quarta-feira, 31 de dezembro de 2003

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2003 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2003)

Foi o ano de ruptura total das características verificadas noutros anos: os fanzines com periodicidade perderam-na (excepto o novo Espiral), relações com a Multimédia não foram mais exploradas e não houve quase nenhuma internacionalização (com a excepção da grande participação no zine suíço Milk & Wodka #IIII).

O cenário de pobreza e falta de energia só se explica com a ausência de uma nova geração de autores que a bd (no geral) nos últimos 3 anos não tem conseguido parir. Se olharmos para os autores de zines que foram envolvidos em projectos profissionais só temos o José da Fonseca a ser publicado no Lx Comics #14, e mesmo assim, é da geração d’A vaca que veio do espaço, um colectivo dos anos 80!

Haverá só uma crise geracional? Também, e uma económica que deve explicar a ausência de mais zines. Mesmo para um tipo de produção barata como a dos zines exige algum tempo e dedicação. Nestes tempos stressados que vivemos percebe-se que há pouco “tempo-é-dinheiro” para os zines.

Ainda assim continuaram: Durty Kat (da Ana Ribeiro), Terminal (com 4 números de uma só vez), Saboniz (dedicado a ilustração e design por Nuno Valério), o velho Shock (com o Tornado do Estrompa a comemorar 10 anos), Carneiro Mal Morto, Porca Frita e Notibó (ambos das Caldas da Rainha), o eterno extravagante Succedâneo (de João Bragança), Zundap (zine de cultura Pop e com morte anunciada para 2004), Sub (de Pitchu!) e O Papel do Monstro (de estudantes da FBAUL). E dos que continuaram o que teve mais impacto foi o Ups! (da Guarda) que foi acompanhado por uma exposição e que recrutou ainda os talentos de Rafael Gouveia, Filipe Abranches e André Lemos.

Novos títulos: O/velha Negra (da Madeira), Espiral (de Noé Touraldo), A Carne (de Ana Ribeiro e Miguel Tavares) e Jungle Juice (de Rute Santiago e Pitchu!). Não houve o Na verdade tenho 60 anos mas Joana Figueiredo editou os novos mini-zines Menina Jesusa e Chicken Bloody Rice, ambos de ilustração e o último com restos (falsos) de arroz de cabidela que ainda assim fez um cromo da bd vomitar!

Feiras pelo país inteiro: Caldas da Rainha, S.Romão, Cacilhas (devia ser o ano da Feira de Fanzines de Almada mas tal não aconteceu infelizmente), Cascais, Lisboa (Salão Lisboa, Estufa Fria, ZDB Tercenas), a maior parte delas organizadas pelo colectivo Crime Creme ou pela Associação Chili Com Carne. Houve uma exposição de fanzines em Viseu intitulada Cidade Desconhecida e ainda participação de alguns títulos em eventos como o Mercado Negro (Porto) e Mundo Mix (Lisboa). A maior feira dedicada às edições alternativas foi Fantasias de Natal (no Cais do Sodré), organizada por um grupo entre os quais incluía o zine Succedâneo e Associação Chili Com Carne.

Foi também um ano parado em edições independentes. Começou bem, logo em Janeiro com A última grande sala de cinema de David Soares mas ficou por aí! Ainda houve dois novos números do prozine Satélite Internacional do colectivo Alíngua e o novo prozine CanibalCriCa Ilustrada (Mesinha de Cabeceira disfarçado!) da Associação Chili Com Carne.

Frente a esta miséria medieval, o que dá para concluir é que os projectos que mais se destacaram em 2003 foram os que resultaram de esforços conjuntos – de colectivos. Num ano em que no Salão Lisboa esteve presente o associação eslovena Stripcore – que levou a desconhecida bd eslovena à internacionalização, num país com menos condições do que o nosso! – não se pode dizer não há bons exemplos para conhecer e copiar. Não é à toa que destaco Puro Capricho, uma estranha brochura do colectivo In Útil que saiu durante uma exposição de artes plásticas na Galeria Parthenon. Trata-se de uma fotonovela realizada e produzida pelo colectivo e paginada por Miguel Rocha. A atmosfera da fotonovela lembra ingenuamente as bd’s de Miguel Angél. Martin pelo “gore” cirúrgico e é o caso mais feliz em volta da bd e edição independente para 2003. O irónico disto é que este trabalho cheio de frescura resulta de esforços conjuntos de pessoas à margem da bd e da edição - se excepturamos o Miguel Rocha que era um convidado do colectivo. A união faz a força? Sem dúvida...

terça-feira, 31 de dezembro de 2002

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2002 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2002)

Ano de todas os paradoxos na bd portuguesa, 2002 foi o ano da crise económica-etc-nacional mas também o ano da explosão editorial que ninguém estava à espera. Ao que parece já se pode falar em mercado em Portugal - que felicidade é o Capitalismo, não?

Os fanzines continuaram a sua marcha mas romperam com as tendências registadas nos últimos dois anos: a periodicidade dos títulos deixou de ser cumprida (ex.: o Succedâneo só editou dois números quando editava 6 por ano!), não houve novidades nos formatos multimedia nem transferências de autores “amadores” para formatos profissionais – continuamos à espera de uma nova geração, tão frenética como a de 2000? Nem o intercâmbio internacional evoluiu por ai além, tirando o António José Lopes que participou na antologia eslovena MadBurguer.

Então o que se passou?

- Saíram monográficos: Há uma luz que nunca se apaga de José Lopes (editado por Geraldes Lino) e Zé Messias deputado de Artur Varela (pela Zundap), e ainda os auto-editados Uma porta serve para entrar como para sair de Pedro Moura e da coreana Koh Eun-Kang, Aconteceu de Rohke Vorne e Phermad, e Paris morreu de Nuno Duarte e Pepedelrey, todos eles criando os seus selos editoriais, Montesinos (de Pedro Moura em Seul), Dr. Makete (de Vorne) e El Pep (de Pepedelrey).

- Foram organizadas muitas feiras de fanzines e de edição independente em festivais de música (Noites Ritual, Musa, SleazeyFest, Anti-Corpos), uma na Ilustração Portuguesa 2002 e várias outras com destaque para uma organizada pelo artista João Fonte Santa num espaço de exposições do Chão de Loureiro; outra, na Lousã, organizada pelo Gambuzine; e a mais mediática, “Natal Subterrâneo”, organizada pelo grupo Família Alternativa. Só o Festival da BD Amadora é que pela segunda vez consecutiva não se interessou por uma feira de fanzines - e ainda bem, dado o mau gosto galopante e exacerbado da edição deste ano até dava mau nome aos fanzines estarem-lhe associados!

 - De fanzine para o prozine: o Mesinha de Cabeceira comemorou 10 anos de existência e editou dois números pela MMMNNNRRRG em formato profissional, tal como os dois números anteriores editados pela Associação Chili Com Carne. O fanzine A Língua acabou em 2001 mas o colectivo reencarnou este ano com uma revista cheia de potencial, o Satélite Internacional.

 - Circularam os fanzines de bd ou com bd: Bactéria, Sub, Carneiro Mal Morto, Gambuzine, Terminal, Durty Kat, Succedâneo, Improvisos na toalha da mesa, Na verdade tenho 60 anos e Zundap. Das Caldas da Rainha – um viveiro hermético de zines porque não saem para fora do círculo de estudantes do ESTAG – surgiu a Porca Frita, e em Lisboa o Cadavre Exquis aliás Cadáver Esquisito, um fanzine editado por Geraldes Lino e que publica o resultado de uma bd colectiva.

E por fim, a GRANDE novidade foi o lançamento recente (no Natal Subterrâneo) do fanzine mais pequeno do mundo (deve ser com 90% de probabilidades). Pecarritchitchi, o fanzine enfezado é fruto das mãos de João Bragança (do Succedâneo) e que conseguiu fazer páginas no tamanho de um cêntimo. O trabalho que o autor tinha vindo a desenvolver no Succedâneo não sofreu perdas de qualidade com a mudança de formato. Continua inteligente, com humor, "assemblages" e fotografia... Uma edição que remata qualquer espécie de acusação de “depressão criativa” nos fanzines de 2002!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2001

Relatório Fanzines BD Portuguesa de 2001 in Contador-mor #15 (Bedeteca de Lisboa; 2001)

Este ano, a área dos fanzines concretizou-se em mais uma mão cheia de propostas cheias de energia e inovação, mesmo quando se pode apontar para algumas das tendências registadas em 2000.

As tendências... a) Namoros com a tecnologia: mais um fanzine em CD-ROM (pelo colectivo Extractus), mais páginas web: Bizarro, A Língua, Os Positivos e Zundap, e o grande vencedor, Gritante. Um livrinho com uma bd muda acompanhado por um CD que tem a sua banda sonora mas também video-clip, música electrónica e a bd transformada em animação, teve uma instalação no Salão Lisboa, é preciso dizer mais? b) A periodicidade: para A Língua, Durty Cat (estreia da Ana Ribeiro) e Gambuzine é trimestral, para o experimental Succedâneo é uma corrida de dois em dois meses sem perder a qualidade e a loucura... veio à Bedeteca lançar um número e fez 5 anos de vida, parabéns! c) Os autores pescados para os formatos profissionais: Esgar Acelerado para o Blitz, Francisco Vidal e Pepedelrey para a colecção LX Comics.

Quanto a circulação de títulos: o Carneiro Mal Morto voltou, lançaram-se o Ex-Man (fanzine de ilustração por Miguel Carneiro), o Na verdade tenho 60 anos (de Joana Figueiredo) e o Zundap (de cultura Pop mas que muito destaca a bd e ilustração nas suas páginas), continuaram o Bactéria, o Bizarro, o Sub e o The Killer Season Fanzaíne, o autor Janus voltou com Amaldiçoado. Pelo meio fica o catálogo de fanzines organizado pelo Gambuzine que pouca funcionalidade tem devido à irreverênciazinha e às gralhas informativas. Pena. Fica para a próxima.

As novas foram os MEGAprojectos (abusadores do conceito?): no Salão Lisboa saiu um número especial do prozine Mondo Bizarre com bd’s de meia-dúzia de autores a abordarem vários géneros de música popular; O Independente tentou uma revista com espirito fanzine (sentiram alguma contradição aqui?), a Cindy seria um misto de DN Jovem e Bíblia dizia-se mas ficou pelo número zero (tal qual a saudosa revista Ai-Ai), a crise económica não perdoo; e, a Associação Chili Com Carne em coordenação com a Frente Fanzinista Internacional (a mesma do Zalão de Danda Besenhada) editou o livro (um MEGAfanzine!) Mutate & Survive de 200 páginas com 77 autores de 16 países diferentes. Neste último projecto, para além do tratamento de luxo aos fanzinistas participantes espera-se que se quebre o gelo dos tímidos portugueses com o resto do mundo.

E neste campo, há novidades, encontrámos vários portugueses em fanzines estrangeiros: Bouche du Monde (França), Milk & Wodka (Suiça), Stereoscomic Special SPX (França) e Stripburger (Eslovénia).

domingo, 31 de dezembro de 2000

Relatório Fanzines BD Portuguesa de 2000 in Contador-mor #8 (Bedeteca de Lisboa; 2000)

O "Zalão de Danda Besenhada, o último salão dos independentes", para além de ter exposto bd de outra forma, conseguiu reunir num projecto comum os melhores fanzines de Lisboa e Porto dos fins dos anos 90 num primeiro grande projecto que uniu autores das duas cidades.

Autores dos fanzines criaram editoras ou foram editados em livros: Círculo de Abuso (David Soares, Pedro Nora), MMMNNNRRRG (Janus) e Nova Comix (Isabel Carvalho, Jacques Creswell) para além dos novos números da colecção LX Comics. Foi dado um passo em frente que talvez possa vir a resultar no ténue movimento associativista que, embora especulado em 1995 num número do Comtrastes, não chegou a cumprir-se.

Novas tecnologias: o primeiro CD-ROM de bd (NetComixZine #2), bd por e-mail (Cru On-line) e passagem do Terminal para www.

Ritmos alucinantes de edição: Gambuzine trimestral e Succedâneo bimestral!

Promessas de novos números do Cru e d' A Mosca que não chegaram a acontecer. Em compensação o Carneiro Mal Morto e o Mesinha de Cabeceira voltaram. 

Muitas Feiras de Fanzines pelo país (o Festival da Amadora voltou a dar atenção aos 'zines apesar do aspecto de covil do stand) e saíram novos números do Bactéria, Bizarro, A Língua, Oh! (ex-A Pedra) e Vomir. Ah! O Pepedelrey voltou com The Killer Season Fanzaíne.

Qual é a próxima jogada?

terça-feira, 18 de julho de 2000

Tentativa de explicação porque a BD de bons argumentistas continuam a ser más BDs...

É-me quase impossível escrever um argumento para um filme sem primeiro escrever uma história. Até um filme depende, além do enredo, de uma certa dose de caracterização, disposição e atmosfera; e estas pareciam-me quase impossíveis de captar pela primeira vez no manuscrito de um script. Pode reproduzir-se um efeito apanhado noutro meio, mas não se pode realizar-se o primeiro acto de criação em forma de script. Deve ter-se a noção daquilo de que se precisa. O Terceiro Homem, pois, embora não escrito para ser publicado, teve de começar como uma história, perante as aparentemente intermináceis transformações de um tratamento para outro. 
- Graham Greene, 1963 ou 1977?

sexta-feira, 7 de janeiro de 2000

A censura portuguesa dos anos 50




in Portugal Século XX : Crónica em Imagens : 1950-60 (Círculo de Leitores; 2000) de Joaquim Vieira

quinta-feira, 11 de novembro de 1999

Rui Zink in Literatura Gráfica? (Celta; 1999), pág. 66:

Mais fácil do que dizer o que é BD para adultos é dizer o que não é. É aquela que não tem como público-alvo a faixa infanto-juvenil, nem faz concessões de tratamento temático.