Do you want Total War?
Boyd
Rice
Para a análise dos “Fanzines” do
Dossiê 2006 decidi, este ano, não fazer distinção entre Fanzines, Zines,
Prozines, Edição Amadora, Edição DIY, Edição Independente, Edição de Autor,
etc… porque para além das diatribes já terem sido lançadas no Dossier 2005 (e
também em http://chilicomcarne.blogspot.com/2006/07/mais-esforos-aborrecidos-ou-quantas.html), para mais, em mais um ano “na fossa”, 2006
foi um ano rico em experiências no mundo da “pequena imprensa”, diria mesmo,
que foi neste mundo onde surgiram as obras mais interessantes dado o deserto da
edição comercial.
Tal com a revista Times colocou
um espelho na sua capa para eleger a Personalidade do Ano de 2006 – “You.”
(você ou nós a população mundial – ou aquela com acesso à www) – devido à
capacidade da Humanidade gerar cada vez mais Cultura fora dos malefícios das
“grandes companhias” graças a serviços informatizados cada vez mais utilitários
(apesar do Youtube, Blogger, POD, etc… serem serviços de grandes empresas),
pouco a pouco também (em Portugal) tem aumentado a capacidade de edição de
objectos físicos feitos por indivíduos ou colectivos sem grandes recursos
materiais e capitais.
Creio que se o mercado comercial
da bd está em crise, a culpa é dos “pequenos”, daqueles autores e editores que
foram ridicularizados pelos apreciadores da bd comercial – que não achavam que
o Maus de Art Spiegelman fosse bd porque não servia para rir, ou que os
“autobiográficos” não passavam de autores preguiçosos. Ora do que se fala nos
Media tem sido autores como
Chris Ware, Craig Thompson, Robert Crumb, Joe Sacco, Marjane Satrapi… Ou ainda,
por exemplo, no fim deste ano, em Itália, foi lançada uma colecção de “graphics
novels” (que incluía Maus, Palestina de Joe Sacco, Mattotti…) que se vendia
com o jornal La Repubblica.
Não me parece muito convincente o que se continua a editar por cá. Neste novo
milénio as nossas editoras de bd (ou editoras que editam bd) ainda lançam
apenas bd’s de super-tipos com cuecas de fora ou álbuns europeus – em que seja
qual for o género (História, Western, Policial, etc…) tem sempre uma cena
picante, ali mesmo: entre uma conspiração na Corte e uma Cruzada. O panorama da
bd portuguesa mudou quando houve um período dinâmico da edição portuguesa entre
1996 e 2001 (em grande parte graças aos apoios da Bedeteca de Lisboa). Os
gostos mudaram, os leitores habituaram-se a ler bd portuguesa ou bd de autor
mas são os sabujos álbuns europeus que ainda mais se editam em Portugal
não deixando espaço público para os “indies”.
Tem sido esta a batalha da
“pequena imprensa”: criar não só o seu próprio espaço de exposição pública como ainda criar novos
públicos. E por isso que o primeiro destaque de 2006 que faço vai para duas
“pseudo-entidades” que animaram a vida cultural da bd, ilustração e edição
independente quase durante o ano todo (literalmente desde Janeiro até Dezembro
de 2006), no Porto e em
Lisboa. Falo d’A Mula e da Feira Laica, “feiras de zines e
edição independente” com exposições de originais incluídas (e mais do que isso,
no caso da Feira Laica, que incluía artesanato urbano, comida vegetariana,
produtos culturais muito baratos fossem de origem fossem em segunda mão), a
primeira esteve residente nos Maus Hábitos no primeiro trimestre e ainda andou
por Sto. Tirso, Braga e Vigo (Galiza). A segunda, realizou a «MAIOR
feira de edições independentes» (zines, livros, discos) nos jardins da Bedeteca
de Lisboa e programou quase três meses de actividades no Espaço – Centro de
Desastres até culminar numa feira de natal. No primeiro caso, ainda de
salientar o lançamento do Cospe Aqui, maníaco-zine do mesmo grupo organizador
do evento, ou seja a dupla Miguel Carneiro
e Marco Mendes, bem como os
colaboradores (André Lemos, Manuel
João Vieira,…), verdadeira lufada de ar fresco no meio.
Rompendo para o exterior
Mais um ano e mais alguns casos
de autores saíram do “anonimato” para registos “oficiais” ultrapassando as
instituições públicas onde se encontram as colecções para novos autores como a Lx Comics da Bedeteca de Lisboa - que mais uma vez falhou em lançar novos
autores. A respectiva colecção Toupeira, da Bedeteca de Beja, só conseguiu
lançar um número.
Em 2006, a iniciativa foi
privada dada à contínua desorientação pública, em que assistimos aos regressos
das editoras Polvo, Nova Comix e
Pedranocharco, bem como da El Pep e da Má Criação,
dos quais destaco as últimas duas por estarem a trabalhar de uma forma
colectiva - essa palavra alienígena em Portugal – como foi o caso do Virgin’s trip (El Pep), uma história desenhada por vários ilustradores (Pepedelrey, Jorge Coelho, Lacas
e Rui
Gamito) e Dias Eléctricos (Má
Criação), várias histórias escritas por um autor (Luís
Rainha) e desenhada por autores consagrados (João
Fazenda, Daniel Lima)
e novos talentos vindos dos cursos da escola Ar.Co.
Espero que esta forma de trabalho seja para continuar.
Como novas experiências
profissionais DIY apareceram dois “comics” (de continuação) da loja Kingpin of Comics e a revista de humor HL Comix do
autor Derradé que lançou dois números nas bancas.
Uma revista que apostou na bd foi
a Underworld – Entulho
Informativo, dedicada à música underground, que publicou 2 páginas de bd nos
quatro números de 2006: o sérvio Aleksandar Zograf, o português João Maio Pinto, e os polémicos norte-americanos
Dirty Danny e Mike Diana.
Literalmente para fora, para o
estrangeiro, continuaram as colaborações nacionais no zine suíço Milk+Wodka, André Lemos participou em vários projectos pela
Europa fora (Bongout, Le Dernier Cri, La Commissure, 5eme Couche), Pedro Nora e Isabel
Carvalho na antologia finlandesa Glömp, Isabel também participou na antologia
de bd no feminino … de ellas (Edicions De Ponent) e João
Maio Pinto em duas antologias da 5eme Couche.
Sucedâneos?
Enquanto o formato “fotocópia
barata” vai sendo descartado pelos novos autores / editores – que preferem a
Internet ou imprimir edições com aspecto profissional – e ao mesmo tempo que o Succedâneo fez 10 anos em Abril (e suspendeu actividade no número -31 que era
um carro de rolamentos!) na Bedeteca de Lisboa, surgiram dois novos projectos
que seguem as pegadas do Succ: usam o formato fanzine mas com maiores
preocupações de produção, apostam em boas fotocopias, assumem o facto de serem
edições limitadas e como tal especulam na sua raridade. Foram eles a Imprensa Canalha com três projectos, a saber, o Néscio, Mundo dos Insectos (de José Feitor) e Belo Cadáver; e a Opuntia
Books também com três títulos monográficos de André
Lemos, Bruno Borges e Frederico (uma criança de 4 anos). Nas
folhas destes projectos vamos encontrar algumas bd’s ou colaborações de autores
de bd como Filipe Abranches,
Rosa Baptista...
Por fim,
Continuaram a revista Sketchbook (que acabou ao terceiro número), o zine mutante (agora antologia /
livro) Mesinha de Cabeceira pela Associação Chili Com Carne,
a revista Venham +5 da Bedeteca de Beja, os zine Aqui no canto (especial Aqui no cantinho com
uma bd para crianças), O Hábito faz o monstro, Durty Kat, Jazzbanda e
mais um título bombástico da Joana Figueiredo…
Saiu o Allgirlzine (zine de bd
no feminino organizado por Daniel Maia), Alçapão, zine dedicado à «arquitectura dura» com um bom grupo de ilustradores
e autores de bd a colaborarem, e 24h volta em Portugal em bd (pelo colectivo
Dr. Makete) que embora seja um zine é descrito como um «um livro de bd com 24
histórias diferentes realizadas em 24 horas em 24 locais diferentes».
Power to the people!
Marcos Farrajota