sexta-feira, 31 de dezembro de 2004

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2004 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2004)

 Assim não dá, que crise! Crise a rodos e para todos. Em 2003 queixava-me da miséria medieval da cena fanzinista. 2004 pareceu-me pior que nunca. Parece que tudo correu mal. Então vejamos:

_o Zundap acabou mesmo e de forma hilariante – até teve direito a notícia sobre o lançamento no Mil Folhas;

_o site bizarro.cc também foi à vida;

_o #4 do Satélite Internacional ainda não saiu – aliás, não saiu nenhum número em 2004 e perdeu o seu site;

_a participação de Isabel Carvalho na antologia norte-americana Scheherazade: comics about love, treachery, mothers, and monsters (Soft Skull) correu mal graças a impressão defeituosa;

_não houve novos números da Lx Comics e não foi por falta de orçamento da Bedeteca mas por falta de propostas!;

_quase não houve nenhuma continuação dos títulos do(s) ano(s) anterior(es) à excepção do Terminal e do Durty Kat mas em versão online: durtykat.tk;

_as editoras independentes (Associação Chili Com Carne, Círculo de Abuso, colectivo alíngua) perderam a distribuição livreira assegurada pela editora Witloof, com isto quer dizer que agora encontrar edições independentes será quase impossível – antes, mal por mal sempre estavam ao lado dos Manaras e Astérixes.

 

Coisinhas boas, poucas:

_Miguel Carneiro e Marco Mendes começaram um novo zine, o Paint Suck’s!, divertido q.b;

_o mesmo Miguel Carneiro juntamente com João Marçal editaram Bom apetite! um mini-álbum de humor propositadamente boçal e desbundado;

_novo fanzine em papel e online Aqui no canto (2 números) de João Rubim [aquinocanto.do.sapo.pt];

_das Caldas da Rainha mais zines: Vírus demente, O hábito faz o monstro e mais algum que me deve ter falhado…

_José Carlos Fernandes foi publicado na revista Tos (Espanha), o Filipe Abranches e Pedro Nora foram editados no segundo número da antologia Rosetta (cuja a edição da secção europeia ficou a cargo de Domingos Isabelinho);

_muitas feiras de fanzines na maior parte organizadas pela Associação Chili Com Carne ou pela Família Alternativa – especialmente pela última que organizou na Galeria ZDB, Feira do Livro de Lisboa, Faculdade das Caldas da Rainha (Comunicar:design), em Sines…

_o João Bragança editou o segundo número do Pecarritchitchi, o fanzine enfezado (o fanzine mais pequeno do mundo?) e lançou-se online: succedaneo.com;

_a bd O coleccionador de borboletas de José Lopes que é suplemento ao DVD, Doczine #1 - um documentário amador sobre zines e bd que infelizmente é completamente desinteressante sob vários e quase todos os pontos de vista;

_as duas únicas edições “indies” deste ano: o segundo número da CriCaClássica Ilustrada (o Mesinha de Cabeceira disfarçado!) pela Associação Chili com Carne com trabalhos de André Lemos, Pepedelrey, Ana Ribeiro, Joana Figueiredo, João Chambel, João Fazenda, André Ruivo,… e Sobre BD de David Soares, um livro de ensaios sob a chancela da Círculo de Abuso, claro.

 

Para acabar, resta a notícia que alguns alunos da António Arroios lançaram o zine Gatafunho sob a protecção do Prof. José Feitor (do Zundap), e se podemos encontrar novos talentos nas suas páginas , curiosamente é assim que se percebe que zines em papel são artigos pré-históricos para as novas gerações. Afinal sempre é mais fácil (tempo & dinheiro) fazer uma página web como acontece com a Mina Anguelova [geocities.com/undermycoat] e pergunto se não deveria começar a pesquisar pelas infinitas páginas web, galerias de novos autores… 2005 para além de se comemorar os 250 anos do terramoto de Lisboa não deveria ser antes o Ano Nacional da Reciclagem?

quarta-feira, 31 de dezembro de 2003

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2003 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2003)

Foi o ano de ruptura total das características verificadas noutros anos: os fanzines com periodicidade perderam-na (excepto o novo Espiral), relações com a Multimédia não foram mais exploradas e não houve quase nenhuma internacionalização (com a excepção da grande participação no zine suíço Milk & Wodka #IIII).

O cenário de pobreza e falta de energia só se explica com a ausência de uma nova geração de autores que a bd (no geral) nos últimos 3 anos não tem conseguido parir. Se olharmos para os autores de zines que foram envolvidos em projectos profissionais só temos o José da Fonseca a ser publicado no Lx Comics #14, e mesmo assim, é da geração d’A vaca que veio do espaço, um colectivo dos anos 80!

Haverá só uma crise geracional? Também, e uma económica que deve explicar a ausência de mais zines. Mesmo para um tipo de produção barata como a dos zines exige algum tempo e dedicação. Nestes tempos stressados que vivemos percebe-se que há pouco “tempo-é-dinheiro” para os zines.

Ainda assim continuaram: Durty Kat (da Ana Ribeiro), Terminal (com 4 números de uma só vez), Saboniz (dedicado a ilustração e design por Nuno Valério), o velho Shock (com o Tornado do Estrompa a comemorar 10 anos), Carneiro Mal Morto, Porca Frita e Notibó (ambos das Caldas da Rainha), o eterno extravagante Succedâneo (de João Bragança), Zundap (zine de cultura Pop e com morte anunciada para 2004), Sub (de Pitchu!) e O Papel do Monstro (de estudantes da FBAUL). E dos que continuaram o que teve mais impacto foi o Ups! (da Guarda) que foi acompanhado por uma exposição e que recrutou ainda os talentos de Rafael Gouveia, Filipe Abranches e André Lemos.

Novos títulos: O/velha Negra (da Madeira), Espiral (de Noé Touraldo), A Carne (de Ana Ribeiro e Miguel Tavares) e Jungle Juice (de Rute Santiago e Pitchu!). Não houve o Na verdade tenho 60 anos mas Joana Figueiredo editou os novos mini-zines Menina Jesusa e Chicken Bloody Rice, ambos de ilustração e o último com restos (falsos) de arroz de cabidela que ainda assim fez um cromo da bd vomitar!

Feiras pelo país inteiro: Caldas da Rainha, S.Romão, Cacilhas (devia ser o ano da Feira de Fanzines de Almada mas tal não aconteceu infelizmente), Cascais, Lisboa (Salão Lisboa, Estufa Fria, ZDB Tercenas), a maior parte delas organizadas pelo colectivo Crime Creme ou pela Associação Chili Com Carne. Houve uma exposição de fanzines em Viseu intitulada Cidade Desconhecida e ainda participação de alguns títulos em eventos como o Mercado Negro (Porto) e Mundo Mix (Lisboa). A maior feira dedicada às edições alternativas foi Fantasias de Natal (no Cais do Sodré), organizada por um grupo entre os quais incluía o zine Succedâneo e Associação Chili Com Carne.

Foi também um ano parado em edições independentes. Começou bem, logo em Janeiro com A última grande sala de cinema de David Soares mas ficou por aí! Ainda houve dois novos números do prozine Satélite Internacional do colectivo Alíngua e o novo prozine CanibalCriCa Ilustrada (Mesinha de Cabeceira disfarçado!) da Associação Chili Com Carne.

Frente a esta miséria medieval, o que dá para concluir é que os projectos que mais se destacaram em 2003 foram os que resultaram de esforços conjuntos – de colectivos. Num ano em que no Salão Lisboa esteve presente o associação eslovena Stripcore – que levou a desconhecida bd eslovena à internacionalização, num país com menos condições do que o nosso! – não se pode dizer não há bons exemplos para conhecer e copiar. Não é à toa que destaco Puro Capricho, uma estranha brochura do colectivo In Útil que saiu durante uma exposição de artes plásticas na Galeria Parthenon. Trata-se de uma fotonovela realizada e produzida pelo colectivo e paginada por Miguel Rocha. A atmosfera da fotonovela lembra ingenuamente as bd’s de Miguel Angél. Martin pelo “gore” cirúrgico e é o caso mais feliz em volta da bd e edição independente para 2003. O irónico disto é que este trabalho cheio de frescura resulta de esforços conjuntos de pessoas à margem da bd e da edição - se excepturamos o Miguel Rocha que era um convidado do colectivo. A união faz a força? Sem dúvida...

terça-feira, 31 de dezembro de 2002

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2002 in bedeteca.com (Bedeteca de Lisboa; 2002)

Ano de todas os paradoxos na bd portuguesa, 2002 foi o ano da crise económica-etc-nacional mas também o ano da explosão editorial que ninguém estava à espera. Ao que parece já se pode falar em mercado em Portugal - que felicidade é o Capitalismo, não?

Os fanzines continuaram a sua marcha mas romperam com as tendências registadas nos últimos dois anos: a periodicidade dos títulos deixou de ser cumprida (ex.: o Succedâneo só editou dois números quando editava 6 por ano!), não houve novidades nos formatos multimedia nem transferências de autores “amadores” para formatos profissionais – continuamos à espera de uma nova geração, tão frenética como a de 2000? Nem o intercâmbio internacional evoluiu por ai além, tirando o António José Lopes que participou na antologia eslovena MadBurguer.

Então o que se passou?

- Saíram monográficos: Há uma luz que nunca se apaga de José Lopes (editado por Geraldes Lino) e Zé Messias deputado de Artur Varela (pela Zundap), e ainda os auto-editados Uma porta serve para entrar como para sair de Pedro Moura e da coreana Koh Eun-Kang, Aconteceu de Rohke Vorne e Phermad, e Paris morreu de Nuno Duarte e Pepedelrey, todos eles criando os seus selos editoriais, Montesinos (de Pedro Moura em Seul), Dr. Makete (de Vorne) e El Pep (de Pepedelrey).

- Foram organizadas muitas feiras de fanzines e de edição independente em festivais de música (Noites Ritual, Musa, SleazeyFest, Anti-Corpos), uma na Ilustração Portuguesa 2002 e várias outras com destaque para uma organizada pelo artista João Fonte Santa num espaço de exposições do Chão de Loureiro; outra, na Lousã, organizada pelo Gambuzine; e a mais mediática, “Natal Subterrâneo”, organizada pelo grupo Família Alternativa. Só o Festival da BD Amadora é que pela segunda vez consecutiva não se interessou por uma feira de fanzines - e ainda bem, dado o mau gosto galopante e exacerbado da edição deste ano até dava mau nome aos fanzines estarem-lhe associados!

 - De fanzine para o prozine: o Mesinha de Cabeceira comemorou 10 anos de existência e editou dois números pela MMMNNNRRRG em formato profissional, tal como os dois números anteriores editados pela Associação Chili Com Carne. O fanzine A Língua acabou em 2001 mas o colectivo reencarnou este ano com uma revista cheia de potencial, o Satélite Internacional.

 - Circularam os fanzines de bd ou com bd: Bactéria, Sub, Carneiro Mal Morto, Gambuzine, Terminal, Durty Kat, Succedâneo, Improvisos na toalha da mesa, Na verdade tenho 60 anos e Zundap. Das Caldas da Rainha – um viveiro hermético de zines porque não saem para fora do círculo de estudantes do ESTAG – surgiu a Porca Frita, e em Lisboa o Cadavre Exquis aliás Cadáver Esquisito, um fanzine editado por Geraldes Lino e que publica o resultado de uma bd colectiva.

E por fim, a GRANDE novidade foi o lançamento recente (no Natal Subterrâneo) do fanzine mais pequeno do mundo (deve ser com 90% de probabilidades). Pecarritchitchi, o fanzine enfezado é fruto das mãos de João Bragança (do Succedâneo) e que conseguiu fazer páginas no tamanho de um cêntimo. O trabalho que o autor tinha vindo a desenvolver no Succedâneo não sofreu perdas de qualidade com a mudança de formato. Continua inteligente, com humor, "assemblages" e fotografia... Uma edição que remata qualquer espécie de acusação de “depressão criativa” nos fanzines de 2002!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2001

Relatório Fanzines BD Portuguesa de 2001 in Contador-mor #15 (Bedeteca de Lisboa; 2001)

Este ano, a área dos fanzines concretizou-se em mais uma mão cheia de propostas cheias de energia e inovação, mesmo quando se pode apontar para algumas das tendências registadas em 2000.

As tendências... a) Namoros com a tecnologia: mais um fanzine em CD-ROM (pelo colectivo Extractus), mais páginas web: Bizarro, A Língua, Os Positivos e Zundap, e o grande vencedor, Gritante. Um livrinho com uma bd muda acompanhado por um CD que tem a sua banda sonora mas também video-clip, música electrónica e a bd transformada em animação, teve uma instalação no Salão Lisboa, é preciso dizer mais? b) A periodicidade: para A Língua, Durty Cat (estreia da Ana Ribeiro) e Gambuzine é trimestral, para o experimental Succedâneo é uma corrida de dois em dois meses sem perder a qualidade e a loucura... veio à Bedeteca lançar um número e fez 5 anos de vida, parabéns! c) Os autores pescados para os formatos profissionais: Esgar Acelerado para o Blitz, Francisco Vidal e Pepedelrey para a colecção LX Comics.

Quanto a circulação de títulos: o Carneiro Mal Morto voltou, lançaram-se o Ex-Man (fanzine de ilustração por Miguel Carneiro), o Na verdade tenho 60 anos (de Joana Figueiredo) e o Zundap (de cultura Pop mas que muito destaca a bd e ilustração nas suas páginas), continuaram o Bactéria, o Bizarro, o Sub e o The Killer Season Fanzaíne, o autor Janus voltou com Amaldiçoado. Pelo meio fica o catálogo de fanzines organizado pelo Gambuzine que pouca funcionalidade tem devido à irreverênciazinha e às gralhas informativas. Pena. Fica para a próxima.

As novas foram os MEGAprojectos (abusadores do conceito?): no Salão Lisboa saiu um número especial do prozine Mondo Bizarre com bd’s de meia-dúzia de autores a abordarem vários géneros de música popular; O Independente tentou uma revista com espirito fanzine (sentiram alguma contradição aqui?), a Cindy seria um misto de DN Jovem e Bíblia dizia-se mas ficou pelo número zero (tal qual a saudosa revista Ai-Ai), a crise económica não perdoo; e, a Associação Chili Com Carne em coordenação com a Frente Fanzinista Internacional (a mesma do Zalão de Danda Besenhada) editou o livro (um MEGAfanzine!) Mutate & Survive de 200 páginas com 77 autores de 16 países diferentes. Neste último projecto, para além do tratamento de luxo aos fanzinistas participantes espera-se que se quebre o gelo dos tímidos portugueses com o resto do mundo.

E neste campo, há novidades, encontrámos vários portugueses em fanzines estrangeiros: Bouche du Monde (França), Milk & Wodka (Suiça), Stereoscomic Special SPX (França) e Stripburger (Eslovénia).

domingo, 31 de dezembro de 2000

Relatório Fanzines BD Portuguesa de 2000 in Contador-mor #8 (Bedeteca de Lisboa; 2000)

O "Zalão de Danda Besenhada, o último salão dos independentes", para além de ter exposto bd de outra forma, conseguiu reunir num projecto comum os melhores fanzines de Lisboa e Porto dos fins dos anos 90 num primeiro grande projecto que uniu autores das duas cidades.

Autores dos fanzines criaram editoras ou foram editados em livros: Círculo de Abuso (David Soares, Pedro Nora), MMMNNNRRRG (Janus) e Nova Comix (Isabel Carvalho, Jacques Creswell) para além dos novos números da colecção LX Comics. Foi dado um passo em frente que talvez possa vir a resultar no ténue movimento associativista que, embora especulado em 1995 num número do Comtrastes, não chegou a cumprir-se.

Novas tecnologias: o primeiro CD-ROM de bd (NetComixZine #2), bd por e-mail (Cru On-line) e passagem do Terminal para www.

Ritmos alucinantes de edição: Gambuzine trimestral e Succedâneo bimestral!

Promessas de novos números do Cru e d' A Mosca que não chegaram a acontecer. Em compensação o Carneiro Mal Morto e o Mesinha de Cabeceira voltaram. 

Muitas Feiras de Fanzines pelo país (o Festival da Amadora voltou a dar atenção aos 'zines apesar do aspecto de covil do stand) e saíram novos números do Bactéria, Bizarro, A Língua, Oh! (ex-A Pedra) e Vomir. Ah! O Pepedelrey voltou com The Killer Season Fanzaíne.

Qual é a próxima jogada?

terça-feira, 18 de julho de 2000

Tentativa de explicação porque a BD de bons argumentistas continuam a ser más BDs...

É-me quase impossível escrever um argumento para um filme sem primeiro escrever uma história. Até um filme depende, além do enredo, de uma certa dose de caracterização, disposição e atmosfera; e estas pareciam-me quase impossíveis de captar pela primeira vez no manuscrito de um script. Pode reproduzir-se um efeito apanhado noutro meio, mas não se pode realizar-se o primeiro acto de criação em forma de script. Deve ter-se a noção daquilo de que se precisa. O Terceiro Homem, pois, embora não escrito para ser publicado, teve de começar como uma história, perante as aparentemente intermináceis transformações de um tratamento para outro. 
- Graham Greene, 1963 ou 1977?

sexta-feira, 7 de janeiro de 2000

A censura portuguesa dos anos 50




in Portugal Século XX : Crónica em Imagens : 1950-60 (Círculo de Leitores; 2000) de Joaquim Vieira