Só se fala em crise neste nosso país mas parece que a máxima “em tempos de crise é que aparece a criatividade” acaba por ser verdade. Não que tenham aparecido muitas inovações, como aconteceu nos anos 90 e princípios de milénio mas pelo menos no mundo da edição independente – seja fanzine, zines, livros de autor – tem havido massa crítica o suficiente nem que seja para escrever um texto como este.
Muitas
páginas, apesar da crise…
Desde
já, é de constatar que continuaram a ser publicados os seguintes fanzines e
zines: o Boletim CPBD, Facada de Tiago Baptista, [R]eject de Andreia
Rechena, Tertúlia BDzine e Efeméride ambos editados por Geraldes Lino.
Regressou o Gambuzine de Teresa Câmara Pestana, agora como uma nova numeração
/ nova série. A Joana Figueiredo lançou mais um zine com um título marado –
desta vez é o Post Shit que fez tanto sucesso no Crack (Roma) e no Festival
de Helsínquia que acho que não deve ter chegado a ser divulgado em Portugal… -
e Os Gajos da Mula lançaram Fantôme Galicia. O autor algarvio Phermad lançou
a colectânea De trute ise aute der que compila bd’s publicadas no seu antigo
projecto, o zine Terminal.
Novinhos
em folha foram Znok de Filipe Duarte e Faixa
Em
formato mais profissional saiu o número dois do Alçapão – fanzine de
arquitectura dura que incluiu uma bd de João Sequeira e muita (boa)
ilustração; Le Sketch, projecto de Paulo Patrício; os Opuntias Books
materializaram-se em três novos títulos com aspecto luxuoso e muito apelativo;
a Kingpin lançou os terceiros volumes das suas séries; a Imprensa Canalha
editou mais uns graphzines e a antologia Cabeça de Ferro; a Chili Com Carne
lançou um volume de Mercantologia, colecção dedicada a recuperar material dos
zines, intitulado Noitadas, Deprês e Bubas que reedita bd’s antigas do Mesinha de Cabeceira. A Bedeteca de Beja continuou o Venham+
Novidades:
saiu um livro intitulado Murmúrios das Profundezas que apesar de ter
resultados muito pobres a todos níveis (o texto, as adaptações, os desenhos e
técnica das bd’s e o design) é interessante porque é um projecto sinergético e
colectivo para um país cheio de individualistas. Copiando o “template” que foi
o Virgin’s Trip (El Pep; 2006), reúne autores envolta de um tema comum, neste
caso estórias do H.P. Lovecraft que são adaptadas para bd. O esforço de fazer
um livro “grande” é assim partilhado e sendo colectivo tem mais hipóteses de
chegar a mais público também. Creio que podia ser um bom modelo para que a haja
mais edição em Portugal… Apareceu uma nova editora, a Plana Press que lançou
dois títulos: Pandora Complexa
De
referir também o livro Os Frescos da Aldeia das Amoreiras editado pelo Centro
de Convergência / GAIA, que documenta uma experiência de bd na forma de pintura
mural numa aldeia alentejana.
De
um lado para o outro
Passaram por Lisboa no âmbito da exposição Honey Talks o autor Jakob Klemencic (publicado em Portugal pela Polvo e Chili Com Carne e na Quadrado) e o editor David Krancan, ambos da revista eslovena Stripburger; o colectivo brasileiro do zine Bongolê Bongoró esteve no evento Brucutumia 2008; o francês Guillaume Soutlages esteve durante a Feira Laica na Bedeteca de Lisboa; a sueca Kriistina Kohlemainen (organizadora da SPX de Estocolmo) foi convidada para os colóquios Banda Desenhada e Bibliotecas, e o polémico autor norte-americano Mike Diana esteve no Furacão Mitra. Ainda de referir as autoras finlandesas Anna Kaisa Laine e Tiitu Takalo que acidentalmente caíram (de pára-quedas?) na Feira de Fanzines de Almada e Feira Laica de Coimbra.
Mas
também houve o inverso, portugueses a visitarem eventos internacionais como
representantes da Chili Com Carne que foram ao Festival de Angoulême (França),
SPX (Suécia), Crack (Itália), Festival de Helsínquia – também a Chili Com Carne
foi representada no Boom Fest,
A
nível de publicação, alguns autores portugueses participaram em publicações
estrangeiras como Filipe Abranches na Stripburger e Splot (Polónia), uma
série de autores no habitual zine suíço Milk+Wodka, Teresa Câmara Pestana no
zine feminino e finlandês Irtoparta, Richard Câmara no zine espanhol ARGH!,
o autor destas linhas no «jornal ilustrado com um mês de atraso» Aooleu (Roménia), e como sempre André Lemos é o autor mais internacional que colaborou
nos seguintes zines (espero ter apanhado todos!):
Foi um ano em que em Lisboa fecharam a loja de Design Goma 386 e a galeria Work&Shop, sítios que comercializavam produções independentes e organizavam exposições de ilustração e bd. Em compensação, as lojas Central Comics, Kinpin Books e Mundo Fantasma reformularam os seus espaços dando uma maior dinâmica à produção nacional, e no Porto abriram a Dama Aflita e a Inc., a primeira é uma galeria dedicada à ilustração e a segunda uma livraria de edições de autor.
Talvez pela falta de estabilidade dos espaços comerciais portugueses é que se tem solidificado cada vez mais eventos “indies” em volta da edição, cada vez mais com uma programação ousada. Este ano houve três edições da Feira Laica, as segundas edições da MAGA nas Caldas da Rainha e do Bunny Weekend em Lagos – e o celebrado Furacão Mitra. Foi o ano de uma Feira de Fanzines de Almada que mais valia não regressar já que a organização actual do evento é incapaz de envolver a comunidade fanzinista na sua programação.
Desapaixonado este texto? Sim, sem dúvida… As edições relatadas também o são? Nada disso, não me permitindo fazer muitos juízos de qualidade – por várias razões, entre elas porque estes relatos não o permitem e por outro fazendo eu próprio parte da “cena”… Que giro! É que existe mesmo uma “cena”! – mas dizia, não me permitindo a fazer esses juízos, só há algo a fazer, é procurar estes títulos, estas editoras e julgar por si mesmo.
Como tudo na vida encontrará coisas que não serão do total agrado, outras pelo contrário serão revelações mas só nesta “cena” é que poderão desfrutar prazeres narrativos e estéticos porque de resto, na sua livraria predilecta a bd deixou de existir – não sei que dirá o Daniel Maia este ano nas “Edições” – tal como acontecia até aparecer a Bedeteca de Lisboa em 1996. Resumindo, nas livrarias não acontece nada… se existe algo é no mundo dos fanzines!