD portuguesa é Punk!

Uma frase exacerbada e demente, claro, mas que merece alguma reflexão apesar de tudo.

Bibliografia e anexo 1 de Punk Comix

Anexo 1: Very Important Punks (autores mais conhecidos de BD punk)

O britânico Simon Gane (1972?) seria daqueles nomes que na BD dirá pouco, porque a sua obra não é particularmente inovadora mas é um autor reconhecido na cena punk, ou pelo menos era nos anos 90. Diz-se que não há fanzine punk que já não tenha publicado, com ou sem consentimento do autor, imagens da sua personagem “Arnie, The Anarchist”, série essa que tem a lógica da tira humorística num micro-universo em volta das questões da Anarquia. No seu auge na cena punk ainda ilustrou centenas de capas de discos, cartazes e outra efémera. Hoje, parece que Gane é um autor como muitos outros no grande mercado norte-americano, trabalhando para editoras conhecidas como a Top Shelf e a DC Comics. Se Gane recebeu o título “king of punk comics” foi por reconhecimento na cena punk e não pela BD, claro.

A BD aliás tem esta tendência a ser um clube de rapazes bem-comportados devido à sua pesada história da BD comercial que parece devorar tudo e todos fora desse parâmetro. Talvez por isso seja raro haver autores como o francês Mattt Konture (1965) que tem uma legião underground de leitores. Konture vem da cultura punk – onde aliás, continua – como artista gráfico e como músico mas ao contrário de Gane, a BD que realiza é sobre essa realidade na primeira pessoa, embora muitas vezes o seu trabalho passe pelo automatismo, experimentalismo e psicadelismo como se verifica na sua única BD publicada em Portugal na revista Quadrado #2 (3ª série, Bedeteca de Lisboa; Set’00). Ele e outros cinco autores foram responsáveis pela criação da editora L’Association, em 1990, que modificou para sempre a BD europeia, em grande parte pela abordagem da autobiografia à BD. O seu estilo gráfico é misto do “brutismo” (Art Brut e estética lo-fi do punk) e uma tradição abonecada que ainda vem do underground dos anos 60, sendo Robert Crumb uma influência assumida de Konture.

Nos EUA, é impossível não referir aos três irmãos Hernandez que criaram a revista Love & Rockets (título que os ex-Bauhaus roubaram sem vergonha) em 1981 e que é um marco histórico para o subsequente movimento da “BD alternativa” que cresceu daí até ao fim do século passado. Um dos irmãos, Jaime (1959), realizou nesta publicação a série “Locas” que tratava da vivência no meio punk/ hardcore da Califórnia. Os Hernandez apesar de não realizarem registos autobiográficos como Konture, as histórias que contam são fruto dos seus encontros quotidianos com a comunidade latina em que se inserem, o que imediatamente as torna importantes num contexto sociológico de testemunho de uma minoria cultural norte-americana. Não só uma minoria latina que representam mas, curiosamente, também de um testemunho feminino na cultura punk/ hardcore, uma vez que a maioria das personagens dos Hernandez são mulheres. Em trinta anos mantiveram a revista e as suas séries, com algumas interrupções pelo meio, o que permite fazer uma análise de “aging” sobre estas personagens fictícias mas que transpiram realidade pelos poros. Resta dizer que o estilo gráfico deles é tradicional, realista, Pop estilizado a lembrar o grafismo dos anos 50 mas a preto e branco – obrigatoriamente pela questão de custos de impressão da revista. À superfície o que interessa mais será o conteúdo do que a estética por mais que uma das personagens costume usar “patches” de Black Flag.

A antítese dos Hernandez (e dos outros) será o texano Gary Panter (1950) cujo desenho “deficiente” e “ratado” é largamente influenciado pela liberdade estética que o punk trouxe. Ele próprio foi ilustrador e autor de BD para um fanzine punk, Slash, entre 1977 e 1980, desenhou material gráfico para várias bandas, sobressaindo-se como um importante artista gráfico. O problema será saber se as BDs de Panter contam algo realista sobre o punk e à partida a resposta será “não”. No máximo poderá contar que houve (ou há) punks com muito ácidos e vindos da província como o seu Jimbo mas como o mundo onde esta personagem se move é demasiado instável para o posicionarmos onde quer que for - mesmo quando a cara de Jimbo tenha sido inspirada pela do vocalista dos The Screamers. Panter é um exemplo como o primitivismo estético do punk foi rapidamente assimilado pelos artistas dos anos 80, fazendo dele uma figura de vanguarda nessa década quando publicava na seminal Raw, revista dirigida por Art Spiegelman.





Bibliografia
Cortesão, Ana; A minha vida é um esgoto; Lisboa : BaleiAzul : Bedeteca de Lisboa; 1999
Deus, A. Dias de;  Os Comics em Portugal : uma história da banda desenhada; Lisboa : Cotovia : Bedeteca de Lisboa, 1997
Farrajota, Marcos; Komikazen : cartografia dell'Europa a fumetti; [Veneza] : Edizioni del Vento, 2007
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_____; Talento Local; Cascais : Associação Chili com Carne; 2010
_____; Metakatz; Bruxelas : 5éme Couche, 2013
Guerra, Paula; Quintela, Pedro; Dolbeth, Júlio; God save the Portuguese fanzines. Porto: Universidade do Porto – Faculdade de Letras; 2014
Holmstrom, John; Hurd, Bridget; The Best of Punk Magazine; Nova Iorque : HarpersCollins, 2012
Isabelinho, Domingos; Tinta nos nervos : banda desenhada portuguesa; Lisboa : Museu Colecção Berardo, 2011
Lisboa; Noites de Vidro; Câmara Municipal - Pelouro da Cultura; 1991
Marte; Fazenda, João; Loverboy, o rebelde; Lisboa : Polvo; 1998
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Mascarenhas, João; Punk Redux; Sintra : Qual Albatroz; 2011
Mendes, Marco; Salão Olímpico 2003-2006; Porto : Fundação de Serralves, 2006
_____; Diário rasgado : 2007-12; Porto : Mundo Fantasma; 2012
Nunsky; 88; Cascais : Associação Chili Com Carne; 1997
Pestana, Teresa Câmara; Aqui? Babilónia; [s.l.] : Edição Infecta; 1995
Pestana, Teresa Câmara; Continuamos aqui?; [s.l.] : Edição Infecta; 1996
Piedade, Luís; Raridades; [s.l.] : Zerowork Records; 2008
Relvas, Fernando; Sangue Violeta e outros contos; [s.l.] : El Pep; 2012
Ribeiro, Ana; Farrajota, Marcos; Martins, Ricardo; Boring Europa; Cascais : Associação Chili Com Carne; 2011
Rigo 23; Ganmse; Lisboa; 1986
Sá, Leonardo de; Lino, Geraldes; Dédalo dos fanzines : o catálogo das publicações amadoras de banda desenhada em Portugal; Lisboa : Edições Temporárias : 1997
Sabin, Roger; Triggs, Teal; Below critical radar : fanzines and alternative comics from 1976 to now; Hove : Slab-O-Concrete, [2001?]
Saraiva, Nuno; Zé Inocêncio : as aventuras extra ordinárias dum falo barato; Lisboa : BaleiAzul : Bedeteca de Lisboa; 1997
Spencer, Amy; DIY : The Rise of Lo-Fi Culture; Londres : Marion Boyars, 2005
SWR Barroselas Metal Fest; Farrajota, Marcos; The 15th rebellion of the steel warriors; Barroselas : Sonic Events; 2012
Vieira, Joaquim; Portugal Século XX : Crónica em Imagens : 1950-60; Lisboa : Círculo de Leitores; 2000
Zink, Rui; Literatura gráfica? : banda desenhada portuguesa contemporânea; Oeiras : Celta, 1999

Jornais e revistas
- Blitz (1990-92). Lisboa : VASP Sociedade de Transportes e Distribuição
- Quadrado, 3ª série (2000). Lisboa : Bedeteca de Lisboa
- Stripburger (2013). Ljubjana : Forum Ljubjana
- Tintin (1979-1982). Amadora : Livraria Internacional, lda

Sites
- chilicomcarne.blogspot.com (da Associação Chili Com Carne)
- mesinha-de-cabeceira.blogspot.com (de Marcos Farrajota)
- rocknoliceu.blogspot.com (de André Nascimento)
- vimeo.com/75151697 (de Miguel Nozolino)

Zines:
- Buraco (2012). Porto
- Cru (2012-2014). Póvoa de Varzim : Esgar Acelerado
- Gambuzine (1999-2008). Porto : Edição Infecta
- Mesinha de Cabeceira (1992-2015). Cascais : FC Kómix
- Prego (2011). Vila Velha : Alex Vieira

Entrevistas

- Diniz Conefrey (Abril 2014) por e-mail

domingo, 12 de outubro de 2014

comix remix extra

Enquanto ia escrevendo o artigo Comix Remix iam aparecendo sempre novas situações ou velhas lembranças sobterradas, (re)descobertas que impressionavam e que poderiam ter entrado no artigo com o perigo de o transformar numa listagem, afinal são mais curiosidades que obras seminais mas gostaria de as partilhar aqui seja como for... 


Estive em Maio no Porto, na feira da ladra mais podre do país. Chama-se Vandoma e cada vez é maior e com mais tralha. Foi lá que descobri Grande Música Negra (RÉS; 1975), quinto livro de Jorge Lima Barreto. Um livrinho de capa preta que fala de Jazz à pedante que merece aquele tema dos Naked City: Jazz snob eat shit. Mas seria injusto também não escrever que a pespectiva é sempre chamar atenção ao sofrimento dos negros nos EUA. O que me motivou a comprar o livro não foi para ler sobre Jazz mas porque custava um euro e nas primeiras páginas do livro Barreto faz um "detournement" sobre uma BD do Tarzan, ou seja, mudou o texto original por outro completamente anti-imperialista, anti-colonialista e bastante divertido, como se espera desta técnica situacionista. Foi curioso encontrar isto a poucos dias de lançar o novo livro do Rui Eduardo Paes, o "a" maiúsculo com um círculo à volta. Barreto ousou usar uma BD para servir de chamariz visual, ou melhor ainda, como um manifesto contra o racismo e a exploração capitalista sem ser escrito apenas como texto simples. Em Portugal é tão raro usar a ilustração nos livros - visto como algo menor - que realmente este livro surpreende pela ousadia dupla, de pegar em desenho / BD e pelo "detournement".



Talvez nos anos 70 os intelectuais fossem menos parvos do que são hoje... No mesmo ano é editado em forma de livro comercial Conto de Natal para crianças (Forja) do poeta surrealista Mário Henrique Leiria, todo ele é um livro ilustrado e usando ideias de "detournement" do Situacionismo (e não do Surrealismo) porque é uma obra política. Realizado em Dezembro de 1972 como oferta a um amigo, este livro junta um texto inocente escrito com uma caligrafia de criança com as imagens mais horríveis da altura: mutilados de guerra, massacres e fome, fotografias de políticos fascistas "da altura" (Salazar, Nixon, Pinochet),... Uma obra de choque visual usando o paradoxo do texto bonito com imagens feias. Surgiu isto trocando outro livro de Leiria, Casos de Direito Galático, com um sócio da Chili Com Carne encontrado sem querer no mundo dos leilões virtuais. O mundo também é pequeno na Internet!



Esta página foi publicada no jornal Coice de Mula #4 (2002) e é de autoria de Alex Gaspar (1965-2010). O jornal existiu em oito números entre 1999 e 2007 "para a despoluição da arte contemporânea" sendo que o autor sempre colaborou com algumas BDs, algumas vezes assinando Chiquinho das Perdizes ou Frank Cinatra, creio... Esta será a única vez que assume o seu nome verdadeiro e pela reprodução a preto e branco do jornal ia jurar que o autor colou imagens alheias dos fachos do Batman e Tintim. Mais tarde esta BD seria republicada a cores num fanzine do Geraldes Lino dedicado a "Efemérides" (e sim, esse é o nome do fanzine) e aí topa-se que na realidade o autor ou fez imitação à vista ou decalcou as imagens. Não deixa de ser um "comix-remix" de alguma forma sendo que a BD fala por si...


Entretanto o camarada Lam enviou-me este link zdnd.tumblr.com, terra do não-direito (de autor) mas também do francês Yvang que desenvolve um trabalho incrível de colagem fractal de BD popular bem Pop, colorida, psicadélica vintage,... E poucos dias recebia a newsletter do Le Dernier Cri a anunciar a exposição e catálogo Fotoshok (2013) dedicada a montagens, onde vamos ter os cirurgicos Fredox ou Sekitani, o punk-velho Winston Smith (Dead Kennedys, Alternative Tentacles,...), o muy digital Dave 2000 entre outros cromos... tudo à mistura e sem créditos, uma javardice à LDC, um gajo tem de conhecer os trabalhos da malta para os poder identificar!



Por fim, na Terça FEIA apanhei um livrinho A6 editado pelo Samba, intitulado Sem/ registo (2012) de um tal Pedro Ivo Verçosa... É uma BD inteiramente feita de colagens e sem palavras. Um livro simples com um relato simples de uma bola humana que faz metamorfoses várias até voltar tudo ao mesmo. Plasticamente é bonito e vê-se que o autor domina a narrativa e composições de páginas da BD.


Outro caso deste espírito dos tempos do Comix Remix, foi o lançamento do livro Le Carnet Rouge (Soleil; 2007) do dinamarquês Teddy Kristiansen para o mercado norte-americano. O livro sofreu o milagre da duplicação e ficou um "split-álbum": The Red Diary / The Re[a]d Diary (Image; 2012). O que aconteceu é que Steven T. Seagle (argumentista ianque que colabora com Kristiansen nos super-heróis) não sabendo um pingo de francês ou dinamarquês "traduziu" o livro criando um texto novo para as mesmas imagens - aliás, ele usou a sua técnica de "transliteration", que é "traduzir" palavras de uma língua para o inglês mas pelo o que ela "soa" ou se "parece". O resultado é um texto - uma história - completamente diferente do Le Carnet Rouge. Ambos os contos não são nada de especial, algo de "light" como é típico nos "álbuns franco-belgas", em que a mediocridade de temas são disfarçados pela "bela" arte, que todos reconhecerão Kristiansen como tal, com o seu estilo "impressionista" - talvez por iso é que tem no currículo o facto de ter sido o primeiro europeu a desenhar o Super-Homem. Mas depois de ler a sensação é que não muito a não ser "belos" desenhos. Curiosamente, o texto de Seagle parece ser mais concreto e interessante que o "original"... Foi o Joseph Beuys que disse que a "cópia é melhor que o original"?

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2010 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2010)

Talvez já tenha mostrado o optimismo no blogue da Chili Com Carne, numa onda de “Mensagem do Presidente para 2011”. Aqui a análise é retroactiva, menos ampla, mais focada e isenta mas os sintomas de optimismo sentem-se – por ter sido escrita pela mesma pessoa, claro está. Aliás, é preciso mesmo olhar para o passado, neste acaso, em 12 meses para perceber que aconteceu muita coisa, tanta que a cabeça ficou tão cheia e insensível que se esqueceu da actividade dinâmica. Foi bom rever o que aconteceu em 2010 ao fazer a pesquisa para este Dossiê.

Com a decadência das grandes estruturas comerciais e institucionais são os “pequenos” que suportam e criam novas estruturas. Este ano faço questão até de fazer uma listagem em vertical para mostrar a força da coisa.

Lista a) Começamos pelo básico! Continuaram a editar:

- Reject’zine (de Andreia Rechena)

- Opuntia Books

- Imprensa Canalha

- Gambuzine

- MMMNNNRRRG

- Associação Chili Com Carne

- El Pep

- Zona BD

- Le Sketch

- Plana Press

- Boletim CPBD

- Kingpin Books

- É Fartar Vilanagem! (de Alexandre Esgaio)

- autora Jucifer (Techno Allah)

- Pedranocharco

- Venham +5

- Filme da minha vida

- autor Rudolfo (vários títulos)

- Tertúlia BD’zine

- Cleópatra (De Tiago Baptista)

- Znok (de Filipe Duarte)

 

Lista b) Regressaram:

- Polvo

- Kzine

 

Lista c) Agora sim, o importante (já explico). Apareceram novos projectos:

- Yoshi, o puto dragão (edição de autor e reedição profissional pela Raging Planet)

- Apupópapa

- Soft Porn Coloring Book

- B74

- Thou the Latrina spoken

- Sou daquelas (de Sílvia Rodrigues)

- Fígado da República (de José Smith)

- dois zines de David Campos

- dois zines de João Ortega

- Intro Espectro (de Tiago Araújo)

 

A Lista a) mostra uma continuidade de trabalho que insinua uma “profissionalização” dos projectos como é o caso da MMMNNNRRRG, El Pep, Zona BD, Plana Press e Kingpin Books – esta última nitidamente é uma casa comercial que coloca problemas em estar aqui a ser metida mas tendo em conta a pequena expressão no mercado faz sentido estar aqui.

No meio da lista a biblio-biodiversidade domina em objectos e objectivos: do carácter mais coleccionista do Boletim CPBD ao lúdico Le Sketch, do fetichismo dos Opuntias Books à necessidade de exteriorização artística de Andreia Rechena, do conteúdo programático da colecção O Filme da minha vida (da Associação Ao Norte) ao institucional de Venham +5 (editado pela Bedeteca de Beja)... Há de tudo para todos neste universo de edição independente em que misturo aqui fanzines, zines, livros de autor, livros impressos em tipografia ou em digital, colecções organizadas, números únicos, etc… Ao acrescentarmos os debutantes da Lista c) ficamos ainda mais ricos: zine/CD contra o Papa, Manga Cosplay-Metal, pornografia para colorir ou bds de continuação a seguir (mesmo!) com atenção.

Duas notas para a lista b) a Polvo que em tempos foi uma editora “média” (para a “média portuguesa”) e detentora de um catálogo histórico, inclui-se nesta análise porque suspeito que o capital da empresa, as tiragens dos livros e a sua projecção comercial está reduzida actualmente a quase qualquer outra iniciativa privada de “edição independente”. O Kzine é um fanzine dedicado à Manga (bd japonesa comercial).

Como repararam a Lista c) além de aplicar novidades em termos de conteúdo também mostra pujança em quantidade, isto se comparamos em relação com os últimos anos – a queixa mais bem registada está no Dossiê de 2007.

Durante os últimos anos, os zines em papel desapareceram gradualmente – ou melhor perderam a força ou foram substituídos pela febre “graphzine”. Em 2010 num “zeitgeist” qualquer apareceram não só novos títulos e novos autores, em que modéstia à parte, deve-se juntar o esforço da antologia Destruição (Chili Com Carne) que reuniu 15 novos talentos da bd portuguesa. Esta lufada de ar fresco há muita que era esperada dada ao fim do ciclo produtivo da geração dos anos 90. A questão que se colocava era se a bd de autor tinha desaparecido de completo? Que não havia novas pessoas a criarem bd de autor?

Talvez até tenha acontecido isso mas estão aqui as novas raízes que esperamos ver florescer em 2011 e para a frente. Quem sabe talvez do panorama desolador dos últimos anos venha a dar frutos como aconteceu há 20 anos atrás quando só havia Meribérica-Liber, Jim Del Monaco e o Clube Português de BD.


Internacional:

+ do mesmo, isto é a Aldeia Global já é uma Cidade em que não estranha os estrangeiros que entram nos seus terrenos… Miguel Carneiro e Marco Mendes publicados na revista eslovena Stripburger (Mendes duas vezes!), André Lemos no Lazer Art’zine (Bélgica), no ZI-NE (Roménia), na antologia Gazeta (EUA) e provavelmente em muitos mais sítios mas que não conseguimos seguir todos; José Feitor, Marcos Farrajota, Pedro Zamith e Pepedelrey no calendário brasileiro Pindura 2011, vários autores da Chili Com Carne no zine espanhol Combate (Ediciones Valientes) e ainda um livro de autor de Marta Monteiro pela Café Royal (Inglaterra). Também houve presenças em festivais internacionais como o Crack (Itália) e Alt Com (Suécia), para além de participação de André Lemos nas exposições Leaf and Signal e Not Tex Not Mex #1 (ambas nos EUA). Seis criativos da Chili Com Carne fizeram uma “tour” pela Europa fora, iniciativa inédita que passou por Espanha, Itália, Eslovénia, Sérvia, Áustria, Alemanha e França. Estas “férias peculiares” irão gerar um livro de viagens até agora no prelo.

Mais autores estrangeiros das veias alternativas que visitaram Portugal: o esloveno Jakob Klemencic no Festival de BD de Beja com o projecto europeu Greetings from Cartoonia, o croata Igor Hofbauer para duas exposições de sucesso em Lisboa e Beja, o texano Nevada Hill para a Feira Laica de Verão, e o sueco Mattias Elftorp, o francês Albert Foolmoon e o espanhol Martin Lopez Lam na Feira Laica de Natal. E claro, ainda tivemos um ícone da bd alternativa, a Dame Darcy que passou por Beja e por várias datas nortenhas.


“Profissional”

Apareceram duas novas associações, a Oficina do Cego dedicada à arte de bem imprimir – tendo já lançado dois números do jornal homónimo – e a Tentáculo que se dedica à publicação da antologia Zona BD. São obviamente associações sem fins lucrativos mas que dão um cunho mais profissional e de continuidade a projectos de edição. São mesmo bem-vindas!

A MMMNNNRRRG comemorou 10 anos, uma longevidade a respeitar para o tipo de material que edita e pelo ódio que lhe é alvo pelos agentes da “cena”. Talvez por isso tenha ido para o Porto lançar o Pénis Assassino, trabalho Janus feito em 2001 mas que só em 2010 alguém teve os “tomates” para o editar. Aliás, para uma editora odiada até houve “amor” logo no início do ano quando lhe foi atribuído o Prémio Titan para o livro Já não há maçãs no Paraíso de Max Tilmann (Tiago Manuel).

A Chili Com Carne e a El Pep ganharam um prémio em Itália para melhor fanzine (3º prémio) com o Seitan Seitan Scum (Mesinha de Cabeceira #22) no evento Slow Comics. Só o Festival da Amadora é que o fenómeno da edição independente é que lhe passa ao lado, não admira que este ano tenha estado às moscas…


Exposições

Em compensação, apesar da filosofia “easy come, easy go” que afecta as galerias / lojas / espaços lisboetas, as exposições O Último Fósforo (colectiva internacional vinda da Estónia), Mike Diana (recriação da exposição de 2008) e Igor Hofbauer (cartazes) na Artside estiveram cheias. A galeria de artes urbanas já fechou entretanto… Ao contrário das galerias portuenses Dama Aflita (ilustração) e Mundo Fantasma (bd) que são estáveis e mantêm uma programação exemplar. Que durem todos os anos que quiserem! Voltando a Lisboa. Porque sou lisboeta e tenho sempre Esperança que esta cidade melhore, as lojas de música Matéria Prima e Trem Azul deram o ano passado os primeiros passos no sentido de terem patentes exposição gráficas nas suas instalações. Se fosse cristão até acendia duas velinhas…

 

Extras

Na falta de espaços para divulgação da edição independente, a Associação Chili com Carne promoveu várias sessões sobre o assunto na Casa da Achada. O PEQUENO é bom! tratou de lançamentos, discussões sobre zines, música e animação DIY. Acabou o verão e teve se retirar, talvez volte em 2011.

Nem tudo o que vem da ‘net é mau – pelo menos ao que diz respeito à bd – como se provou este ano quando Simples Alquimia entrou em linha em http://spiraltap.net/simplesalquimia, aplicando as teorias que apresentou em Reinventing Comics (2000) sobre a expansão da forma narrativa da bd pelo espaço infinito das páginas Web. Demorou 10 anos até alguém fazer a coisa com o deve ser. Parabéns ao Diogo Barros.

É caso para escrever com orgulho e expectativa o clássico “(continua…)”.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2009 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2009)

 

Foi um ano bastante emocionante no que diz respeito aos zine e a edição independente, em geral - pelo menos para este vosso relator. Mesmo que algumas estórias tenham acabado mal, outras talvez sejam o início de algo maior a acontecer no futuro. No geral, a característica comum é a internacionalização...

Foi um ano tão emocionante que fiquei desgastado e escrevi o texto menos inspirado de sempre.

«Vai!»

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Cá dentro (mas cada vez mais para fora)

Continuaram em actividade os fanzines Boletim CPBD, Tertúlia BD zine, os zines Mesinha de Cabeceira, Shock e Znok bem como os da autora Jucifer, o desdobrável gratuito de esboços Le Sketch (na essência com autores norte-americanos), as colecções O filme da minha vida (da Associação Ao Norte) e Toupeira e a revista Venham +5, estas duas últimas pela Bedeteca de Beja. A Imprensa Canalha e Opuntia Books lançaram três graphzines / livros de autor cada. As editoras MMMNNNRRRG, Kingpin Books e a El Pep produziram dois livros cada, três deles de autores estrangeiros: Igor Hofbauer (Croácia), Tommi Musturi (Finlândia) e colectivo Tx Comics (EUA). A Plana Press lançou um título apenas. De realçar o regresso dos Gajos da Mula com o muy aguardado Qu’Inferno, pujante objecto gráfico.

Lançou-se o É fartar Vilanagem! (2 números) por Alexandre Esgaio, Jungle Comics (do Rudolfo da Silva), a antologia Zona BD (2 volumes) e Troubadour Comics (de Afonso Ferreira) e ainda saiu um zine de bd no vinil punk Raridades, vol.1 (Zerowork). Parece que em Guimarães, devido à licenciatura de BD, também saíram zines de bd mas como é seu apanágio, nada saiu para fora da sua rede. Devem ser a lógica do “consumo interno” como acontecia com os zines das Caldas da Rainha nos anos 90. Pergunto-me se as pessoas sabem mesmo o que é um zine? Se pensam que é apenas um amontoado de fotocópias que não difere muito do mítico trabalho na gaveta ou se sabem que é uma forma de comunicação? Deverei preocupar-me com isso? Não me parece... Se algo de bombástico tivesse a acontecer alguma coisa sairia "cá para fora” – como aconteceu inevitavelmente com os zines das Caldas.

Houve as habituais Feiras Laicas - de Verão nos jardins da Bedeteca de Lisboa e no Natal desta vez no Braço de Prata -, Mercado Negro (Porto), Bunny Weekend (Lagos) e A Mula Ruge (Porto). De realçar também o festival Vírus (Leiria) que inclui uma feira de zines e edição independente no restaurante / bar Cinema Paraíso. A exposição (entretanto itinerante) åbroïderij! HA! - International Graphic Arts visitou a Casa da Animação, Biblioteca de Abrantes e o Festival Outfest (Barreiro).

A nível de documentos sobre edição independente, no Almanaque do Festival de BD da Amadora são reconhecidos os esforços da cena independente como o Mutate & Survive (2001), Zalão de Danda Besenhada (2000), El Pep, Gajos da Mula, embora pese alguma confusão em assinalar projectos como o fanzine Zundap e Opuntia Books, uma vez que não são exclusivamente de bd mas «podia ser pior…»

  

-- Lá fora (mas cada vez mais cá dentro)

Continuam a ser publicados autores portugueses em edições estrangeiras: Ana Cortesão na revista universitária Splot (Polónia), Jorge Coelho e Pepedelrey na antologia The Passenger (Itália), André Lemos e um texto sobre bd portuguesa no jornal Kuti (Finlândia), Filipe Abranches na antologia Greetings from Cartoonia editada pela revista Stripburger (Eslovénia) e creio que as habituais participações no zine suíço Milk + Wodka.

Os convites para fora intensificaram-se: André Lemos e Pedro Moura estiveram em Charloteville (EUA) com a exposição Divide et Impera, Jucifer foi à SPX de Estocolmo, Filipe Abranches foi a Ljubjana por causa do Greetings from Cartoonia, Marcos Farrajota foi à comemoração dos 20 Anos da Fanzinoteca de Poitiers (França) e uma grande comitiva a representar a Chili Com Carne foi ao Festival Crack (Roma) - Jucifer, André Lemos, Marcos Farrajota, José Feitor, João Maio Pinto e ainda o impressor de serigrafia António Coelho (Mike Goes West). Participaram também a Chili Com Carne e El Pep no Festival de BD de Angoulême.

De realçar em relação ao Crack que a Chili com Carne cuidou da edição da antologia do evento, intitulada Crack On com trabalhos de autores portugueses, italianos, suecos, franceses e dos Balcãs. E essa não foi a única participação internacional no plano da colaboração editorial, junta-se o projecto Greetings from Cartoonia com a Chili Com Carne a ser a parceira oficial do projecto para representar Portugal – havendo ainda colectivos da Roménia, Polónia, Itália, Noruega e Finlândia ao barulho. E ainda a co-impressão de Caminhando Com Samuel de Tommi Musturi, com a MMMNNNRRRG a participar neste livro com outros editores independentes da Finlândia, Suécia e Bélgica. Neste último caso, dividindo custos de impressão por quatro partes, baixou os custos de produção de um livro luxuoso (capa dura, a quatro cores, 140 páginas) - é uma pista para o futuro, mostrando que não deve ser só as grandes Vitamina BD e Asa a serem as únicas a trabalhar desta forma.

Por fim, neste capítulo, veio também para a Bedeteca de Lisboa a exposição do livro/ antologia finlandesa GlömpX que explora a tridimensionalidade da bd, uma exposição ousada tal como a antologia. A exposição esteve patente durante a Feira Laica, tendo visitado três autores finlandeses participantes – e não esquecendo, a participação também na Laica, do colectivo Stripburger com dois autores a apresentar o jogo-bd Stripble, também mostrado na Mula Ruge.

  

-No meio (?)

A necessidade de espaços físicos para escoar a criação e produção (nacional e estrangeira!) foi um placebo este ano, começou com um “bang” e acabou num “puf”. Houve excepções como a abertura da Casa Ruim (em Torres Vedras), a união da loja Matéria-Prima (do Porto) à Galeria Dama Aflita (a única galeria que se dedica à ilustração) e a continuidade da programação da galeria na loja Mundo Fantasma. Do que me referia em onomatopeias aconteceu em Lisboa, com o espaço “diferente” e “alternativo” CHILI! que durou sete meses.

Sendo um dos sócios e o programador da minúscula sala de exposições, destacava algumas exposições ligadas a este tema: a do suíço Nicolas Robel (que dirige a editora B.u.l.b. Comix), Luís Henriques que tinha o livro de autor Time Life Life Time lançou pela Opuntia Books e ainda uma comemoração do zine Shock que mostrou trabalhos de Estrompa e José Lopes. No espaço havia também uma componente de loja de cultura alternativa – incluindo bd e ilustração ou edições alternativas – que sustentava a maior parte de espaço, e devo desvendar o facto do espaço ter fechado não foi por problemas financeiros ou comerciais mas apenas por desentendimento com um dos sócios, o que impossibilitava a “part-time” sustentar uma estrutura deste tipo. E nesse aspecto, não há problema nenhum, uma vez que não nutro simpatia pelo adágio “o segredo é a alma do negócio”, em revelar que gerir um espaço “só com material alternativo” não é um suicídio comercial! A verdade é que na loja vendeu-se de tudo: zines de um mero euro, livros da Imprensa Canalha ou da Canicola de preços “normais” (entre os 10 aos 20 eur), edições luxuosas do Le Dernier Cri ou o último número da antologia Kramer’s Ergot (cujo preço era de 125€!).

A verdade da fórmula é simples e já vinha encriptada na pretensiosa apresentação da inauguração do espaço: «É sempre com um orgulho que os lisboetas ouvem os estrangeiros falarem da sua cidade. E adoram ouvir o cliché da Luz da Cidade. Mas os lisboetas esquecem-se que a Luz que os estrangeiros falam não é Luciferiana, é apenas aquela cujos raios solares oxidam a matéria até à sua obliteração. Lisboa de Iluminada nada têm, é medieval sobre vários prismas. (…) era constrangedor explicar aos tais estrangeiros porque é que nesta capital europeia não havia um espaço dedicado às margens sonoras e gráficas.»

Não havendo espaços que tenham publicações alternativas nessa “grande cidade europeia e capital de Portugal”, existe uma clara necessidade de um espaço assim – na comemoração da mais pura e dura Lei da Oferta e da Procura! Seja para os “locais” e os “nacionais” seja para esses tais estrangeiros sedentos de levar edições deste canto europeu que tanto gostaram de visitar. E aproveito para fazer um parêntesis em relação aos últimos, um turista em Lisboa não encontra publicações de bd portuguesa em lado nenhum, seja nas cadeias de lojas (Fnac, Bertrand, etc…) ou no mercado livreiro porque há muito que não tem as edições dos tempos áureos da bd (Bedeteca de Lisboa, Polvo, etc…) como não se tem editado quase nenhuma bd portuguesa nos últimos anos em casa editoriais com distribuição profissional. Não sendo aqui a secção do Dossiê para uma discussão sobre mercado de bd – deixo isso para as “Edições” – serviu esta advertência só para explicar este ponto de vista “turístico”. E já agora, mais outra “boca-parêntesis”, desta feita para as lojas especializadas que também ignoram a produção portuguesa (com honrosas excepções!).

A fórmula? Bom… seria uma equação simples de 5 variáveis: espaço bem localizado, sócios sérios, boa promoção, programação dinâmica e envolvência com a comunidade. Utopia? É bem provável não se conseguir as cinco variáveis mas pela experiência bastaria três destas condições perfeitas para um projecto deste tipo poder avançar, evoluir e vencer. Até o Obama diria “yes we can-can”.

sábado, 30 de maio de 2009

"Porque Portugal não gosta de si…" in Splaft! #5 (Bedeteca de Beja; 2009)

O Marco Mendes (1978, Coimbra) desde 2004 têm se afirmado como autor de bd’s “pedaços-da-vida” registadas como autobiografia e desenhadas de forma suja e urgente, ao contrário do que as suas participações na antologia Mutate & Survive (Chili Com Carne; 2001) e na revista Quadrado (Bedeteca de Lisboa; 2003) apontavam. Nessas publicações vamos encontrar um virtuoso desenhador de estilo “Pop Art” ou seja, com tudo limpinho, bonitinho, em ordem…

Não sei o que aconteceu em 2004 mas é nesse ano que Marco junta-se a Miguel Carneiro e outros artistas para criarem o colectivo Os Gajos da Mula (no Porto) e desatam a editar zines com títulos escabrosos como Paint Suck’s!, Lamb-Heart (onde são publicados fantásticos desenhos de Marco quando era puto!), Hum, Hum! Estou a ver!..., Estou careca e a minha cadela vai morrer e Cospe Aqui. Mais recentemente faz com Janus o zine O projecto de fecundar a lua e com a sua companheira Lígia Paz o Carlitos.

As bd’s que publica em todos estes títulos parecem “inacabadas” – ou seja, estão “ainda” a lápis, não foram passadas a “limpo” (ou a preto), algumas pranchas até tem algum ensaio de cor. A perícia técnica “naturalista” a que a maior parte da bd está associada está lá mas parece que estamos antes a ver esboços do que um “produto final” até porque os textos estão cheios de palavras riscadas ou saem dos limites dos balões ou das caixas. A urgência de puxar a realidade para uma folha de papel ultrapassa os formalismos e convenções de escrita e do desenho que habitualmente estamos habituados a ver/ler na bd. O que é necessário é colocar o amigo Janus, por exemplo, entre outras pessoas reais a falarem banalidades - e de preferência embriagados.

Marco vive uma altura fantástica no que diz ao mundo da bd – aliás, é a BD que vive uma altura fantástica de expansão no mundo infiltrando-se tanto na galeria de arte (por acaso Marco é representado por uma) tanto como na livraria generalista tal é a riqueza de propostas que tem oferecido nas últimas décadas. Uma das razões desta riqueza deve-se também aos desenvolvimentos tecnológicos da impressão que permitem reproduzir as tais “bd’s inacabadas” com uma qualidade impensável para quem se via à rasca (por exemplo) com a fotocopiadora dos anos 80. Marco tal como muitos autores a nível mundial - da Anke Feuchtenberger aos Elvis Studio, da Amanda Vähämäki ao Brian Chippendale - podem imprimir as bd’s “urgentes” em formatos baratos, como um zine fotocopiado, sem ter de passar pelos processos de desenhar o lápis e depois a tinta onde se costuma perder a espontaneidade do primeiro registo.

Desde os anos 60 que se tem quebrado a lógica da divisão de tarefas na bd – vindo do “fordismo” dos “comics” desde anos 30. Robert Crumb e Moebius cada um do lado do Atlântico e à sua maneira trouxeram a “escrita automática” e o “cadáver-esquisito” para a bd. Harvey Pekar trouxe a autobiografia tão ou mais importante que as “freakalhices” dos outros dois monstruosos autores. Finalmente na bd podíamos TER realidade… um registo do que é o mundo em bd – algo impossível de ter com as distorções caricaturais ou escapistas que a bd estava associada.

Em Portugal existe “bd de autor” desde 1975 com a revista Visão mas são poucos as obras que digam o que “é Portugal” na bd. Na Visão apareceram alguns contos sobre o Ultramar, aqui e ali pode-se encontrar algumas aproximações biográficas (mais “realistas”? mais “intimistas”?) da sociedade portuguesa pós-25 de Abril - Relvas, Luís Félix, Diniz Conefrey, Ana Cortesão, Janus e até Arlindo Fagundes poderão estar nesta mini-lista que tem origens em Raphael Bordalo Pinheiro e ruptura em Carlos Botelho.

Daqui umas décadas os Historiadores ainda irão pensar que a bd é um produto infantil porque terão dificuldades em encontrar obras que lhes digam o que raios os portugueses sentiam, faziam ou que paisagem lhes rodeava desde 1950 (ano que Botelho deixa de fazer os “Ecos da Semana”), no máximo poderão saber que havia boémia e uma cena artística no Porto ou empregos miseráveis em Portugal!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2008 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2008)

Só se fala em crise neste nosso país mas parece que a máxima “em tempos de crise é que aparece a criatividade” acaba por ser verdade. Não que tenham aparecido muitas inovações, como aconteceu nos anos 90 e princípios de milénio mas pelo menos no mundo da edição independente – seja fanzine, zines, livros de autor – tem havido massa crítica o suficiente nem que seja para escrever um texto como este.

 

Muitas páginas, apesar da crise…

Desde já, é de constatar que continuaram a ser publicados os seguintes fanzines e zines: o Boletim CPBD, Facada de Tiago Baptista, [R]eject de Andreia Rechena, Tertúlia BDzine e Efeméride ambos editados por Geraldes Lino. Regressou o Gambuzine de Teresa Câmara Pestana, agora como uma nova numeração / nova série. A Joana Figueiredo lançou mais um zine com um título marado – desta vez é o Post Shit que fez tanto sucesso no Crack (Roma) e no Festival de Helsínquia que acho que não deve ter chegado a ser divulgado em Portugal… - e Os Gajos da Mula lançaram Fantôme Galicia. O autor algarvio Phermad lançou a colectânea De trute ise aute der que compila bd’s publicadas no seu antigo projecto, o zine Terminal.

Novinhos em folha foram Znok de Filipe Duarte e Faixa 9, um zine dedicado a «ambiências musicais em BD». E apareceu o um novo colectivo gráfico, o Hülülülü, que lançou cinco títulos em poucos meses de actividade – nada mal uma vez que o ano passado queixava-me que não havia uma nova geração de autores.

Em formato mais profissional saiu o número dois do Alçapão – fanzine de arquitectura dura que incluiu uma bd de João Sequeira e muita (boa) ilustração; Le Sketch, projecto de Paulo Patrício; os Opuntias Books materializaram-se em três novos títulos com aspecto luxuoso e muito apelativo; a Kingpin lançou os terceiros volumes das suas séries; a Imprensa Canalha editou mais uns graphzines e a antologia Cabeça de Ferro; a Chili Com Carne lançou um volume de Mercantologia, colecção dedicada a recuperar material dos zines, intitulado Noitadas, Deprês e Bubas que reedita bd’s antigas do Mesinha de Cabeceira. A Bedeteca de Beja continuou o Venham+5 (num formato de antologia na linha da revista Quadrado ou do Mutate & Survive) e a colecção Toupeira com uma bd de Susa Monteiro.

Novidades: saiu um livro intitulado Murmúrios das Profundezas que apesar de ter resultados muito pobres a todos níveis (o texto, as adaptações, os desenhos e técnica das bd’s e o design) é interessante porque é um projecto sinergético e colectivo para um país cheio de individualistas. Copiando o “template” que foi o Virgin’s Trip (El Pep; 2006), reúne autores envolta de um tema comum, neste caso estórias do H.P. Lovecraft que são adaptadas para bd. O esforço de fazer um livro “grande” é assim partilhado e sendo colectivo tem mais hipóteses de chegar a mais público também. Creio que podia ser um bom modelo para que a haja mais edição em Portugal… Apareceu uma nova editora, a Plana Press que lançou dois títulos: Pandora Complexa 500 de Julio Dolbeth e Rui Vitorino Santos (de ilustração) e Tomorrow the Chinese Will Deliver the Pandas de Marco Mendes (de bd). E a Associação Cinema Ao Norte iniciou uma nova colecção de bd, O filme da minha vida, onde já saíram dois títulos, um de André Lemos e outro de Daniel Lima. O Serrote estreou-se na edição de livros de ilustração com Minho e Nouveau Dictionnaire de Français, ambos de Nuno Neves.

De referir também o livro Os Frescos da Aldeia das Amoreiras editado pelo Centro de Convergência / GAIA, que documenta uma experiência de bd na forma de pintura mural numa aldeia alentejana.

 

De um lado para o outro

 A Aldeia Global continua em alta, especialmente necessária para abrir as cabeças periféricas portuguesas a novas ideias, experiências, contactos e projectos.

Passaram por Lisboa no âmbito da exposição Honey Talks o autor Jakob Klemencic (publicado em Portugal pela Polvo e Chili Com Carne e na Quadrado) e o editor David Krancan, ambos da revista eslovena Stripburger; o colectivo brasileiro do zine Bongolê Bongoró esteve no evento Brucutumia 2008; o francês Guillaume Soutlages esteve durante a Feira Laica na Bedeteca de Lisboa; a sueca Kriistina Kohlemainen (organizadora da SPX de Estocolmo) foi convidada para os colóquios Banda Desenhada e Bibliotecas, e o polémico autor norte-americano Mike Diana esteve no Furacão Mitra. Ainda de referir as autoras finlandesas Anna Kaisa Laine e Tiitu Takalo que acidentalmente caíram (de pára-quedas?) na Feira de Fanzines de Almada e Feira Laica de Coimbra.

Mas também houve o inverso, portugueses a visitarem eventos internacionais como representantes da Chili Com Carne que foram ao Festival de Angoulême (França), SPX (Suécia), Crack (Itália), Festival de Helsínquia – também a Chili Com Carne foi representada no Boom Fest, em S. Petersburgo. Filipe Abranches esteve nas Xornadas de BD de Ourense e os Gajos da Mula foram ao Proxecto Edición em Pontevedra (Galiza).

A nível de publicação, alguns autores portugueses participaram em publicações estrangeiras como Filipe Abranches na Stripburger e Splot (Polónia), uma série de autores no habitual zine suíço Milk+Wodka, Teresa Câmara Pestana no zine feminino e finlandês Irtoparta, Richard Câmara no zine espanhol ARGH!, o autor destas linhas no «jornal ilustrado com um mês de atraso» Aooleu (Roménia), e como sempre André Lemos é o autor mais internacional que colaborou nos seguintes zines (espero ter apanhado todos!): La Commissure (França), Zine Arcade (Inglaterra), Lazer Artzine (Bélgica) e Elk (EUA).

 

 Ao metro quadrado

 A questão de espaços e eventos tem sido cada vez mais notável e importante na cena independente uma vez que ao acesso de edições “indies” estarem vedadas ou ignoradas pelo mercado livreiro e até das ditas “lojas especializadas”.

Foi um ano em que em Lisboa fecharam a loja de Design Goma 386 e a galeria Work&Shop, sítios que comercializavam produções independentes e organizavam exposições de ilustração e bd. Em compensação, as lojas Central Comics, Kinpin Books e Mundo Fantasma reformularam os seus espaços dando uma maior dinâmica à produção nacional, e no Porto abriram a Dama Aflita e a Inc., a primeira é uma galeria dedicada à ilustração e a segunda uma livraria de edições de autor.

Talvez pela falta de estabilidade dos espaços comerciais portugueses é que se tem solidificado cada vez mais eventos “indies” em volta da edição, cada vez mais com uma programação ousada. Este ano houve três edições da Feira Laica, as segundas edições da MAGA nas Caldas da Rainha e do Bunny Weekend em Lagos – e o celebrado Furacão Mitra. Foi o ano de uma Feira de Fanzines de Almada que mais valia não regressar já que a organização actual do evento é incapaz de envolver a comunidade fanzinista na sua programação.

Desapaixonado este texto? Sim, sem dúvida… As edições relatadas também o são? Nada disso, não me permitindo fazer muitos juízos de qualidade – por várias razões, entre elas porque estes relatos não o permitem e por outro fazendo eu próprio parte da “cena”… Que giro! É que existe mesmo uma “cena”! – mas dizia, não me permitindo a fazer esses juízos, só há algo a fazer, é procurar estes títulos, estas editoras e julgar por si mesmo.

Como tudo na vida encontrará coisas que não serão do total agrado, outras pelo contrário serão revelações mas só nesta “cena” é que poderão desfrutar prazeres narrativos e estéticos porque de resto, na sua livraria predilecta a bd deixou de existir – não sei que dirá o Daniel Maia este ano nas “Edições” – tal como acontecia até aparecer a Bedeteca de Lisboa em 1996. Resumindo, nas livrarias não acontece nada… se existe algo é no mundo dos fanzines!