Apontamentos da autoria de Marcos Farrajota para uma tentativa de escrever a História da Banda Desenhada em oposição à "História Oficial" que nos obriga a gramar com episódios inócuos e comerciais: super-heróis, idades do ouro e afins, tintins e spirous, etc...
quinta-feira, 11 de novembro de 1999
Rui Zink in Literatura Gráfica? (Celta; 1999), pág. 66:
Mais fácil do que dizer o que é BD para adultos é dizer o que não é. É aquela que não tem como público-alvo a faixa infanto-juvenil, nem faz concessões de tratamento temático.
sexta-feira, 13 de agosto de 1982
The Penguin Book of Political Comics
Steef DavidsonPenguin, 1982
Não foi a BD que me levou a este livro mas antes um livro sobre "música" / "contra-cultura" escrito por Marcus Greil. É curioso que embora a origem da BD moderna, a que conhecemos por causa do suporte de impressão, começou precisamente como uma forma artística de crítica social e política. No virar do século XX perdeu essa importância para o mercado do entertenimento para "todo o público", o que significou, na realidade, na sua infantilização para só voltar a ser interessante nos anos 60 com o movimento "underground". Mais curioso ainda é que é muito raro encontrar uma "História da BD para adultos" - e adultos não significa as fodinhas do Manara e afins. Adulto no sentido em que as obras sirvam para reflectir e discutir, que tenham um conteúdo artístico e político como tinham as de Raphael Bordallo Pinheiro, por exemplo.
Descobrir um livro destes é mesmo um achado porque revela uma história anónima focada justamente nas questões de lutas políticas e sociais - e reacionárias e de propaganda - em toda a parte do planeta: Angola, China, EUA, Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Itália, Suécia, Bélgica, Holanda,...
Graças a esta edição podemos ver várias situações interessantes, três em especial: a recolha de material inédito histórico internacional e português e o tipo de trabalho especifico que é a "BD política".
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| um cartoon e uma BD de Vicente Barão publicados no livro |
A recolha de Davidson é fabulosa: de panfletos do Partido Nazi Americano ao seu contrário (panfletos alemães de esquerda contra os Nacional-Socialistas nos anos 30), panfletos de sindicatos, de movimentos a favor da ocupações, comix underground norte-americanos (a capa não engana: Gilbert Shelton), várias BDs "detournement" da Internacional Situacionista - incluindo a BD "O regresso da coluna Durutti" que precipitou os acontecimentos de Maio de 68! -, dos Provo (movimento holandês que o autor fez parte mas onde também vamos encontrar o Willem), dos Motherfuckers, dos Panteras Negras, material de anti-comunistas, anti-corporativistas, movimentos ecológicos, e ainda BD's de sabotagem distribuídos no exército norte-americano, em bases no Vietnam e na Alemanha. Ou seja, um misto de material que tanto apareceu de forma oficial como revistas alternativas da Suécia (Almbladet e Pus), de forma efémera (panfletos, autocolantes), de díficil acesso como fanzines ou clandestino! Esta exemplar recolha vai até 1976, data da edição original holandesa.
Por fim, sobre os trabalhos propriamente ditos, será mais ou menos previsível que a qualidade dos trabalhos e dos artistas tenham diferenças monstruosas. Como vimos tanto podemos encontrar autores profissionais, militantes ou não de causas específicas, como um camarada lá no partido que costuma fazer umas bonecadas e que tem jeitinho pró desenho. Vamos encontrar um Robert Crumb apanhado pelos sinais dos tempos, um Spain que acredita nas Panteras Negras; alguns fizeram BDs de forma oficial como Joost Swarte que desenha um panfleto, em 1973, contra o consumo de marcas com café angolano como forma de oposição à guerra colonial do governo português; outros são "ripados" como uma colagem que usa um desenho de Crumb para uma mensagem Situacionista - na referência aparece "Portugal, 1971; cartaz distribuído em universidades", curiosamente... E é sobretudo nesta área que vamos encontrar muitas BDs, especialmente Situacionista, aplicando o "desvio" ou o "detournement" -, ou seja, o uso de material visual alheio para aplicar outros textos e subvertendo a mensagem original. Eis um exemplo que apanhei recentemente de uma figura portuguesa insuspeita! Esta prática aparece por todo lado muitas vezes usando BDs comerciais bastante conhecidas (Super-Homem, Fantasma, personagens da Marvel e Disney) outras menos. Algumas usam um misto de desenho e fotografia, outras exclusivamente fotografias ou até fotonovelas - conhecidas erroneamente nos países anglos-saxónicos como "fumettis".
Como é óbvio não é a qualidade artística que interessa aqui mas sim a forma como a mensagem política é aplicada e divulgada. Nesse aspecto a maior parte dela é óbvia e directa, e curiosamente, aquela que é mais sofisticada a nível de texto é a propaganda fascista, não que o seu índice de intelectualidade seja elevado mas sobretudo porque fazem "piscar de olhos" aos burguesitos que devem pensar que são muito inteligentes... Aliás esse sempre foi o modo de operar da Direita, o de enganar o cérebro vaidoso da civilização, o da procurar mostrar ao público o quanto é superior. Dizia Morris, criador do Lucky Luke, a propósito do cão Rantanplan ou do irmão tótó dos Dalton para explicar o sucesso destas personagens: "o público gosta sempre de uma personagem estúpida". Talvez isso explique porque nas Democracias actuais tivemos ou temos gente burra e fascista como o Bush Jr. ou o Cavaco...
sexta-feira, 14 de agosto de 1981
Ranters
quinta-feira, 24 de julho de 1980
Terceira Guerra Mundial
Imagino que sempre será assim: "estou no escritório e dois aviões batem contra duas torres", "estou no escritório e explode a estação Atocha", "estou no escritório e descobre-se que morreram todos os peixes porque uma fábrica despejou ilegalmente produtos químicos no rio",...
Se as primeiras duas Grandes Guerras foram eurocêntricas, a terceira não o é. É tão pós-moderna como os dias que vivemos: fragmentada e irónica, cosmopolita e mediática, local e escondida, com eventos chocantes vividos até à exaustão para serem ignorados logo a seguir.
Há casos humorísticos (as torres gémeas do 11/9) ou casos dramáticos (como o caso das vítimas em Beslan). Há casos inacreditáveis de lutas locais pelo direito de viver onde sempre se viveu como os sobreviventes de Nova Orleães que nem sabiam que o pior ainda estava para vir depois do furacão quando verificaram que a Câmara da cidade queria destruir as casas para pura especulação imobiliária. Há aldeias a serem destruídas pelos próprios governos que as deviam proteger (como na Coreia do Sul). Há histórias individuais de lutas ainda maiores que a “nação contra nação” como a morte de ciclistas em Nova Iorque em acidentes sem que lei puna os cidadãos automobilistas (porque na América um cidadão de automóvel é melhor que um cidadão biciclista) ou de mulheres a confrontarem-se com o chorudo negócio das Associações do Cancro da Mama mais preocupado com as remunerações dos seus dirigentes do que as vítimas, ou ainda a luta de um puto cujos desenhos foram obscenos num tribunal...
Talvez ninguém nos tenham dito isso mas sim a Guerra já começou, e não na daquela forma popular de cogumelos gigantes vista mil vezes em salas de cinema e BD xunga - essas sempre foram evitadas.
A Terceira Guerra Mundial começou em 1980 quando Seth Tobocman e Peter Kuper decidiram ilustrá-la. Para quem ainda não percebeu ou para quem nunca teve acesso à publicação, falo da revista norte-americana de bd World War 3 Illustrated (44 números + 2 livros "best of") que facilmente é vista como uma “revista de Esquerda” - num país que eliminou a Esquerda nos anos 50. É a única publicação de BD cujo conteúdo é 100% político – não desfazendo da italiana Inguine mas que é recente… Mas mais que política é militante, tanto que tirando Tobocman, Kuper (que defendeu Mike Diana no tribunal), Eric Drooker, Fly (também conhecida pela banda God Is My Co-Pilot), Nicole Schulman, e as colaborações esporádicas de Art Spiegelman e Kyle Baker, muitas vezes as BD’s são de autores desconhecidos, tecnicamente não muito aptos mas sobretudo muito emotivos, relatores de desgraças e bravos combatentes contra injustiças sociais ou lutas monstruosas.
É com os temas de cada número que as características da 3ªGM ganham forma: "unnatural disasters", "neo-cons", "life during wartime", "taking liberties",... Bom, de volta ao trabalho!
quarta-feira, 26 de junho de 1974
&etc
#6 - 30/3/1973, pág 17 - BD /ilustração de José Araújo
#19 - Jan'74, pág. 19 - BD de Mário-Henrique Leiria e Lud
#20 -Fev'74, pág. 10 e 11 - umor & comics de vários autores?
#21 - Mar'74, contra-capa - cartoons de Diogo
#22 - Abr/Mar'74, págs. 9-13 - bd de Jaime Dias (?) e crítisa a Wanya por grupo Aleph
#23 - Jun'74, págs. 8 e 9 - texto "Heróis de Papel" do grupo Aleph
#24 - JuL'74, págs 10 e 11 - comics de vários autores
sábado, 15 de dezembro de 1973
Rupert
Um "detournement" a Robert Crumb (com cabeça de Rupert) que levou a publicação Oz a tribunal, não por violação de direitos de autor, como aconteceu com Metakatz em 2011, mas por obscenidade...
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| Retirado do livro Nasty Tales : Sex, Drugs, Rock'n'Roll and violence in the Britsih Underground (Headpress; 2001) de David Huxley |
domingo, 21 de março de 1971
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