O
Não sei o que aconteceu em
2004 mas é nesse ano que Marco junta-se a Miguel
As bd’s que publica em todos
estes títulos parecem “inacabadas” – ou seja, estão “ainda” a lápis, não foram passadas
a “limpo” (ou a preto), algumas pranchas até tem algum ensaio de cor. A perícia
técnica “naturalista” a que a maior parte da bd está associada está lá mas
parece que estamos antes a ver esboços do que um “produto final” até porque os
textos estão cheios de palavras riscadas ou saem dos limites dos balões ou das
caixas. A urgência de puxar a realidade para uma folha de papel ultrapassa os
formalismos e convenções de escrita e do desenho que habitualmente estamos
habituados a ver/ler na bd. O que é necessário é colocar o amigo
Marco vive uma altura
fantástica no que diz ao mundo da bd – aliás, é a BD que vive uma altura
fantástica de expansão no mundo infiltrando-se tanto na galeria de arte (por
acaso Marco é representado por uma) tanto como na livraria generalista tal é a
riqueza de propostas que tem oferecido nas últimas décadas. Uma das razões desta
riqueza deve-se também aos desenvolvimentos tecnológicos da impressão que
permitem reproduzir as tais “bd’s inacabadas” com uma qualidade impensável para
quem se via à rasca (por exemplo) com a fotocopiadora dos anos 80. Marco tal
como muitos autores a nível mundial - da Anke Feuchtenberger aos Elvis Studio, da
Amanda Vähämäki ao Brian Chippendale - podem imprimir as bd’s “urgentes” em
formatos baratos, como um zine fotocopiado, sem ter de passar pelos processos
de desenhar o lápis e depois a tinta onde se costuma perder a espontaneidade do
primeiro registo.
Desde os anos 60 que se tem
quebrado a lógica da divisão de tarefas na bd – vindo do “fordismo” dos
“comics” desde anos 30. Robert Crumb e Moebius cada um do lado do Atlântico e à
sua maneira trouxeram a “escrita automática” e o “cadáver-esquisito” para a bd.
Harvey Pekar trouxe a autobiografia tão ou mais importante que as “freakalhices”
dos outros dois monstruosos autores. Finalmente na bd podíamos TER realidade… um
registo do que é o mundo em bd – algo impossível de ter com as distorções
caricaturais ou escapistas que a bd estava associada.
Em Portugal existe “bd de
autor” desde 1975 com a revista Visão mas
são poucos as obras que digam o que “é Portugal” na bd. Na Visão apareceram alguns contos sobre o Ultramar, aqui e ali pode-se
encontrar algumas aproximações biográficas (mais “realistas”? mais
“intimistas”?) da sociedade portuguesa pós-25 de Abril -
Daqui umas décadas os Historiadores
ainda irão pensar que a bd é um produto infantil porque terão dificuldades em
encontrar obras que lhes digam o que raios os portugueses sentiam, faziam ou
que paisagem lhes rodeava desde 1950 (ano que Botelho deixa de fazer os “Ecos
da Semana”), no máximo poderão saber que havia boémia e uma cena artística no
Porto ou empregos miseráveis em Portugal!