terça-feira, 31 de dezembro de 2002

Relatório de Fanzines de BD Portuguesa 2002

Ano de todas os paradoxos na bd portuguesa, 2002 foi o ano da crise económica-etc-nacional mas também o ano da explosão editorial que ninguém estava à espera. Ao que parece já se pode falar em mercado em Portugal - que felicidade é o Capitalismo, não?

Os fanzines continuaram a sua marcha mas romperam com as tendências registadas nos últimos dois anos: a periodicidade dos títulos deixou de ser cumprida (ex.: o Succedâneo só editou dois números quando editava 6 por ano!), não houve novidades nos formatos multimedia nem transferências de autores “amadores” para formatos profissionais – continuamos à espera de uma nova geração, tão frenética como a de 2000? Nem o intercâmbio internacional evoluiu por ai além, tirando o António José Lopes que participou na antologia eslovena MadBurguer.

Então o que se passou?

- Saíram monográficos: Há uma luz que nunca se apaga de José Lopes (editado por Geraldes Lino) e Zé Messias deputado de Artur Varela (pela Zundap), e ainda os auto-editados Uma porta serve para entrar como para sair de Pedro Moura e da coreana Koh Eun-Kang, Aconteceu de Rohke Vorne e Phermad, e Paris morreu de Nuno Duarte e Pepedelrey, todos eles criando os seus selos editoriais, Montesinos (de Pedro Moura em Seul), Dr. Makete (de Vorne) e El Pep (de Pepedelrey).

- Foram organizadas muitas feiras de fanzines e de edição independente em festivais de música (Noites Ritual, Musa, SleazeyFest, Anti-Corpos), uma na Ilustração Portuguesa 2002 e várias outras com destaque para uma organizada pelo artista João Fonte Santa num espaço de exposições do Chão de Loureiro; outra, na Lousã, organizada pelo Gambuzine; e a mais mediática, “Natal Subterrâneo”, organizada pelo grupo Família Alternativa. Só o Festival da BD Amadora é que pela segunda vez consecutiva não se interessou por uma feira de fanzines - e ainda bem, dado o mau gosto galopante e exacerbado da edição deste ano até dava mau nome aos fanzines estarem-lhe associados!

 - De fanzine para o prozine: o Mesinha de Cabeceira comemorou 10 anos de existência e editou dois números pela MMMNNNRRRG em formato profissional, tal como os dois números anteriores editados pela Associação Chili Com Carne. O fanzine A Língua acabou em 2001 mas o colectivo reencarnou este ano com uma revista cheia de potencial, o Satélite Internacional.

 - Circularam os fanzines de bd ou com bd: Bactéria, Sub, Carneiro Mal Morto, Gambuzine, Terminal, Durty Kat, Succedâneo, Improvisos na toalha da mesa, Na verdade tenho 60 anos e Zundap. Das Caldas da Rainha – um viveiro hermético de zines porque não saem para fora do círculo de estudantes do ESTAG – surgiu a Porca Frita, e em Lisboa o Cadavre Exquis aliás Cadáver Esquisito, um fanzine editado por Geraldes Lino e que publica o resultado de uma bd colectiva.

E por fim, a GRANDE novidade foi o lançamento recente (no Natal Subterrâneo) do fanzine mais pequeno do mundo (deve ser com 90% de probabilidades). Pecarritchitchi, o fanzine enfezado é fruto das mãos de João Bragança (do Succedâneo) e que conseguiu fazer páginas no tamanho de um cêntimo. O trabalho que o autor tinha vindo a desenvolver no Succedâneo não sofreu perdas de qualidade com a mudança de formato. Continua inteligente, com humor, "assemblages" e fotografia... Uma edição que remata qualquer espécie de acusação de “depressão criativa” nos fanzines de 2002!