Ano de todas os paradoxos na bd portuguesa, 2002 foi o ano da crise económica-etc-nacional mas
também o ano da explosão editorial que ninguém estava à espera. Ao que parece
já se pode falar em mercado em Portugal
- que felicidade é o Capitalismo, não?
Os fanzines continuaram a sua
marcha mas romperam com as tendências registadas nos últimos dois anos: a
periodicidade dos títulos deixou de ser cumprida (ex.: o Succedâneo só editou
dois números quando editava 6 por ano!), não houve novidades nos formatos
multimedia nem transferências de autores “amadores” para formatos profissionais
– continuamos à espera de uma nova geração, tão frenética como a de 2000? Nem o
intercâmbio internacional evoluiu por ai além, tirando o António
José Lopes que participou na antologia eslovena MadBurguer.
Então o que se passou?
- Saíram monográficos: Há uma
luz que nunca se apaga de José Lopes (editado por Geraldes Lino) e Zé Messias
deputado de Artur Varela (pela Zundap), e ainda os auto-editados Uma porta
serve para entrar como para sair de Pedro Moura e da coreana Koh Eun-Kang, Aconteceu de Rohke Vorne e Phermad, e Paris morreu de Nuno Duarte e Pepedelrey, todos eles criando os seus selos
editoriais, Montesinos (de Pedro Moura em Seul), Dr. Makete (de Vorne) e El Pep
(de Pepedelrey).
- Foram organizadas muitas feiras
de fanzines e de edição independente em festivais de música (Noites Ritual,
Musa, SleazeyFest, Anti-Corpos), uma na Ilustração Portuguesa 2002 e várias
outras com destaque para uma organizada pelo artista João Fonte Santa num
espaço de exposições do Chão de Loureiro; outra, na Lousã, organizada pelo
Gambuzine; e a mais mediática, “Natal Subterrâneo”,
organizada pelo grupo Família Alternativa. Só o Festival da BD Amadora é que
pela segunda vez consecutiva não se interessou por uma feira de fanzines - e
ainda bem, dado o mau gosto galopante e exacerbado da edição deste ano até dava
mau nome aos fanzines estarem-lhe associados!
- De fanzine para o prozine: o Mesinha de Cabeceira comemorou 10 anos de existência e editou dois números
pela MMMNNNRRRG em formato profissional, tal como os dois números anteriores editados pela
Associação Chili Com Carne. O
fanzine A Língua acabou em 2001 mas o colectivo reencarnou este ano com uma
revista cheia de potencial, o Satélite Internacional.
- Circularam os fanzines de bd ou
com bd: Bactéria, Sub, Carneiro
Mal Morto, Gambuzine, Terminal, Durty Kat, Succedâneo, Improvisos na toalha da mesa, Na verdade tenho 60 anos e Zundap. Das Caldas da Rainha – um viveiro hermético de zines porque não saem
para fora do círculo de estudantes do ESTAG – surgiu a Porca Frita, e em
Lisboa o Cadavre Exquis aliás Cadáver Esquisito, um fanzine editado
por Geraldes Lino e que publica o resultado de uma bd colectiva.
E por fim, a GRANDE novidade foi
o lançamento recente (no Natal Subterrâneo)
do fanzine mais pequeno do mundo (deve ser com 90% de probabilidades).
Pecarritchitchi, o fanzine enfezado é fruto das mãos de João Bragança (do
Succedâneo) e que conseguiu fazer páginas no tamanho de um cêntimo. O trabalho
que o autor tinha vindo a desenvolver no Succedâneo não sofreu perdas de
qualidade com a mudança de formato. Continua inteligente, com humor,
"assemblages" e fotografia... Uma edição que remata qualquer espécie
de acusação de “depressão criativa” nos fanzines de 2002!